Cultura: Nemilson Vieira, a Literatura como Vocação



Por Eduardo Waack, do Jornal o Boêmio

Nosso entrevistado é um homem perseverante e objetivo, embora bondoso e humilde. Traz em seu coração os valores que aprendeu desde a tenra infância com os pais Natanael e Isabel Vieira de Morais. 

Graduado em Gestão Ambiental e micro empreendedor individual, o escritor Nemilson Vieira (formado em Educação Teológica, em 1996), nasceu em Palmeiral, no Maranhão, em 14/10/1958. 

Reside em Ribeirão das Neves (MG). 

Seu primeiro livro, “Faço Parte Dessa História”, um relato de família, fé e crença, possui conteúdo autobiográfico e já se inscreve no panteão das grandes obras publicadas neste início de século. Vamos conhecê-lo melhor!

Fale-nos um pouco sobre você.

Nemilson — “Há limites para o que sabemos sobre nós”, afirma o sociólogo Luis Mauro Sá Martino. Falar de nós mesmos sem parecer arrogante não é tão fácil assim; podemos pecar ao pontuar coisas além do necessário. Posso empolgar-me ao falar de mim, mas tentarei ser sucinto. 

Digo que não sou diferente dos demais; levo uma vida simples com muito trabalho e poucas diversões. Gosto de brincar dizendo que, mesmo com meus cabelos brancos ainda jogo no time dos solteiros do bairro onde moro e nunca ganhei um campeonato; mas como tudo têm uma vantagem… 

Nunca fui “rebaixado” por essa atitude, mas uma família faz muita falta. Solteiro sim, solitário nunca. Sinto-me bem demais da conta em preservar os amigos antigos e conhecer pessoas diferentes. Amo o Meio Ambiente de paixão e de formação; as árvores, os pássaros, os bichos… 

Sou incapaz de prejudicar uma formiga, já salvei muitas quando vejo que o pneu da minha bicicleta ruma na direção delas para esmagá-las… Torço o guidão da mesma. João da Carroça, meu vizinho, pedia uma cura a Deus para uma enfermidade que o atormentava dia e noite. 

Certa ocasião agachado na porta da sua casa, vendo formiguinhas passarem à sua volta, as afundava na areia do terreiro com um pedacinho de madeira que carregava na mão. 

Ouviu uma voz interior que dizia: “meu servo tu me pede uma cura para os males do corpo, porque faz isso com as formigas?”… João pediu perdão ao Criador, mudou de atitude e foi curado. 

Se respeitássemos a natureza, a Terra seria um paraíso e o mal não chegaria à nossa tenda. Tenho facilidade de fazer amizades e sou persistente na busca de meus objetivos, mesmo sabendo que há coisas que a gente consegue e há coisas que não conseguiremos ainda que tentemos. 

Atualmente estar com os amigos acadêmicos, em reuniões afins ou em confraternizações, faz parte do meu entretenimento; gosto bastante de ouvir músicas raiz, e outras, bem como as religiosas antigas. Quanto às novelas e os filmes de cenas violentas evito-os, mesmo sendo de conteúdo religioso. Curto mais os documentários. 

O contato pessoal não é frequente, mas interajo bem com meu filho Lucas, que mora com a mãe na região norte da capital mineira e viajo em visita aos familiares uma vez por ano ao norte de Goiás, onde vivi toda a minha infância e juventude. 

A literatura que me dá mais prazer de ler e escrever, são os contos, crônicas, poesias e reflexões; acho o romance um gênero mais complexo do ponto de vista da leitura e da escrita, não sou muito afeito a ele mas estou lendo um romance, o “Enigma da Torre” de autoria do colega acadêmico Adanir Félix e estou encantado com a obra. 

É bom ler os clássicos, mas precisamos valorizar os autores da “nossa aldeia”, do nosso lugar, da nossa entidade… O Brasil é a terra dos cinco maiores escritores do mundo. Muitos se preocupam em ler obras estrangeiras e deixam os nossos autores de lado. Isso não deve ser tão bom assim.

Como a literatura surgiu em sua vida?

Nemilson — Em criança e na vida adulta aprendemos pelo exemplo. Eu achava bonito o papai descer os óculos da testa aos olhos para fazer suas leituras em livros de bolso, jornais, revistas… Fui vendo aquilo e tomando o gosto também pela leitura; primeiro as histórias bíblicas, as revistas em quadrinhos… 

A literatura de Cordel. Participei de um concurso de redação sobre Tiradentes, o Mártir da Inconfidência Mineira, na E. E. Polivalente “Professora Antusa”, patrocinado pelo prefeito Aurolino José dos Santos em minha cidade de origem e ganhei uma caneta; tão cara que nem quis usar e dei a mamãe para guardá-la. Ela guardou tão bem guardada que não se lembrou mais onde foi. 

Não escrevi sequer uma frase com ela e nunca mais a vi. Depois, noutro concurso de poesia que participei na mesma escola, ainda no ensino fundamental, fiquei em segundo lugar. 

