quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Deserto de Notícias: Sem imprensa local, moradores de Cidade Ocidental buscam se informar pelo WhatsApp e Facebook


Por Elvira Lobato, do Observatório da Imprensa

Cidade Ocidental é um município goiano do entorno de Brasília. Sua prefeitura está a menos de 50 quilômetros da Esplanada dos Ministérios. 

Mas uma distância abissal separa a cidade dormitório de 70 mil habitantes da capital do país: uma é o epicentro do poder e vive 24 horas por dia sob o foco da imprensa. A outra é um deserto de notícias.

Não há jornais impressos com periodicidade regular, emissoras de rádio ou televisão em Cidade Ocidental. 

A propósito, segundo a definição do Atlas da Notícia, um deserto de notícias é um município sem cobertura jornalística local regular. No caso de jornais impressos, para não ser um deserto noticioso, o município precisa ter um veículo que publique regularmente pelo menos quinzenalmente.

Nem as rádios comunitárias — distribuídas gratuitamente pelo governo federal, que poderiam preencher esta lacuna — sobrevivem em Cidade Ocidental. 

O município teve uma em 2012, mas como ela interferia na frequência de uma emissora comercial de Luziânia (município vizinho), acabou multada e desativada. O presidente da associação que recebeu a outorga mudou-se de lá e não houve interesse em renovar a licença.

Proprietária de uma banca de jornais no centro de Cidade Ocidental, Maria Joana Gomes, de 59 anos, lamenta não ter um jornal diário local para oferecer à clientela. 

“Os que eu vendo não trazem informações locais”, diz, apontando para os três títulos em exibição em sua banca: Correio Braziliense, Aqui DF e Toda Hora. O terceiro, explicou, chegou ao mercado em dezembro de 2018.

Maria Joana diz que os meios de informação mais usados pela população são o WhatApp, o Facebook e o boca-a-boca. 

“Fico sabendo das novidades pelos conhecidos que param na minha banca para uma conversinha. Sei mais sobre o que acontece em Brasília e em Goiânia do que sobre minha própria cidade,” diz. “Esta é uma terra de ninguém. Não existe imprensa independente que fiscalize a Prefeitura e a Câmara dos Vereadores.”

“O vazio de informação qualificada é gritante. Não sei se há desinteresse de investidores em comunicação ou da população, porque a maioria passa os dias em Brasília e só está aqui à noite e finais de semana,” resume a promotora Marizza Fabiani Maggioli. “As notícias veiculadas nas redes sociais se resumem a fofocas, ou são apurações equivocadas ou imaturas, sem investigação e com pré-julgamentos.”

O Grito

Há um jornal impresso gratuito na cidade chamado “O Grito” com tiragem de 3 mil a 5 mil exemplares. Segundo seu proprietário, Divino Alves, o jornal circulou mensalmente no último ano, mas houve períodos em que foi quinzenal e outros em que foi bimestral.

Em entrevista ao Observatório da Imprensa, Alves se declarou aliado do prefeito Fábio Correa, eleito pelo PRTB e que migrou posteriormente para o PSDB. 

Segundo Alves , os anúncios da prefeitura bancam seus custos de edição. Mas lamentou que a dependência financeira em relação ao poder público o impeça de cumprir um dos pilares do jornalismo — a imparcialidade:

“A dificuldade de se fazer um jornal sem recursos próprios é ficar preso à prefeitura,” diz. Se você é da situação, não pode mostrar o lado ruim do governo, porque te cortam logo. Querendo ou não você fica preso.”

A teia do WhatsApp

A página Radar Ocidental, no Facebook, é apontada pelos moradores como a principal fonte de notícias da cidade. Criada em 2017 pelo amazonense Wendel Gomes, tem 48.903 seguidores (70% da população), além de cinco grupos no WhatsApp que somam 1.280 participantes. 

Ela se mantém com publicidade dos pequenos comerciantes locais. Wendel afirma fazer oposição ao prefeito e diz que não recebe recursos da prefeitura, nem da Câmara Municipal.

Wendel, assim como Divino, não faz cobertura imparcial dos fatos. Nossa reportagem o acompanhou em uma apuração sobre buraco nas ruas. 

A matéria surgiu de uma reclamação recebida pelo WhatsApp. Wendel foi ao local, entrevistou e filmou moradores com seu celular, e colocou a notícia na internet sem ouvir a prefeitura. Questionado, respondeu que a prefeitura não o atende, por considerá-lo de oposição.

“O Radar se diz neutro, mas só ouve quem é de oposição e não publica a versão da prefeitura sobre os fatos,” retrucou o secretário de Comunicação do município, Marcos Wilson dos Santos.

Wendel tem seguidores em todas as faixas da população e entre os comerciantes que usam a página para divulgar suas promoções. 

