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sábado, 2 de junho de 2018

Entrevista: Raquel Lima, um dos principais nomes dos "Sem Terras" em Goiás, diz que a união entre o Agronegócio e o pequeno produtor será uma exigência



Por Elias Alves, 

Faltam exatos treze dias para o fim do prazo estipulado pelo Juiz Federal Eduardo Cubas, que determinou a saída, pacifica, do “povo sem terra” das fazendas Cerrado, Fazendinha, São Pedro, Isabel e Cachorro Morto.


Todas estão localizadas em São João d’Aliança (GO) e foram ocupadas há mais três anos.

Inicialmente com a bandeira da FNL (Frente Nacional de Luta), liderado por Zé Rainha, e depois pela bandeira do MSL (Movimento Social de Luta), liderado por Hugo Zaidan. 

Conversamos com Raquel Lima, uma das mais expressivas e influentes liderança do movimento, que busca a sonhada “reforma agrária” na região:

Repórter:  Raquel, no limiar do prazo de vencimento de uma ordem judicial, qual a expectativa hoje dos acampados, afetados pela decisão da justiça, na região de São d’Aliança?

Raquel LimaO processo de aquisição das terras no Estado do Paraná está bem avançado, a questão da posse da terra nada interferi em sua aquisição.
O maior problema maior é a desunião e a criação de vários grupos. Até o presente momento o Incra reconhece apenas a Bandeira do MSL. 

Para o Incra, isso acaba por favorecê-los, pois antes tinha o compromisso da compra de 5 fazendas no valor de mais de 49 milhões, agora ficou mais fácil. São apenas duas e se torna mais viável diante da realidade política e social.


Repórter: Você entende realmente que o INCRA cumpre sua função social ou é um mero “vendedor de sonhos”?

Raquel Lima: Sim o Incra cumpre. Atender às diferentes demandas sociais e aos grupos de interesse envolvidos no espaço rural exige um grande empenho e tempo. 

Na minha visão, temos dois empasses que atrasa todo o processo da Reforma Agrária no País:

Mesmo com o esforço de muitos Diretores do Incra e também da Ouvidoria Agrária, a política transforma tudo isso em massa de manobra. Precisamos de governantes que estejam compromissados com o povo durante seus quatro anos de liderança e não somente em seu ano eleitoral.

Necessitamos da verdadeira reforma agrária no campo! Hoje o povo brasileiro sonha com seu pedaço de chão e muitos necessitam da terra para sobreviver, mas a realidade vivida em acampamentos é que ainda existe uma grande quantidade que mancha esta visão. O fato de não se organizarem para plantar e comprovar que é do campo dar-se a conotação de estão ali para fazer chácaras de lazer. Se você não vai exercer a função de agricultor 


Repórter: No inicio das ocupações em São João d’Aliança, a maioria da população apoiou o movimento, hoje já existe certa aversão, a que você atribui essa mudança de comportamento?

Raquel Lima: Uma pergunta bem capciosa. Talvez tudo tenha se dado através da falta de caráter e ostentação por parte da liderança de Hugo Zaidan.

A partir do momento que foi escandalizado e exposto seu envolvimento com várias mulheres acampadas, que chegou a culminar em um filho com E.N., isso trouxe o início do descredito para aqueles que respeitam sua família e a moralidade.

Outro ponto foi o pensamento de rivalidade com o agronegócio, afinal, em 2050 serão 9,1 bilhões de pessoas no mundo, 34% a mais do que hoje, sendo 70% será urbanas. 

O Brasil tem potencial para ser o principal fornecedor de alimentos do mundo e responder ao aumento da demanda global de importações, e boa parte da produção é oriunda da agricultura familiar, ou seja, a união e a cooperação entre o agronegócio e a agricultura familiar será a chave para os desafios da governança agrária no país.

Repórter:– O que você pode relatar de aprendizado ao longo de sua vida de luta?

Raquel Lima: Respeito, coragem e dor. Devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito, e inspirar esperança onde há desespero. “Nelson Mandela” Respeito para com o povo.

Repórter:- Em relação à população de São João d’Aliança, o que você tem a dizer?

Raquel Lima: Somos nós os atores para a transformação, acreditem no potencial da agricultura familiar da região, lutem por estas terras que já pertencem à vocês e aprendam a cobrar com União por seus direitos.

Repórter: Nas eleições passadas, você chegou a ensaiar uma entrada na política, ainda existe futuramente essa possibilidade?

Raquel Lima: A eleição passada trouxe o novo para São João D´aliança, acredito muito nas novas expectativas e propostas de boa parte vereadores.

Repórter: Qual o momento mais tenso, já vivido por você na sua história de luta, sobretudo em São João d’aliança?

Raquel Lima: A desocupação do acampamento Cerrado com a queima dos barracos e a perseguição por parte do Major Belelli.

Repórter: Uma grande alegria e uma grande decepção que você tem a registrar como mulher?

Raquel Lima: Alegria: Saber que estou no caminho certo, que posso contribuir para luta e o sonho de muitos. Hoje sou reconhecida a nível nacional na luta da mulher do campo e pretendo fazer muito mais ainda. É melhor morrer na luta do que morrer de fome! Decepção: Meu companheiro.

Repórter: – Qual o compromisso de Raquel Lima com os acampados hoje?

Raquel Lima: Estou com o projeto da mulher do campo com a cooperativa CATITU e com a ANU– Ação Nacional Unificada. 

Na oportunidade foi apresentado a Instituição Museu do Futuro que é ligada a ONU o Projeto da Cooperativa CATITU, que traz à mulher do campo uma oportunidade de construir sua renda familiar através da fabricação de Conservas de Bambu, mini milho e a produção de seu quintal de forma orgânica e sustentável. 

O projeto consiste em que uma mulher é capaz de sustentar sua casa através de um quintal produtivo de 10x20 juntamente com o extrativismo de sua região pelo meio do cooperativismo. 

Este é o resgate da verdadeira agricultura familiar! Iniciou-se com 4 acampadas mulheres e 1 homem, sendo Maria José, Cassía, Elita, Eliane e Pedro Paulo. 

Através de uma cultura familiar minha, trouxe para eles a experiência da fabricação de conservas de Bambu, e com a excelente aceitação no mercado tomou forma e venho expandindo para outros Estados, que diga-se de passagem já estão bem mais avançados do que nós. 

A Secretaria Estadual de Agricultura Familiar do Estado de Mato Grosso, através do diretor Corgésio Albuquerque e Márcia Secretária Adjunta da SEAF, propôs a criação de um grupo de trabalho para desenvolver juntamente com a ANU o projeto de captação de recurso com a ONU para a mulher no campo. 

Estamos falando em um trabalho a nível nacional que se iniciará no Mato Grosso e Goiás com um montante de mais de três milhões a ser investido em capacitação e infraestrutura. 

O outro projeto que estou desenvolvendo é a ANU, que é a união dos movimentos sociais trabalhadores sem terra, associações e agricultores familiares em prol de uma força maior para representar e defender de forma coletiva ou individual fortalecendo a produção e seu escoamento, bem como as políticas públicas e a economia solidária. 

Hoje estamos em 10 Estados, com mais de 18 bandeiras de movimentos sociais e representamos mais de 50 mil famílias.







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