quinta-feira, 16 de julho de 2020

Cavalcante e Campos Belos: existência de povo indígena isolado em Goiás é mistério a ser decifrado


Com texto de O Popupar,

No início de junho deste ano, o desaparecimento por 24 horas de duas crianças, de 4 e 2 anos, da comunidade quilombola Kalunga Vão do Moleque, em Cavalcante (GO), reacendeu dúvidas sobre a existência ou não de índios isolados da etnia avá-canoeiro na região. 

Dias após a entrega dos primos em primeiro grau às suas famílias, um jovem integrante do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga fez uma postagem na internet sobre o assunto dando muito o que falar. É possível que em pleno século 21 ainda existam no Brasil Central indígenas resistentes ao contato do homem branco?

Alvani Cesário, de 25, escreveu na página da Comunidade Kalunga do Vão de Almas, no Facebook, que “já foram vistos motivos (sic) de povo indígena na região por moradores, como sinais de fogueiras, artesanato de madeira e também flecha”. 

O jovem conclui que “nesse contexto, a principal hipótese são os índios”. 

Ao POPULAR Alvani disse que decidiu fechar a postagem diante de tantos comentários, alguns deles mencionando que ele estaria sendo racista ao atribuir o desaparecimento das crianças aos índios.

Alvani garante que não foi nada disso, apenas expôs uma questão sempre mencionada pelos mais velhos. “Escrevi o que ouvi na comunidade, dos vestígios que foram vistos recentemente. 

Mas isso não é nenhuma novidade. Minha família tem sangue de índio porque o bisavô do meu pai era índio. Pessoas idosas contavam que antigamente havia esse entrosamento entre eles.” 

Outra pessoa da comunidade Engenho 2, que vive em Goiânia e prefere o anonimato, lembra de ouvir dos antigos que “crianças eram raptadas por índios e que crianças indígenas moravam com os Kalunga, eles se tratavam por ‘cumpade’, mas isso foi muito antigamente”, conta.

Na sua postagem, Alvani ressalta que o fato das crianças terem voltado para casa com os bolsos das bermudas cheios de cocos de guariroba ou gueroba, no jargão goiano, pode indicar o contato com os índios que usam esses frutos para se alimentar. 

Ele faz menção à presença de avá-canoeiros “há muitos anos” em diversas comunidades, entre elas Vão de Almas, Vão do Moleque, Riachão e Saco Grande, “onde aconteceram vários sumiços de crianças”, de um lado e de outro. “Algumas famílias de Kalunga têm descendentes de índio por uma parte.” 

O jovem garante que duas dessas pessoas ainda vivem na comunidade, fato não comprovado. “Se é mentira, são os mais velhos que estão mentindo.”

Presidente da Associação Quilombola Kalunga (AQK), Jorge Moreira, de 53, vive na comunidade do Engenho, em Cavalcante, e participou das buscas às crianças.

“Eu ajudei a procurar os meninos junto com a equipe de resgate e posso dizer que a distância que eles caminharam, cerca de 12 km, nos deixou boquiabertos. 

Havia rastro deles num despenhadeiro o que fez as pessoas se perguntarem como conseguiram atravessar ali, por isso veio o questionamento se não seriam índios”, afirmou Jorge, que diz também achar difícil essa possibilidade.

“Não há mais lugar no território Kalunga sem gente. Com a abertura para o turismo, há movimento em todo lugar. 

Mesmo com o grande desmatamento dos últimos tempos, o que poderia afugentá-los, eu não acredito muito nisso.” O presidente da AQK lembra bem de histórias contadas há 20 anos por um pequeno agricultor que vivia na comunidade de Palmeiras. 

“Ele falava da existência de índios na região, dois ou três apenas. Dizia que deixavam vestígios e chupavam a cana que ele plantava. Uma noite ele acordou com uma pancada na perna e tinha certeza que era índio.”

Noite fora de casa


Segundo Jorge Moreira, as crianças saíram da casa dos pais, na comunidade Vão do Moleque, para visitar o avô, mas se perderam no caminho, uma área de muitas serras. 

Com o alarme, não apenas o pessoal do Corpo de Bombeiros como o de várias comunidades Kalunga se envolveram nas buscas.

