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domingo, 29 de abril de 2018

De São João da Aliança: Casal transgênero planeja casar-se na Catedral de Brasília





Amor pode deixar de ser palavra e tornar-se uma pessoa. Foi assim para Christopher João. Ao conhecer Wanda, ele deu nome e rosto ao que era sentimento abstrato. 

Os dois compartilham uma experiência além do afeto: caminharam juntos pela transição de gênero. Ele nasceu biologicamente em corpo feminino. Ela, fisicamente, tinha características masculinas.

O vestido preto usado por Wanda durante a entrevista um dia cobriu o corpo de Christopher, quando ele ainda carregava o nome feminino nos documentos. Era preciso morrer simbolicamente para renascer. “A gente fala que essa é a roupa da finada. Eu também dei calças e camisas masculinas do finado para ele”, diz Wanda.

Eles se conheceram no Centro de Referência Especializado da Diversidade Sexual, Religiosa e Racial (Creas Diversidade), espaço criado pelo Governo do Distrito Federal para apoiar e orientar pessoas discriminadas. 

Christopher já havia concluído a mudança. Wanda iniciava o processo.Aos 18 anos, ele se descobriu transexual. “A princípio, me via como mulher lésbica. Aos 20, comecei a tomar hormônios. A parte mais difícil foi me aceitar trans”, lembra Christopher, que teve apoio da família nesse processo.

Wanda entendia-se como homem gay, a princípio. Vivia em São João da Aliança (GO), uma pequena cidade perto da Chapada dos Veadeiros. 

“Internamente, aos 18 anos, comecei a compreender quem eu era, mas evitava pensar no assunto”, afirma. Quando ela passou a morar em Brasília, em 2016, sentiu liberdade para viver abertamente como mulher transexual.

Os dois estão juntos desde agosto de 2016 e pretendem selar a união com uma cerimônia na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Para o casal, a questão religiosa não é o mais importante.A igreja é um cartão-postal brasiliense, o favorito de Christopher, que é guia turístico e estudante de história. 

Wanda formou-se em geografia, deixou a sala de aula na época do processo de transição e agora estuda design de moda. Os dois fazem estágio em um órgão público.Agora, aguardam apenas a alteração do gênero de Wanda nos documentos para poderem dar entrada no pedido de casamento na igreja. 

A atualização do RG deve sair em breve e a cerimônia civil está prevista para dezembro. Depois disso, eles entrarão na fila para celebrar o amor na Catedral.

Wanda cogita usar um vestido branco modelo sereia quando caminhar pelo tapete vermelho do templo, sob o olhar dos anjos de Alfredo Ceschiatti. Christopher já decidiu o visual: vestirá terno bege. Quer a decoração toda em branco, com flores e velas. O colorido dos vitrais já basta.

Nos bancos da igreja, estarão personagens importantes na história do casal. A assistente social que os apresentou, Mirella, será madrinha. 

“Vamos convidar a comunidade LGBT de Brasília, especialmente as trans. Vai ser uma parada gay, uma celebração da diversidade”, planeja Christopher.“Quem sou eu para julgar?”

O Metrópoles entrou em contato com a Arquidiocese de Brasília, responsável pela administração da Catedral, para saber da disposição em receber uma cerimônia LGBT, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

O papa ligou para o rapaz e o convidou para uma audiência privada, porém fora da agenda oficial. No encontro, ele disse a Diego: “Deus quer bem a todos os seus filhos, sejam como forem, e tu és filho de Deus, por isso a Igreja aceita-te como és”.

Em outra ocasião, sobre homossexuais, Francisco declarou: “Quem sou eu para julgar?”. O papa disse que “Jesus nunca rejeitaria a fé de uma pessoa transexual”.

Resistência

O casamento de Wanda e Christopher será também uma exaltação ao direito de existir. A “vida toda” pode significar 35 anos para transexuais e travestis. Essa é a expectativa média de idade para pessoas com essas identidades.

O Brasil é o país onde mais LGBTs morrem de forma violenta. Em 2017, ocorreram 179 assassinatos de travestis ou transexuais no território nacional, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O número significa um homicídio a cada 48 horas.

Nos últimos 8 anos, foram 868 assassinatos de travestis e transexuais no país, segundo a ONG Transgender Europe (TGEu). 

Em números absolutos, isso é mais que o triplo das ocorrências no México, ocupante do segundo lugar do ranking, com 256 mortes no mesmo período.

Eles doaram um ao outro muito além das roupas trocadas após a transição de gênero. 

“Nos fazemos companhia até para ir comprar um pão. É aquilo: vai acompanhado, porque nesta sociedade ser trans é viver exposto à violência. O único lugar onde me sinto segura é do lado dele”, afirma Wanda.

Fonte e texto: Metrópoles 

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