terça-feira, 16 de março de 2021

Sobre perdas. Sobre Juranda. Sobre nós




Por Eduardo Modesto,

Há muitos anos atrás, muitos mesmo, um povo muito religioso estava dentro das igrejas, era feriado e toda cidade de Lisboa atendia ao chamado dos sinos que repicaram cedo nos campanários convidando-os a cumprirem com suas obrigações de consciência.

Pois bem, naquele Dia de Todos os Santos de 1755, nenhum Lisboeta poderia imaginar o que viria a seguir.

Um movimento no fundo do mar, a muitos quilômetros dali, criou um terremoto tão forte que fez a cidade tremer por mais de 2 horas. Prédios caíam. As igrejas, lotadas, viravam escombros. Incêndios ardiam. Havia grito e muita dor. 

Não bastasse, horas depois a cidade foi varrida por um maremoto. Um tsunami como chamamos hoje. 

A bela capital do império luso amanhecera resplandecente e dormiu destruída. Insepulta. Um desastre apocalíptico.

Guardadas todas as devidas proporções me atrevo dizer que nenhum de nós, camposbelenses, pensamos em sofrer tanto com tantas perdas quando o sol parecia começar a nascer novamente após meses de incertezas.  

A sensação que tenho é que a qualquer instante pode acontecer uma nova despedida. Perdemos a senhora do hotel. A jovem daquela igreja. O homem festeiro e cheio de amigos. O jovem engenheiro. O vice-prefeito. A lista não para. 

Foi-se o tempo que o luto era familiar. Hoje é coletivo. É solidário. É preocupante. É agoniante. 

Campos Belos vive uma catarse coletiva. Comunicando com os olhos, apenas, trocamos cumprimentos consternados, nos poucos lugares que ainda podemos ir. Como se apenas com o olhar disséssemos ou implorássemos, se cuida meu amigo. Os dias estão difíceis demais.

Os que têm fé, agarram-se a ela. Os que choram, se socorrem onde podem. E há os que vendem lenços, pois não se pode deixar de viver, mesmo que duramente.

A morte do Juranda tira de cena alguém que sempre esteve na pauta do dia. 

Ungido por aquele óleo que somente o Poder das autoridades traz a alguém, ele soube viver com a aura do Poder e no meio do Povo. Sua partida é simbólica em tempos tão penosos. 

Eu nunca troquei um bom dia com ele. Talvez ele nunca soube da minha existência. Mas ele sempre esteve ali. Era uma figura daquela certa no nosso meio. 

Tão certo como existe a estátua de Dom Alano, havia Juranda socorrendo seus conterrâneos.

Não sei, tenho pra mim que em épocas de grande sacrifício coletivo, forja-se uma identidade. Campos Belos nunca mais será a mesma depois desses tempos horríveis. 

Por mais grossa que seja nossa resistência, temos rachaduras que crescem com lágrimas que não param de cair em memória dos que perdemos nesses últimos dias. 

Com os olhos marejados pela lembrança dos que ficaram no caminho, teremos que seguir. Teremos que nos levantar.

No dia seguinte o sol nasceu sobre Lisboa. O mar se acalmou e o povo se uniu para reconstruir, das cinzas, uma nova comunidade.

Quem seremos nós, aqui, entre as serras de Goiás? Por ora, um povo unido na dor de famílias que se tornaram nossas. Mas que juntos, sempre se erguem. O mar , um dia, irá se acalmar.

Pranteemos hoje para nos abraçarmos e seguirmos amanhã, sob um novo sol, quando tudo isso passar.

Descansem, queridos que partiram. Vocês não serão esquecidos.

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