sexta-feira, 27 de novembro de 2020

De Campos Belos (GO), Lucas Pires dá voz à juventude negra e periférica em livro sobre racismo




Nascido e criado em Morada Nova, bairro da cidade de Campos Belos, no nordeste goiano, Lucas Pires é mais um jovem negro a lutar e vencer as estatísticas. 

Aos 20 anos, o goiano radicado em Brasília é hoje um dos autores independentes mais vendidos da Amazon com o livro Metafísica dos Clichês: Para Jovens que se Tornaram Adultos Cedo Demais, além de dar voz às minorias em palestras já assistidas por mais de 12 mil pessoas.

Filho de pai mecânico e mãe merendeira, e caçula de sete irmãos, o autor conta em seu texto como conseguiu driblar as dificuldades de uma infância sem privilégios, ingressar no curso de Direito em uma conceituada universidade do Centro-Oeste, o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), até o primeiro emprego no Palácio do Itamaraty. 

“Se eu consegui, por que não deixar um rastro, um passo-a-passo, para que as outras pessoas que, assim como eu, estavam perdidas e desacreditadas, consigam também?”, diz Lucas sobre a motivação para escrever o livro.

A obra aborda as injustiças sociais que se impõem a Lucas e seus antepassados no Brasil há mais de 500 anos, como a falta de acesso à educação de qualidade, assistência às minorias e desestrutura familiar.

Os temas podem ser complexos para quem tem tão pouca idade, mas não para quem sente na pele o peso da discriminação e, mesmo assim, venceu um a um cada obstáculo.

De Dona Nelcilia a Fernando Pessoa

Lucas Pires lembra que o gosto pela leitura lhe acompanha desde a infância. Aprendeu a ler com 3 anos e, aos 5, foi o orador da turma do primário. A maior incentivadora foi a avó Dona Nelcilia. Semianalfabeta, todas as tardes, a matriarca pedia ao neto para ler o Jornal dos Vicentinos para ela.

“Era engraçado porque nas duas últimas páginas deste jornal sempre havia uma poesia e uma anedota. Minha avó pedia para eu pular a poesia e ir direto para a anedota, mas meus olhos sempre corriam primeiro pela poesia”, conta. 

E, numa dessas passadas de olhos, conheceu os versos de Fernando Pessoa que, segundo ele, se tornariam o mantra de sua vida. “Não sou nada/ Não posso querer ser nada/ Nunca serei nada/ A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Quando fez 18 anos, Lucas Pires veio a Brasília, sozinho, pela primeira vez, para prestar vestibular no IDP, e passou. Sem dinheiro para custear os estudos, precisou buscar auxílio no Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES) e conseguiu. Assim, despediu-se da família e veio ao DF lutar por uma vida melhor.

O escritor ressalta as dores de ser um dos poucos estudantes pretos do curso. “É desconfortável, não me sinto representado. Somos poucos no ambiente acadêmico, mas a maioria entre os bolsistas. 

Também temos mais dificuldades para arrumar estágio. Só somos procurados no mês da Consciência Negra para mostrarem que há diversidade. Exibir o negro na vitrine está na moda, mas eles não nos têm em estoque”, considera.

Oportunidade

Escrever o livro, de forma totalmente independente e sem grandes pretensões, fez com que Lucas se surpreendesse com a repercussão. “Não há editora por trás do marketing, da diagramação… eu simplesmente meti a cara, sem entender dos desafios do mercado literário brasileiro”, salienta. 

O sucesso e visibilidade advindos da publicação abriram portas. “As oportunidades foram surgindo naturalmente, me deu lugar e espaço de fala. Querendo ou não, minha história é inspiradora e abrange campos diversos como superação, perseverança e empreendedorismo”, explica Lucas.

Desde que lançou Metafísica dos Clichês, Lucas Pires já esteve presente em eventos importantes como a Feira do Estudante e o Congresso Nacional da Juventude, ambos em Brasília. 

Também falou para todo o estado de Goiás no evento on-line, além de inúmeras visitas em escolas públicas do ensino médio do DF e Paraíba. “Tento passar que tudo bem ter dificuldades, não conseguir enxergar os caminhos e desistir às vezes. Mas o que você faz a partir disso? É sobre tomar uma rasteira, se levantar e bater de volta, correr, pular, voar…Fazer diferente”, sugere.

Lucas Pires ensina os jovens do novo milênio que, independente da cor e classe social, é um direito de todos sonhar grande e voar alto:

“A minha meta pessoal é ser eleito pela Forbes um dos jovens que podem mudar o mundo antes dos trinta anos, também quero publicar a versão física do meu livro pela Harper Collins, uma das maiores editoras do mundo com um grande com mais poder de impacto. 

Além disso, estou trabalhando muito duro para sentir os palcos do TEDx e viajar o Brasil e o mundo falando sobre as soluções para problemas tão presentes. Em resumo, estou caminhando para ser o Lucas Pires dos meus sonhos”, conclui.

Fonte e texto: Metrópoles 

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