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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Campos Belos: chegou a hora de se discutir o futuro das águas no município





Um leitor atento nos mandou essas imagens, que mostram um desmate de uma fazenda, na região nordeste do município de Campos Belos, próximo à Serra Geral e nas imediações da nascente do Rio Mosquito. 

O intuito aqui não é criminalizar o fazendeiro, que, aliás, nem sabemos o nome. 

Até porque o local não é área de preservação ambiental (APA) ou uma reserva ecológica. 

O fazendeiro deve estar dentro da lei e querendo fazer renda com o seu bem. 

Não somos contra o agronegócio, pelo contrário, queremos que ele cresça, obviamente em paralelo à preservação ambiental. 

Mas publicamos as imagens para alertar a comunidade da delicadeza do tema. 

Campos Belos, assim como toda a região passa por uma severa estiagem e a tendência é  a piora com o passar dos anos; com o recrudescimento do aquecimento global e com o aumento da população, da poluição e do uso da água. 

Ocorre que o município é carente de água. 

Recentemente este Blog mostrou como anda o Rio Montes Claros, única fonte de 20 mil habitantes, quase seco.  

O rio bezerra também está numa situação delicada.   

O que sobra são a fontes de água nascidas próximas à Serra Geral, como o rio Mosquito, pivô da grande enrolação política, que há 40 anos tenta trazer a água doce para os lares da cidade. 

Mas o  que o ocorre quando se começa a desmatar as áreas berços das fontes de rio como o Mosquito?

A pergunta só tem uma resposta. Aridez e escassez. 

Chegou a hora de os vereadores da cidade tomarem uma iniciativa mais pragmática em defesa das nascentes do município e também dos cursos d´água.  

Há que se chamar a comunidade para o debate e encontrar saídas, soluções. 

O futuro é sombrio e não espera. 

O que está em jogo nem é mais a qualidade de vida das futuras gerações (netos e bisnetos), mas a qualidade de vida desta geração, que começa a sentir os dissabores da seca.

Há anos temos falado isso aqui. 

Mas a comunidade, as autoridades, as pessoas em geral têm dado de “ouvido ao mercador”. 

Parecem que não querem ouvir ou o “problema é dos outros”. Não minha gente, o problema nosso.

Por muitos anos morei no nordeste do país e vi de perto o que a seca é capaz de fazer. 

Bastar ler o livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, para se ter a noção do que é viver sem água. 

O romance, publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca. 

O livro possui 13 capítulos que, por não terem uma linearidade temporal, podem ser lidos em qualquer ordem. 

Porém, o primeiro, "Mudança", e o último, "Fuga", devem ser lidos nessa sequência, pois apresentam uma ligação que fecha um ciclo de mudança" narra as agruras da família sertaneja na caminhada impiedosa pela aridez da caatinga, enquanto que em "Fuga" os retirantes partem da fazenda para uma nova busca por condições mais favoráveis de vida. 

Assim, pode-se dizer que a miséria em que as personagens vivem em Vidas Secas representa um ciclo. Quando menos se espera, a situação se agrava e a família é obrigada a se mudar novamente.

Fabiano é um homem rude, típico vaqueiro do sertão nordestino. Sem ter frequentado a escola, não é um homem com o dom das palavras, e chega a ver a si próprio como um animal às vezes.

Então meu povo, é hora de levar a coisa a sério. Ou queremos nos tornar animais? 

Um comentário:

Anônimo disse...

Situação grave meu caro Dinomar Miranda. Pelas imagens percebe se que a área desmatada fica em frente ao deslizamento ocorrido se não me engano em 2012, que deixou em alerta a população de Campos Belos. Como você disse, não é possível pelas imagens identificar se a área é de preservação permanente ou não, e, não criminalizar o proprietário da área. O certo é que essa região das nascentes do Rio Mosquito deveria se transformar em uma área de uso restrito, ou seja uma reserva ambiental. A razão se explica no fato de ser o Rio Mosquito o único curso de água da região com capacidade para abastecer não apenas Campos Belos, mas Arraias, Novo Alegre e Monte Alegre de Goiás. Aliás a capitação das águas do Mosquito deveria ser planejada para abastecer todas essas cidades. O Mosquito é um Rio diferente de outros a exemplo do Montes Claros que abastece Campos Belos. Suas nascentes ocorrem em afloramentos do Aquífero Urucuia, um dos maiores do Brasil. Urucuia que também cede o nome ao Sertão de Guimarães Rosa em "Grandes Sertões Veredas". E são por suas águas que existem as Veredas. Rios a exemplo do Mosquito são mais perenes em relação aos outros cuja as nascentes ocorrem nos lençóis superficiais. Mas, isso não significa que podemos ocupar indiscriminadamente suas margens, mesmo as que não são protegidas pela legislação. Talvez é chegado o momento da população de Campos Belos assumir essa responsabilidade e cobrar um posicionamento do poder público sobre uma política de preservação das áreas de nascentes com expansão para todo o vão desde Pouso Alto até a divisa com a Bahia. O Mosquito é um Rio cuja a gestão cabe ao Governo Federal (Artigo XX da CF), pois delimita duas unidades federativas, necessita assim que outros segmentos participem do debate. Fica a sugestão para que a Câmara de Vereadores de Campos Belos compre essa responsabilidade e busque as soluções necessária. Talvez convocar uma audiência pública para debater e colher subsídios para apresentar às autoridades federais responsáveis pela gestão do Rio. De nada adianta enterrar canos se, a continuar assim não teremos água pra escorrer entre eles.