quinta-feira, 16 de maio de 2019

Posse (GO): Os Sertões, de Euclides da Cunha, e a derrocada da UEG de Campos Belos (GO)





Por Mônica Coelho, 

Você já leu Os sertões, de Euclides da Cunha? Se não, é uma ótima oportunidade de lê-lo e ver como a história se repete! 


Mas se você é um daqueles leitores que preferem uma leitura mais simplificada assista ao filme Canudos (1997), do diretor Sérgio Rezende, creio que lhe produzirá a mesma indignação ao deparar com as ações frias e calculistas de um governo arbitrário e violento que dizimou milhares de nordestinos em prol do “bem da Nação”. 

É a velha balela de que uns devem pagar pelos erros de outros, e o nordeste goiano é experiente nessa matéria!

O romance de Euclides da Cunha, um calhamaço de quase 270 páginas, descreve-nos numa minuciosa narrativa a complexa e desproporcional Guerra de Canudos em seus três elementos: a terra, o homem e a luta. 

Certo é que o fanatismo estava nos dois lados do embate tanto por parte dos republicanos quanto por parte de Antônio Conselheiro. 

Havia naquele tempo uma bipolaridade na política, tal qual hoje, que desencadeou uma sangrenta guerra civil, onde a maior vítima foram os sertanejos. 

Sem distinção de gênero ou idade, a degola atingiu tanto homens, como mulheres e crianças. Milhares de nordestinos foram dizimados por tropas do governo, acusados e condenados como inimigos do Brasil. 

E mesmo depois do revisionismo da História oficial, muitos de nossos patrícios, ainda na sua “santa” ignorância, acreditam nisso. 

Contudo, os retirantes de Monte Belo, nome que se rebatizou Canudos, tinham como propósito defender o pouco que tinham, depois que fiscais da federação, de forma déspota, tomavam ou desapropriavam os poucos bens conquistados naquele espaço inóspito, indo desde uma esquálida vaquinha leiteira até o quinhão de terra herdada da família. 

Quando já não restava nada nem o que comer, iniciaram a retirada pelo sertão em busca de recomeçarem uma nova vida. 

Nesse momento que surge a vila de Monte Belo (antiga região de Canudos) e um líder religioso extremista Antonio Conselheiro, que acolhe e lidera muitos nordestinos na (re) construção de suas dignidades, depois da humilhante usurpação de riquezas e direitos do pequeno sitiante da caatinga. 

Agora eu pergunto: O que esse fato histórico pode nos ensinar com o momento que estamos passando com a proposta do redesenho dos campi da UEG? 

Tanto naquela época como hoje, querem transformar o nordeste goiano numa nova Canudos. 

Estamos atravessando uma guerra civil silenciosa, em que o governo do Estado não nos considera dignos de receber direitos básicos como: educação e saúde de qualidade e implantação de metas de desenvolvimento da nossa região. Somos lembrados apenas como eleitores, de quatro em quatro anos, ou em relação ao aumento da produção de grãos exportados pelo Estado. 

Como os sertanejos de Canudos, são nossos parentes, amigos ou vizinhos que trabalham debaixo de um sol escaldante para gerar riquezas para serem usufruídas pelos “eleitos”, dos quais NUNCA fizemos parte. 

Assim, as quando se trata de repartir com equidade os benefícios entre as regiões goianas NUNCA somos lembrados. Para esclarecer, o nordeste goiano não é somente o celeiro na produção de alimentos, também somos um espaço que gera muita gente de talento, que exige uma educação de qualidade e presencial. 

É o mínimo do básico, para uma região que já foi apelidada pelos próprios políticos do nosso Estado como o “corredor da miséria”. 

Isso porque desde sempre todos os investimentos e melhorias, que trariam o desenvolvimento social para nós, são perpetuamente alocados na região metropolitana e suas áreas circunvizinhas ou na parte rica do sul de Goiás. 

Sai governo e entra governo, continuamos invisíveis, a ninguém que está no comando estadual interessa que nossas crianças e jovens sejam instruídos e saiam da linha da miséria dignamente por meio de qualificação educacional.

Para se ter noção da fragilidade da educação em nossa região, desde 1994, com a implantação de uma faculdade de Ciências Humanas, com o investimento privado, até o exato momento não conseguimos equalizar em 100 % de docentes licenciados nas disciplinas de Português, Inglês e Matemática ofertadas pelas escolas de Posse e região. 

Isso significa que ainda há muita demanda para as licenciaturas oferecidas pela UEG-Campus Posse. 

E que a transferência das licenciaturas para a UEG-Campus Formosa, que fica a uma distância aproximada de 240 km é totalmente inviável para o aluno da UEG-Campus Posse, que tem um perfil específico: na maioria oriundo das classes menos favorecidas, trabalhador e que percorre diariamente para estudar até 130 km, a cidade mais distante atendida por nossa Instituição.

A desculpa de que a UEG-Campus Posse e de Campos Belos é um problema econômico e logístico para a Reitoria da Universidade Estadual de Goiás e para as contas do governo não irá impactar nos dados de anos de má gerencia do Estado goiano e nem ameniza a desumanidade com que somos tratados diariamente por um governo que considera a formação e um futuro promissor de nossos filhos como investimento desnecessário. 

Hoje dizem que podemos ficar sem educação presencial e de qualidade, amanhã sabe Deus o que se justificará para usurparem de nós outros bens, como é a educação.

Essa reflexão a cima é apenas para mostrar o quanto somos esquecidos por todos e que merecemos uma educação de qualidade tão quanto à população metropolitana. 

Esse é um apelo pela continuidade do ensino superior nos interiores, pois muitos encontram na UEG a única possibilidade de ter a tão sonhada graduação, que se tornará impossível com o desmonte dos campi desta instituição amada pelo Nordeste Goiano.

Finalizo pedindo um apoio para mostrar a toda população que nós existimos e não iremos nos calar diante dessa situação que fomos submetidos e que não temos culpa por tantos desvios que fizeram durantes anos, não queremos pagar essa conta com a perda do bem mais precioso que temos: a EDUCAÇÃO.

Segue algumas fotos da nossa caminhada contra o corte orçamentário da educação básica do Instituto Federal Goiano e do fechamento dos cursos e campi da Universidade Estadual de Goiás ocorrida em 15/05/2019 na cidade de Posse- GO.

Atenciosamente, Mônica Coelho acadêmica do 7º período do curso de Letras da UEG-Posse, porém que iniciou essa jornada de estudo em nível superior no UEG-campus Campos belos.


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