sábado, 29 de agosto de 2020

Cada vez mais a Covid tem vitimado pessoas que moram juntas e despedaçado famílias. Somente neste mês, pelo menos cinco casais morreram em Goiânia




Cada vez mais o coronavírus (Sars-CoV-2) tem vitimado pessoas que moram juntas e despedaçado famílias. Nesta sexta-feira (28), a advogada Vânia Lúcia Gonçalves Hummel, de 73 anos, morreu devido a complicações da Covid-19. 

Dois dias antes, o esposo dela, o desembargador aposentado do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (GO), Norton Hummel, de 80 anos, faleceu depois de ter sido infectado com o vírus. 

Somente neste mês, pelo menos cinco casais morreram por conta da doença (veja quadro).

Um deles foi o ginecologista e obstetra Altamiro Araújo Campos, de 71 anos. Ele foi um dos fundadores da Ela Maternidade, em Goiânia, e era professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). 

Ele morreu três dias antes da esposa, a professora Maria Ribeiro Campos, de 64 anos. No dia 13, o casal Eurides Cândido Cunha, de 75 anos, e Avelina Queiroz Cunha, de 68, morreu com uma diferença de quatro minutos, em Goiânia. Eles moravam em Iporá e deixaram dois filhos, genros, noras e netos. Alguns deles também foram infectados com a Covid-19, mas recuperaram.

O médico epidemiologista e membro do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública para o Novo Coronavírus (COE), João Bosco Siqueira, explica que o aumento da transmissão domiciliar da doença e consequentemente dos óbitos de pessoas que moram na mesma casa ou são da mesma família, é uma realidade. 

“Dentro de casa as pessoas ficam mais próximas e ficam mais à vontade para não usarem máscaras. Sendo assim, se alguém estiver infectado, o risco de passar a doença para outra pessoa é maior.”

O epidemiologista explica que nos dois inquéritos epidemiológicos feitos em Goiânia, se constatou que cerca de 50% das pessoas que moravam na mesma casa de uma pessoa que infectada, apresentavam anticorpos para a doença. “Isso mostra que a transmissão dentro de casa é um risco grande”, aponta.

Siqueira relembra ainda que muitas pessoas, principalmente as mais jovens, permanecem assintomáticas quando estão infectadas. “Isso pode gerar uma grande cadeia de transmissão dentro de casa e fora dela também”, pontua. O especialista diz ainda que o aumento da transmissão familiar da doença se dá também pelo fato de que grande parte da população está desacreditada dos efeitos devastadores da pandemia. 

“Se soma um cansaço, já que estamos no sexto mês de quarentena, com a falsa sensação de segurança de que a situação está controlada e as pessoas acabam deixando de se cuidar”, explica.

Caso a pessoa já esteja infectada, Siqueira explica que o ideal é que ela se isole dentro da própria casa. “Pode ser que as pessoas que moram com ela ainda não tenham contraído a doença. Na dúvida, o ideal é ficar isolado”, esclarece. 

O epidemiologista ressalta ainda que é preciso tomar cuidado com pequenas coisas como os talheres, pratos e copos que a pessoa infectada usar. “Eles precisam ser lavados rapidamente e quem for fazer isso tem de tomar cuidado para manter as mãos longe dos olhos, boca e nariz”, diz. 

O uso de máscara dentro de casa também é recomendado. “Sabemos que muitas famílias vivem em espaços pequenos e não têm condições de deixar um cômodo para o uso exclusivo da pessoa infectada. Nestes casos, o uso de máscara é ainda mais necessário e todo o distanciamento que for possível também”, explica.

Fora de casa

Siqueira explica que a única maneira para quem precisa sair de casa reduzir o risco de levar o vírus para os familiares na voltar é tomar todos os cuidados. O uso de máscara o tempo todo e a lavagem das mãos aliada ao álcool em gel são essenciais. 

“O risco de transmitir ou pegar a doença dentro de casa aumenta quando não somos cuidadosos na hora de sair. A transmissão domiciliar só ressalta o quanto precisamos ser cuidadosos fora de casa”, frisa o epidemiologista.

O médico alerta ainda que quem mora ou convive com outras pessoas que fazem parte do grupo de risco da doença, em especial idosos e quem tem comorbidades, precisa ter ainda mais cuidado. 

“Sabemos que nos jovens a doença se apresenta normalmente de forma mais branda. Entretanto, no grupo de risco ela costuma ser grave e evoluir para óbito”, diz. Ele aconselha que nestes casos, as pessoas evitem ao máximo sair de casa. “Tem de deixar para quando realmente for necessário”, enfatiza.

O casal mais amado de Ipameri

Quando o militar aposentado e engenheiro eletrônico Nelson Teixeira Duarte, de 82 anos, ficou noivo da dona de casa Heddy Jacob Duarte, de 85, há 60 anos, ele escreveu uma carta com a seguinte frase: ‘Serei fiel a ti, assim como a morte é fiel a mim’. 

No dia 4 de julho deste ano, Heddy faleceu devido a complicações causadas pelo coronavírus (Sars-CoV-2). No dia seguinte, foi a vez de Nelson. “Meu pai não aguentaria viver sem minha mãe. Apesar da nossa tristeza, foi como tinha que ser”, relata o filho mais novo do casal, Nelson Júnior, de 43 anos.

O filho conta que o pai era apaixonado pelo Exército Brasileiro e conservava as tradições da época que estava em atividade “Ele era rigoroso com a alimentação. Tudo para ele tinha a hora certa. Ele amava frequentar os eventos militares”, diz. A outra paixão do idoso, que não possuía nenhum problema de saúde, era a eletrônica. 