Depois de uma noite fora de casa, os meninos foram encontrados por Brígida, moradora da Fazenda Chocão, que estranhou pegadas de crianças pela estrada e foi atrás. Inicialmente, um dos meninos correu dela, mas exaustos da intensa caminhada, concordaram em segui-la. Somente após serem alimentados, foram entregues ao Corpo de Bombeiros.

“Uma das crianças estava com os pés mais machucados, indicando que tinha andado o tempo todo. 

A outra, não”, lembra Jorge Moreira. Este foi outro fato que levantou dúvidas na comunidade. Muito pequenos, os meninos não conseguiram contar o que viveram no período que ficaram fora do Vão do Moleque, dizendo apenas que erraram o caminho da casa do avô.

Busca


A postagem de Alvani Cesário atraiu a atenção de Kamutajá (leia-se Kamutaia) Silva Ãwa, de 25, que pertence ao grupo avá-canoeiro que vive na Ilha do Bananal (TO). 

Ela não só acredita que ainda há integrantes isolados do seu povo, como também pretende fazer uma expedição aos dois locais onde eles provavelmente poderiam habitar, um deles o município de Cavalcante. 

Ela reafirma a história contada pelos membros da comunidade Kalunga. “Anos atrás nosso povo teve um contato muito próximo com eles. Havia uma troca de pegarem as crianças. Há negros com sangue indígena”.

Essa relação foi contada no documentário Taego Ãwa, dos irmãos Henrique e Marcela Borela, pelo avô de Kamutajá, o líder e pajé Tutawa, que morreu em 2015. 

Morando em Palmas (TO) onde cursa Pedagogia na Universidade Federal do Tocantins, a indígena afirma que esteve em Minaçu, nas terras de um pequeno grupo de avá-canoeiro, e lá soube que após o desmatamento das fazendas, “começaram a aparecer vestígios e as pessoas têm relatado muito a existência de mais de nós”.

Para Kamutajá, há avá-canoeiro resistindo ao contato com os brancos em Cavalcante e na Mata do Mamão, na Ilha do Bananal, onde também pretende percorrer. 

“Devido a todo o sofrimento, ao processo genocida contra meu povo, eles não querem ser vistos. Sabemos que perambulam pelo Rio Javaés. Nesta época do ano, quando vem a seca, saem em busca de comida e já foram vistos por alguns de nós em roças.”

Resistência


Aproximadamente 30 integrantes do povo Ãwa, como originalmente os avá-canoeiros se autodenominam, vivem na Ilha do Bananal. Kamatujá é do grupo que está na linha de frente para garantir um território à etnia, a terra Taego-Ãwa, demanda histórica ainda sem aprovação oficial. “Nós ficamos esquecidos. Não tivemos direito ao nosso território. 

O meu trabalho é fazer com que os direitos dos meus parentes sejam garantidos e não passem o mesmo que nossos antepassados.”

A história dos avá-canoeiros remonta ao século 18. O grupo indígena vivia às margens do Rio Tocantins e resistiram à colonização do Brasil Central. 

Com os massacres sucessivos, parte migrou para a bacia do Araguaia onde chegou por volta de 1830, disputando espaço com as etnias karajá e javaé. Passaram a ser caçados por criadores de gado na ilha, o que os levaram a embrenhar pelas matas da Ilha do Formoso, entre os rios Javaés e Formoso do Araguaia.

Uma frente de atração da Fundação Nacional do Índio (Funai), tendo à frente o indigenista Apoena Meirelles, capturou em 1973 dez desses indígenas, numa ação considerada violenta corroborando o histórico de agressão ao povo avá-canoeiro. O líder do grupo era Tutawa, o avô de Kamutajá. 

Na época, os indígenas ocupavam uma área elevada, dentro da Mata Azul. De lá foram transferidos pela Funai para a aldeia Canoanã, dos javaés, na Ilha do Bananal. Atualmente, o grupo está disperso entre aldeias javáes e karajás.

Os descendentes de Tutawa, fortes e resilientes, lutam pela afirmação étnica e pela terra Taego Ãwa, na região da Mata Azul, município de Formoso do Araguaia. 

A área de 28 mil hectares foi identificada pela Funai em 2011 e declarada como de posse permanente pelo Ministério da Justiça em 2016. 

Entretanto, a terra está ocupada por fazendas e um assentamento rural. Em 2018 o Ministério Público Federal ingressou com uma Ação Civil Pública determinando a demarcação da terra, mas o processo está em andamento.

