quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Entrudo de Arraias (TO): "Água fria, é fato! água gelada, é fake"




Por Joaquim Francisco B Rezende,

Voltando o olhar para a nossa história, para o entrudo e buscando preservar a memória desta tradição, que remonta aos atos fundacionais da cidade, um observador atento, dirá: - Isso não é o nosso carnaval!

Inovações são bem-vindas, desde que não descaracterize ou suprima o essencial, o diferente, o único.

Crescemos correndo ladeiras abaixo, subindo goiabeiras, mais para colher os frutos ou fugir da “taca dos pais”, do que na esperança de ver Jesus. 

A ansiedade, hoje “frisson”, aumentava às vésperas do carnaval. Produzíamos fantasias para as matinês e bailes no Clube Social Arraiano; preparávamos potes, botijas e baldes para o entrudo e saíamos juntos. Todos juntos pelas ruas da cidade. Muitas vezes abraçados. Alegres. Felizes!

Como já disse em um outro texto, estar em Arraias no carnaval é reenergizar o coração e a mente para os dias futuros. É agasalhar-nos nos braços da família, dos muitos amigos. 

É deixar-nos inebriar pela brisa mansa e o vento molhado. 

Sim, é isso mesmo! “Joga, joga água...” e lá vamos nós pelas tortuosas e plangentes ruas arraianas, que em cada canto evoca uma lembrança, às vezes pueril, às vezes lancinante, às vezes de saudade, às vezes de dor, de amor.

Como não nos embebedarmos com as marchinhas carnavalescas e a cerveja gelada que sempre aparece no seu copo? 

Como não desfrutar da alegre brincadeira com tantos velhos amigos novos? Cantando, desafinando ou não, tentando acompanhar a sanfona de Dos Anjos e seus sucessores.

Antes da água fria nos alcançar, por vezes, buscávamos os mais inusitados esconderijos: os cômodos mais escuros da casa, depósitos (as despensas), quintais e os tradicionais abrigos: debaixo da cama ou dentro dos guarda-roupas. 

Unânimes, porém, eram os relatos: “Ah! Dá um frio na barriga quando escuto ao longe os gritos do povo: Maria, Maria, o que dói é água fria! Aí, tenho que esconder-me. ”

Ainda hoje ressoam as vozes de Dr. Magalhães, Efraim, Tia Neirinha, Tia Enith, Josino de Abreu, Chico Pontes, Maurílio Santana, para citar alguns... Maria, Maria, o que dói é água fria!

A animação contagiava, como contagia hoje, a todos. E o que refrescava a alma, reenergizava o corpo, fazia as pazes entre os inimigos políticos e desavenças familiares, era a água fria do entrudo despejada sobre cada um de nós, num rito observado e respeitado por todos. Homem molha mulher, mulher molha homem, criança molha criança. Senão, é “chibungagem”!

No ritual do meu sertão, após capturar quem vai ter o privilégio de ser molhado, vencida as resistências, despejava-se

de-va-ga-ri-nho a água fria. Primeiro, os cabelos. Depois é preciso “fofar”, para que a água fria chegue lentamente e molhe a “distribuição”. 

O processo inteiro realizado num respeitoso movimento, sem excessos, ou como dizemos, sem “saliências”; com vozes entoando as machinhas celebrando a vida.

Perceberam?

Em nenhum momento deste relato referi-me a água gelada. Sabe por quê? PORQUE ÁGUA FRIA NÃO É ÁGUA GELADA. 

Aquela, resfolega o ânimo, traz uma semente de bem querer, parece pavimentar as condições para sobrevivermos até o próximo carnaval. 

A água gelada mata. Faz-nos retesar o corpo, “fechar a natureza”. Mesmo que por instantes, faz-nos soltar palavrões e xingamentos, porque a água gelada não faz parte da nossa história. Não se constrói, não se faz história boa excluindo, criando uma sensação de algo ruim e agressivo.

O que nos encantou e aos nossos ancestrais, que nos fez subir e descer ladeiras atrás do sanfoneiro, juntando o pessoal da ARENA e do MDB, cantando “Olha o vendedor de alho”; “Dói, dói”, “Carnaval chegou”, foi a água fria revigorante.
Porque o “dia já vem raiando”, vamos atrás do sanfoneiro, triângulo e zabumba, como cantores privilegiados homenageando “mulher chorona”, “morena tropicana”, passeando pelas nossas familiares ladeiras e esquinas “acordando Marias bonitas” até chegar o momento ... “quem parte leva, saudade de alguém...”.

Uma ressalva é importante, ainda: ao afirmarmos que “cada arraiano é um folião” e conclamarmos “joga, joga água...”, estamos categoricamente dizendo, despeje água fria. 

O molhar é um ato de respeito e reverência ao outro, de demonstração de carinho e privilégio. Jogar ou arremessar a água é agressivo. Agride e pode machucar. Irrita. Causa danos. Ah, os ouvidos.... Quem age assim, desrespeita a Tradição, fere a história.

Arraiano, dê uma paradinha para molhar, inclusive a garganta, resfolegar. Ninguém é de ferro. 

 Lembre-se que temos muitas ladeiras. Mais ladeiras. Mais esquina. Mais chuva. Mais água. Muita água boa. Água fria. 

Não deixe a nossa história sair pelo ralo...
Água fria, é fato! Água gelada, é fake!




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