Um dia fiz um texto e mostrei a minha professora, doutora em língua portuguesa da faculdade em que eu estudava para que desse uma olhada; perguntou-me se era um poema, e eu respondi que sim. Ao fazer a revisão, me pediu para suprimir somente uma vírgula do texto. Então pensei: não estou tão ruim assim para escrever e continuei a fazer minhas poesias… 

Juntando uma frase com outra em jogo de palavras. Mostrando meus textos ao poeta Geraldo França ele me aconselhou a tirá-los da gaveta e ligou ao presidente da ANELCA, prof. Mauro de Morais. 

Atendendo seu convite participei de várias coletâneas da academia de letras da cidade que resido, Ribeirão das Neves, na categoria de convidado e não parei mais de escrever e publicar meus textos. Depois passei também a publicar minhas produções literárias, virtuais e impressas, em outras plataformas, no Brasil e em outros países. 


Fui convocado pelo prof. Mauro José de Morais, presidente da Academia Nevense de Letras, Ciências e Artes (ANELCA) e da Academia de Letras do Brasil, Minas Gerais, da Região Metropolitana de Belo Horizonte (ALB/MG/RMBH), para assumir as cadeiras 03 e 32 das respectivas entidades como acadêmico no segmento literário. Minhas primeiras poesias mais conhecidas foram “Duras Penas”, “Se Dependesse de Mim”, “Um Pouco do que Sou”, “Rosa de Minas e Do Mundo”…

Quais suas grandes influências e pessoas que admira?

Nemilson — Alguns dos meus escritores preferidos quando ainda adolescente foram José Lins do Rego, Castro Alves, Gonçalves Dias, J. G. de Araújo Jorge. Apesar de não ter lido meu tio escritor, o Dr. Ariel Vieira de Morais, o admirava bastante. 

Depois soube que ganhara dois disputadíssimos prêmios da Academia de Letras do Maranhão com as obras literárias “Cobra Divina” e “Nas Horas de Deus Amém”. Ele adorava me ouvir, lá em Campos Belos. 

Em 2013 me disse ter publicado um dos meus causos, mas não me revelou qual; aí pensei comigo: “eu também posso escrever minhas próprias histórias” e passei também a escrever e ter experiências com outros gêneros além da poesia, como os contos, as crônicas e as reflexões. 

Admiro como pessoa e gestor das casas de confrarias de Ribeirão das Neves, o escritor Mauro de Morais, autor de nove livros publicados. 

A minha eterna musa inspiradora, a mamãe, que se consagrou escritora agora aos 83 anos de idade, em nosso trabalho “Faço Parte Dessa História”, e tantos outros companheiros ativistas da Cultura, que admiro grandemente e poderia citá-los também.

Fale-nos sobre seu livro de estreia, “Faço Parte Dessa História”.

Nemilson — A nossa estreia na literatura com “Faço Parte Dessa História” se deu num instante mais oportuno: no momento de Deus. Eu estava com quatro obras finalizadas e pensando em publicá-las em série, quando eu soube do sonho da mamãe em escrever um livro. Ela não revelava isso a nós, os filhos, até que a verdade veio à tona. 

Então logo peguei carona na história e abracei a sua causa, propondo parceria na obra. E o propósito dela com o meu tornou-se um só potencializando-se de maneira esplêndida. 

Esta publicação foi a materialização de mais de quarenta anos do seu desejo em escrever um livro. Nada mais compensador para um filho poder ajudar a pessoa mais importante do mundo para ele a realizar um sonho assim. 

Um projeto de um livro, como outro qualquer, é feito em muitas mãos e com a graça de Deus, uma boa assessoria de profissionais do livro, o empenho e esforço de muitos, isso foi possível acontecer. Como sempre digo: só conseguimos conquistar nossos sonhos porque Deus vai colocando pessoas de luz em nosso caminho. 

E como já foi dito não custa repetir: “Faço Parte Dessa História” é um “épico autobiográfico, memorialista e histórico, que narra a trajetória de Isabel Vieira de Morais e sua família, da Igreja Evangélica Assembleia de Deus desde os primórdios e da própria nação brasileira”. 

Então, sendo assim, tornou-se uma obra de relevância, principalmente na história de seus autores, da igreja local e da cidade onde se desenrolou a maior parte dos acontecimentos desses fatos memoráveis. 

Esse trabalho marcou a vida de todos nós, os envolvidos nele, direta ou indiretamente, bem como aos demais que já puderam lê-lo. Uma pessoa que por força do ofício o leu disse diretamente a mim por e-mail: “Leio e fico cada vez mais admirado com este grande ser chamado Isabel, mulher guerreira e esforçada, uma justa em nosso planeta. 

Gostaria muito de conhecê-la, de ouvi-la, de tomar sua benção, junto com minha família.” Embora já dito no livro em questão, reafirmo: “Essa obra deixou-me a sensação de dever cumprido”. 

Dando-me a entender que estivemos no caminho certo ao publicá-la, fazendo com que o mundo saiba dessa história.

Como é a vida de um escritor popular e independente?

Nemilson — Ser um escritor independente nunca foi uma tarefa tão fácil. São muitos os desafios que ele enfrentará em sua trajetória. 