“Depois que ele foi para a reserva do Exército ele cursou Engenharia Eletrônica e fez muitos cursos. Aqui em Ipameri, todo mundo o conhecia como o sargento Nelson. Ele que cuidava da torre de televisão. Caso o sinal caísse, começavam a ligar aqui em casa querendo saber o que aconteceu”, relembra Júnior.

Já Heddy, antes de ser acometida pelo alzheimer, era apaixonada pelo tricô.
“Durante um tempo, ela chegou a dar aulas para algumas amigas. “Ela tinha muito talento e tricotava sem ver”, diz o filho do casal. Heddy também era uma mulher dedicada a família. Até depois de ficar doente, nunca se esqueceu de nenhum dos filhos. 

“Ela lembrava de nós e, em especial, do meu pai. Era só ele sair que ela começava a perguntar por ele o tempo inteiro”, relata Júnior. A casa dos idosos, que deixaram seis filhos, 12 netos e quatro bisnetos, vivia sempre cheia. Alguns dos membros da família também contraíram a Covid-19, mas conseguiram se recuperar. “Minhas irmãs iam na casa dos meus pais todos dias fazer alguma refeição. Somos muito unidos”, diz Júnior.

Entretanto, a memória mais forte que o filho do casal tem dos pais é o amor e o cuidado que um tinha com o outro. “Minha mãe, mesmo depois de idosa, era ciumenta. Não gostava que ele andasse sem aliança de jeito nenhum e queria estar sempre com ele”, conta. 

Quando os idosos ainda estavam saudáveis, quase todos os dias iam tomar sorvete. “Meu pai era muito cuidadoso. Colocava minha mãe no carro e a levava para a sorveteria. O preferido dela era de maracujá. Depois, eles iam passear de carro pela cidade ou dar umas voltinhas de mãos dadas”, diz.

O filho mais velho do casal, Renê Duarte, de 58 anos, também frisa que o amor dos pais é a maior memória que tem deles. “Meus pais eram um casal incrível e um exemplo para mim e meus irmãos. 

Quando ele faleceu, um dia depois da minha mãe, a médica nos disse que a tristeza piorou muito o estado de saúde dele. Quando soube da morte da minha mãe, meu pai passou a noite inteira chorando na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O que nos dá tranquilidade é saber que eles estão juntos agora”, finaliza.

Juntos até o último dia de vida

No último sábado (23), com uma diferença de cinco horas, o casal José Basílio de Freitas, de 83 anos, e Custódia Laureana de Freitas, de 79, morreu devido a complicações causadas pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2). Ele, por volta das 3 horas. Ela, por volta das 8 horas. 

“Estamos devastados, mas até nesse momento meus avós mostraram os seres incríveis e apaixonados que eram. Não existia nessa Terra um sem o outro”, conta uma das netas do casal, a estudante de odontologia Carolina Basílio, de 24 anos. Ele tinha doença de Chagas e ela era hipertensa.

Os idosos, que tinham 62 anos de casados, deixaram quatro filhos, oito netos e quatro bisnetos. José, que já era aposentado, trabalhou como agricultor e era um homem tímido. “Ele gostava de acordar cedo, comprar o pão e cuidar da hortinha. Amava plantar pimenta e ervas. 

Ela gostava de plantar flores”, diz Carolina. Já Custódia, que era uma ótima cozinheira e já foi dona de um restaurante, tinha a personalidade mais efusiva. “Minha avó sempre tomava a frente de tudo e fazia tudo para todo mundo. Se alguém oferecia comida para eles, ela respondia pelos dois se queria ou não. Meu avô, que era muito tranquilo e divertido, levava tudo na brincadeira.”

Mesmo depois de 62 anos de casados, eles dormiam abraçados todos os dias. “Era incrível ver os dois juntos. Eles se entendiam sem se olhar e eram muito amorosos com a família toda. 

Faziam questão de juntar a família toda. Eu sempre digo que, se o amor tem uma definição, com certeza a definição são os dois”, diz Carolina. Todos os dias à noite eles também rezavam um terço juntos. “Eles tinham uma fé inabalável”, pontua a neta. 

O casal também era muito companheiro um do outro. “Quando minha avó não conseguia ir no salão de beleza, ele pintava o cabelo dela. Eles se apoiavam o tempo todo. Ela era muito preocupada com ele e puxava a orelha dele caso ele fizesse alguma coisa perigosa”, conta.

O casal também era muito carinhoso com os netos e filhos, que sempre frequentavam a casa deles. Carolina, que morou grande parte da vida com os avós, conta que os dois faziam tudo por ela e pelos primos. “Meu avô acordava cedinho e fazia café para mim. 

Sempre me dava um abraço e um beijo na testa. A gente adorava ver televisão juntos, enquanto minha vó ficava trocando mensagens no celular”, conta a estudante. Segundo ela, a parte mais difícil de lidar com a morte dos avós é saber que eles não estarão com a família no futuro. “Foi minha avó que me incentivou a fazer Odontologia. Vai ser muito difícil me formar sem ela ver essa conquista.

Sempre digo que quero encontrar um marido como meu avô e saber que ele não estará presente no meu casamento dói muito”, emociona-se. Entretanto, a jovem afirma que acredita que a história dos avós não poderia ter um final diferente. “Eles se tinham uma conexão muito profunda para ficarem separados. Tinham que estar para sempre juntos”, acredita.

Fonte e texto: O Popular

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