terça-feira, 26 de junho de 2018

Radiografia da suplementar por região mostra força do interior profundo do Tocantins


Por Cleber Toledo,
O fenômeno que mais marcou o segundo turno da eleição suplementar do Tocantins foi a revoada de líderes assim que o primeiro turno se fechou mostrando uma frente de mais de 46 mil votos para o governador eleito Mauro Carlesse (PHS). 
Com o volume de campanha que imprimiu, com enormes carreatas e grandes comícios, o senador Vicentinho Alves (PR) chegou a anunciar o apoio de 95 dos 139 prefeitos tocantinenses (68,3% do total), centenas de vereadores e muitos líderes importantes.
Assim que terminou o primeiro turno, fortalecido com o resultado, Carlesse começou a receber a grande maioria esses líderes em sua campanha. 
O episódio mais folclórico dessa migração foi o sincericídio do prefeito de Darcinópolis, Jackson Soares (PTB), um dos que trocaram Vicentinho pelo agora governador eleito. 
Num vídeo gravado por ele mesmo, Soares disparou: “Prefeito não pode ir para o lugar que perde”.
O petebista é um exemplo da força do líder na decisão do voto no interior profundo do Tocantins. 
Cidade do Bico do Papagaio, com 3.861 votos, Darcinópolis, sob a liderança de seu prefeito, deu vitória a Vicentinho no primeiro turno, com 39,19% dos votos válidos contra 20,13% para Carlesse, que ficou atrás de Carlos Amastha (PSB), com 23,21%.
Com a decisão de Jackson Soares de mudar de lado e apoiar Carlessse, o eleitorado o acompanhou e o governador eleito ficou com 88,9% dos votos válidos, restando a Vicentinho, o ex-aliado do prefeito, apenas 11,06%. 
A votação do republicano caiu de 915 para 227 (-75,2%) e a do governador saltou de 470 para 1.825 (+288,3%).
Um levantamento da coluna sobre os votos por microrregião deixa claro como o eleitorado acompanhou a decisão da liderança de trocar de candidato. 
Isso fica ainda mais evidente nas três regiões em que Vicentinho venceu todos os demais candidatos no primeiro turno. O republicano liderou no dia 3 de junho nas microrregiões do Jalapão, Miracema e sudeste.
No Jalapão, Vicentinho terminou o primeiro turno com 25,4% dos votos totais da região contra 15,9% para Carlesse. 
Neste segundo turno, o republicano viu sua votação cair de 32,4% — de 13.019 para 8,8 mil, enquanto a do governador eleito cresceu 150,7% — de 8.166 para 20.469.
Na microrregião de Miracema, Vicentinho encolheu 28,4% — de 16.681 votos no primeiro turno para 11.946 no segundo. Já Carlesse avançou 148,3% — de 14.833 para 36.837votos.
No sudeste, o recuo foi menor, de 19,3% — de 15.420 para 12.439 votos. No entanto, a região em que Carlesse mais cresceu, 164,3%, de 10.568 para 27.903 votos.
Além dessas três, Vicentinho ainda viu seus votos minguarem na microrregião do Rio Formoso, que compreende o colégio de Paraíso. Lá a redução foi de 9,1%, de 11.451 para 10.408 votos. 
Carlesse cresceu 96% nessa região, de 13.658 para 26.770.
Vicentinho cresceu na microrregião dos dois maiores colégios eleitorais do Tocantins, Palmas e Araguaína, ainda que tenha perdido. 
Na Capital, o republicano avançou 20,03%, de 20.338 para 24.411 votos. Carlesse, porém, foi bem mais adiante, com alta de 124,8%, de 40.077 para 90.094 votos.
Na microrregião de Araguaína, o republicano aumentou sua votação em 29,9%, de 18.503 para 24.033. Já Carlesse, conquistou 60,3% a mais de votos do que no primeiro turno, de 37.838 para 60.654.
É claro que outros fatores pesam na decisão do voto, sobretudo tudo nas cidades maiores, como a posição de Vicentinho em relação ao governo Temer e temas polêmicos votados pelo Congresso, como a reforma trabalhista. 
No entanto, quanto mais se adentra o interior, mais fica claro a força dos líderes na decisão do voto.
Em Dois Irmãos, com o apoio do prefeito Wanilson Valadares (PV), Vicentinho ficou em segundo lugar no primeiro turno, mas muito próximo da senadora Kátia Abreu (PDT). 
Foram 820 votos para o republicano (34,21% dos votos válidos) contra 885 para a pedetista (36,92%). Carlesse fez apenas 231 votos (9,64%).
Porém, o prefeito Wanilson mudou de lado e apoiou o governador no segundo turno. 
Com isso, Carlesse saltou para 1.820 votos (82,88% dos votos válidos) e Vicentinho recuou para 376 (17,12%).
A prefeita Isabela Simas (MDB), de Araguacema, também apoiou Vicentinho no primeiro turno e garantiu vitória ao republicano, que teve 1.109 votos (42,18%) contra 914 para Carlesse (34,77%). 
Com o desembarque de Isabela, a votação de Vicentinho caiu 83,9%, a apenas 179 (7,33% dos válidos), ante um crescimento de 147,7% de Carlesse, que foi a 2.264 .
Ronaldo Parente (PSDB) é outro que estava com Vicentinho, mas trocou de apoio no segundo turno. No dia 3 de junho ele deu 1.407 votos ao republicano (49,26% dos válidos) e Carlesse tinha conseguido só 213 votos (7,46%). 
No segundo turno, porém, com o prefeito Ronaldo, o governador deu um salto de 825,4% e chegou a 1.971 votos (80,61%). O republicano despencou 66,3%, com 474 votos (19,39%).
São dezenas de exemplos como esses que só confirmam a tese que a coluna defendido há quase dois anos: 
sem a força dos líderes do interior profundo do Tocantins não se ganha eleição de governador. Os caciques locais têm a capacidade de carregar os votos para onde quer que vão.
Os casos em que os caciques permaneceram com Vicentinho confirmam essa tese. 
Em Sítio Novo, no Bico, o ex-prefeito Jair Farias (PR) é um dos líderes mais expressivos de toda a região e se manteve fiel ao republicano, que no primeiro turno tinha conquistado 2.380 votos na cidade (53,33% dos válidos) contra 171 para Carlesse (3,42%). 
No segundo turno, o governador cresceu significativamente e foi a 2.205 votos (46,67%), atraindo muitos líderes para a campanha dele. Contudo, com a força de Jair Farias, Vicentinho até ampliou um pouco a votação para 2.520 (53,33%) e venceu.
Outro exemplo do poder dos líderes que não mudaram de lado é Brasilândia, onde o principal cacique é o ex-prefeito João Emídio (MDB). No primeiro turno, ele deu vitória folgada a Vicentinho com 554 votos (58,01% dos válidos) contra 161 para Carlesse (16,86%). 
No segundo turno, o governador cresceu também com a força da oposição na cidade e foi a 403 votos (41,38%), mas ainda assim perdeu para Vicentinho, que ampliou para 571 votos (58,62%).
Nos grandes centros há um voto mais independente, mas bastante fragmentado. São fundamentais, mas votos os decisivos vêm dos pequenos colégios eleitorais.
Assim, quem quiser disputar as eleições de outubro de forma competitiva não terá outro caminho que não seja tentar ganhar musculatura com o apoio da liderança das cidades menores.
Isso não é bom para a necessidade de renovação política do Tocantins, mas ainda é uma realidade irrefutável.
Confira a seguir as tabelas da distribuição de votos e abstenções por microrregião:

Fonte: CT