O maior sonho de um escritor é publicar suas produções textuais num livro. Mas para as grandes editoras comerciais é inviável publicar obras dos escritores de início de carreira. Elas vivem do lucro. O foco ou o público-alvo das mesmas são escritores famosos, que tudo que publicam vendem, mesmo não sendo lá essas coisas. E a água vai correndo para o mar… 

As editoras pequenas que trabalham com uma margem de lucro menor, ou aquelas que dizem trabalhar sem fins lucrativos também costumam apresentar orçamentos não condizentes com a realidade econômica de muitos escritores. A tiragem sendo menor, o preço por unidades sobe consideravelmente se tornando inviável a venda de um exemplar, e sendo publicado um montante maior corre-se o risco de encalhe do produto. 

Agora na era digital melhorou bastante com o apoio das redes sociais, blogs e sites especializados. Ficou mais tranquilo para publicarmos nossas próprias produções literárias, pois são voltados a ajudar escritores de primeira viagem, dando dicas de produtividade, criatividade, revisão, entre outros conhecimentos. 

A opção pelas antologias virtuais e impressas ajuda muito o escritor independente. Várias outras plataformas também recebem os materiais de autores e o disponibilizam a venda, ao público de um modo geral. 

Mas há custo para isso, pois elas não fazem nenhum trabalho do profissional do livro. Os autores que tiverem estas habilidades estarão mais tranquilos, visto não haver necessidade desse tipo de assessoria. Enfrentei os desafios de aprendiz de escritor independente…

Silmar (de saudosa memória), Nemilson, Celeste Farias e Rone Oliveira, no lançamento de livros de colegas acadêmicos, em 2015 (foto de Fabiana Salustiana)

Faça uma análise do atual momento histórico, cultural e social brasileiro.

Nemilson — Com essa riqueza do Brasil em seu contexto plural de culturas as relações interculturais sempre foram muito dinâmicas e nessa dinamicidade saímos fortalecidos como pessoas e nação. 

São mais de quinhentos anos de fluxo migratório intenso, externo e internamente. Esse intercâmbio e interação dinâmica entre os povos de uma cultura e outra serviu para o fortalecimento da nossa identidade cultural constituindo-se num motivo a mais de orgulho do povo brasileiro e uma razão para tolerarmos e convivermos bem com o diferente.

Somos devedores aos nossos irmãos de outras partes geográficas do nosso país e do mundo, por podermos vivenciar tão grande riqueza dessa diversidade. 

O momento de transição do comando político da nossa pátria e dos rumos que as coisas poderão tomar faz-me pensar a cultura em suas mais variadas nuances. A cultura popular, a cultura de massas podem sofrer mutilações que as tornem desiguais ou menos valorizadas. 

A cultura é o bem maior das pessoas de uma cidade e de um país; rigorosamente, é um valor magnânimo que deve ser cultivado sob pena de perdermos nossa identidade e referências. 

Como a própria palavra cultura era um modo verbal que tinha sempre alguma relação com o futuro, temo de ter que conviver com uma cultura capenga mais ainda, se não formos promissores como incentivadores, produtores e gestores dos bens culturais. Um exemplo: estudos indicam que os elementos histórico-sociais impactam a forma literária na literatura brasileira contemporânea.

Um momento que ficou na memória.

Nemilson — Com relação às ações culturais que tenho me envolvido nos últimos anos poderia citar vários momentos ou situações memoráveis, como a minha inserção, nos instantes da posse, nas casas de confrarias como acadêmico literário. 

Na Academia Nevense de Letras, Ciências e Artes (ANELCA), na Academia de Letras do Brasil, Minas Gerais (ALB/MG/RMBH) e no Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Lisboa (NALAL). 

Lembro-me das homenagens a João Guimarães Rosa, nos 50 anos do seu passamento, no Plenário Ulisses Guimarães, há pouco mais de um ano, na Câmara dos Deputados em Brasília… 

Mas o momento que mais me marcou se deu no primeiro semestre de 2017, quando em visitas familiares a Campos Belos, ao despedir-me de mamãe ouvi dela o pedido: “traz meu livro”, referindo-se ao livro “Faço Parte Dessa História”.

Como as pessoas podem contatá-lo e apoiar ou adquirir o seu trabalho?

Nemilson — Na minha página no Facebook, em meu e-mail (nem1000son@gmail.com) e pelos números telefônicos (31) 3447-9609, 98240-4530 e 98850-5932.

Quais seus planos para o futuro?

Nemilson — Como já senti o gostinho de entregar a primeira obra ao mundo, pretendo dar continuidade em minhas produções literárias e seguir editando uma série de outras obras já concluídas, que perfazem um montante de quatro obras, apesar dos desafios quanto a isso. 

Depois do lançamento da nossa primeira obra em Congonhas do Campo (MG), em 24.11.2018 e do relançamento na cidade em que me criei, Campos Belos, em dezembro do corrente ano, pretendo num futuro próximo transferir-me a este lugar e fundar por lá uma instituição de apoio à Cultura e já estou a sugerir aqui nesta entrevista a sigla e o nome da mesma para ser votado em plenário, em eventos afins: Academia Municipalista Campos-Belense de Letras e Artes (AMCLA).