“Acompanho o Radar pelo celular, com o wi-fi do vizinho que liberou a senha para mim,” diz a dona de casa Eva Dias, de 38 anos. Ela mora com cinco dos seis filhos no conjunto habitacional de baixa renda chamado Casinhas. 

Nascida no Tocantins, desempregada e com três crianças pequenas, sustenta os filhos com R$ 250 mensais que recebe do Bolsa Família e com ajuda do filho copeiro em Brasília. Para ela, Cidade Ocidental é “uma terra esquecida” por Goiás e pelo Distrito Federal.

Na ausência da imprensa local, a população usa as redes sociais para compartilhar notícias, reclamar das falhas nos serviços públicos, cobrar providências da prefeitura, organizar protestos e festas comunitárias. Os grupos proliferam também na área rural do município. 

“ABC no Ar” é um grupo do WhatsApp com 23.848 participantes no distrito ABC, já na divisa com o Distrito Federal. Na primeira semana de fevereiro de 2018, houve um protesto contra a suspensão do transporte público escolar dos alunos do ensino médio, organizado pelos integrantes do grupo. 

Segundo os moradores, a prefeitura de Cidade Ocidental suspendeu o ônibus escolar porque o estado de Goiás não lhe repassou a verba. O custeio do ensino médio é de responsabilidade dos Estados.

O pernambucano Norberto Oliveira Gonzaga, de 57, técnico em reparo de fogões, e o maranhense Nivaldo Júnior, de 42 anos, segurança em uma empresa privada, passam o dia com o olho grudado no celular. Ambos moram no centro de Cidade Ocidental e são ativos nas redes sociais. 

Nivaldo participa de quatro grupos: de amigos do bairro, da igreja, da empresa em que trabalha e de um outro mais amplo, que reúne seguranças privados de vários municípios do entorno de Brasília. Ele calcula possuir quase 800 amigos nas redes sociais.

Norberto integra um grupo de 180 pessoas no WhatsApp. Sua família deixou o Nordeste quando ainda era menino e se instalou no Gama, na periferia do Distrito Federal. 

Quando surgiu oportunidade de comprar uma casa em um conjunto habitacional lançado pela Construtora Ocidental, nos anos oitenta, a família não hesitou. Milhares de outras famílias de pedreiros, garçons, copeiros, empregadas domésticas se agarraram àquela oportunidade que deu origem a Cidade Ocidental. Já Nivaldo mudou-se para lá no final dos anos 90. Os dois se julgam mal informados sobre o que acontece na cidade.

Para o instalador de TV a cabo Hugo Santos, de 35 anos, falta informação sobre as condições de segurança. “Não tenho como saber se uma rua é perigosa ou não,” diz. “Minha impressão é de que a violência diminuiu, porque ouço menos reclamações sobre assaltos. Mas é apenas intuitivo.” 

A mineira Consuelo Resende Viana diz que na falta de informações sobre violência, deixou de sair de casa depois das 18 horas. “Vivo completamente isolada. Todos vivem assim aqui,” queixa-se.

Propaganda oficial

O WhatsApp também é usado pela prefeitura para enviar releases e vídeos institucionais à população. Um exemplo são as transmissões da Hora Cívica instituída pelo prefeito, realizada às segundas-feiras em frente à prefeitura, com a presença dos secretários e banda de música, quando ele anuncia os atos programados para a semana. 

Os eventos são gravados e transmitidos a grupos “disseminadores de conteúdo”: lideranças comunitárias, professores da rede pública e simpatizantes políticos, que repassam as mensagens a outros grupos.

Fernando Adriano, de 41 anos, é um dos “disseminadores de conteúdo” da prefeitura. Funcionário municipal, ele administra um espaço comunitário usado para festas e reuniões dos moradores dos conjuntos habitacionais Parque Jardim Nápolis, com 5 mil famílias, Parque Araguari, com 4 mil famílias, e do conjunto Casinhas, de 500 famílias de baixa renda. Ao lado do espaço público há uma creche inacabada.

O administrador repassa as mensagens da prefeitura a quatro outros grupos: dos moradores do Parque Nápolis, dos fiéis da Igreja São José, que fica no bairro, dos funcionários da Secretaria de Infraestrutura e dos moradores do conjunto habitacional de Casinhas, ao lado da igreja. Só ele repassa o material da prefeitura a cerca de 500 pessoas.

Além do material para o WhatsApp, a prefeitura produz oito publicações impressas por ano, que são distribuídas em vias públicas. Em dezembro de 2018, saiu uma edição especial de 12 páginas sobre “conquistas” na educação, segurança, infraestrutura, assistência social, saúde, trabalho, meio ambiente em transparência. 

Segundo o folheto, o município é o segundo colocado no ranking da transparência do estado de Goiás. Mas como Cidade Ocidental é um deserto de notícias, esta informação, entre tantas outras, segue sem o escrutínio jornalístico.

** Elvira Lobato é jornalista.

Fonte: Observatório da Imprensa 

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