Em Goiás


Entre Colinas de Goiás e Minaçu vivem oito integrantes da etnia, o dobro de 1983 quando eles se apresentaram a um trabalhador da região que conheciam à distância. 

O grupo original, de quatro pessoas, sobreviveu em grutas, às margens do Rio Maranhão, afluente do Tocantins, após intensos massacres ordenados por fazendeiros, o maior deles nos anos 1960, na Mata do Café.

Ainda resistem as irmãs Matxa, com idade aproximada de 82 anos, e Naqwatcha, de 77, e a filha da última, Tuia, de 48. Seu marido, Iawi, morreu em 2017. Tuia e Iawi tiveram os filhos Trumak, de 33, e Niwathima, de 31, o grupo considerado avá-canoeiro autêntico, por não ter se miscigenado com outras etnias.

Niwathima se casou com um índio tapirapé, Kaptomy’i, conhecido como Parazinho, e teve três filhos, Paxe’o, de 8, Wiro’i, de 5 e Kaogo, de 4. Debilitadas, as duas irmãs do grupo original passam a maior parte do tempo deitadas em redes.

A terra deles em Goiás, de 38 mil hectares, foi reconhecida como de posse permanente pelo Ministério da Justiça em 1996, mas a área foi parcialmente inundada pela represa da Hidrelétrica de Serra da Mesa, o que levou Furnas a pagar royaties à etnia, dinheiro administrado pela Funai. 

De forma gradativa, o grupo perde a sua cultura e a sua terra, frequentemente alvo de invasões. Por iniciativa dos grupos da Ilha do Bananal e de Goiás, os avá-canoeiros têm tentado uma interação. 

O último encontro ocorreu em julho do ano passado, em Minaçu, quando reafirmaram a vontade de preservar a sua cultura.

Improvável, mas não impossível


O indigenista Renato Sanches, de 65, que atua no escritório da Funai, em Goiânia, não acredita na possibilidade de existência de avá-canoeiros isolados. Ele esteve à frente da última frente de contato realizada pelo órgão, no início dos anos 1990, na região de Cavalcante, próximo ao sítio quilombola Kalunga. 

“Fiquei dois anos lá, percorri todo o território a pé, de mochila. Comigo estavam oito mateiros e dois índios, que conheciam trilhas. Não achamos nenhuma pista. Nunca ninguém viu nada. Só falavam que sabiam”

Renato conta que o próprio Iawi, um dos avá-canoeiros que se apresentou em Minaçu, esteve com ele em determinado momento da frente e não encontrou vestígios. 

O indigenista detalha que percorreu áreas distantes, próximo a Arraias e Campos Belos e no interior da Chapada dos Veadeiros. “Eles chegaram a 2.5 mil índios, mas foram massacrados porque não aceitavam ser escravizados.”

O antrópologo Christian Teófilo da Silva, professor doutor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UnB), especialista em etnologia indígena, acredita que “faz parte do imaginário regional a presença de avá-canoeiro como ‘explicação’ para muitos vestígios. 

Mas em se tratando dos avá-canoeiros, tudo é possível”, afirma. Ele lembra que os últimos da etnia conhecidos conseguiram sobreviver por dez anos sem serem encontrados, apesar das várias frentes de contato enviadas pela Funai.

O pesquisador conta que os avá-canoeiros, hoje em Minaçu, falavam que viviam em itakwaga, que significa buraco na pedra, ou seja uma morada de refúgio. “Eles tinham essa habilidade, por isso podemos ser surpreendidos.” Para Christian as frentes de contato, que deixaram de existir há anos, ficaram próximas ao Rio Maranhão e às estradas.

Outro indigenista, Egipson Correia, que conhece bem o universo avá-canoeiro, concorda com Renato Sanches de que as visitas da Funai em Cavalcante em busca de remanescentes da etnia não foram frutíferas no passado. 

“Mas essa região é ampla e recheada de serras, que podem servir de esconderijo para quem não quer ser encontrado. Se atualmente houver indícios palpáveis, sugerindo a existência de índios isolados, uma nova busca da Funai nessa região seria perfeitamente justificável.”

A Funai não respondeu aos questionamentos do jornal.

Fonte e texto: Reportagem de O Popular 

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