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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Crônica: O Morro da Cruz





Por Nemilson Vieira de Moraes, 

É muito comum, em algumas cidades, com relevos topográficos significativos por perto, a gente visualizar no seu divisor de águas, uma cruz, tamanho família, fincada sobre o solo. Onde os fiéis convergem para reverenciar o seu Deus junto dela, mais próximos dos céus.

Em Campos Belos, não é diferente: por lá, essa tradição existe provavelmente há mais de cinqüenta anos, e a cada ano se fortalece mais. O número de pessoas que aderem a ela, e se empenham nessa “travessia religiosa”, só aumenta.

Lá, o “Morro da Cruz” está à esquerda de quem sai para a cidade histórica de Arraias, no Estado do Tocantins.

A cada ano, por ocasião da Semana Santa, impreterivelmente, a fila indiana de fiéis, serpenteia morro acima, rumo à cruz, em busca de um renovo espiritual, num momento especial com Deus. 

Os mais idosos não podem contar com a mobilidade de antes, e, portanto, não se arriscam mais a subirem o íngreme relevo.Mas ficam na retaguarda, ao pé da serra, dando suporte para os mais novos em rogos e orações a Deus, por eles.

Aguardam o retorno dos mais novos, que logo voltam com as bênçãos de Deus em forma de energias renovadas; para enfrentar mais um ano inteiro, de muita luta.

A comunidade católica é mais fervorosa nessa tradição por lá. Mas outros seguimentos religiosos também adoram seu Deus, no monte, todos os anos, em tradição similar, ou com uma freqüência maior, em muitas regiões brasileiras.

Começou aqui na Capital de Minas Gerais, o evento do “Sermão do Monte”, pela Igreja do Evangelho Quadrangular, onde participam evangélicos e pessoas de todos os credos; hoje a tradição estendeu-se, pelo restante do Brasil e pelo mundo.

Não sigo essa tradição de buscar ou adorar a Deus no monte, não por discordar do belo costume dos que assim o fazem; mas, por força da rebeldia mesmo e de não me empenhar muito, nessa obrigação Sagrada.

Lembro-me, de ter subido uma única vez ao “Morro da Cruz” da minha cidade; isso fora ainda na minha mocidade.

O meu maior desejo é retornar mais vezes ao cume do monte, para respirar o ar puro da montanha, fazer uma oração ao pé da cruz e ver lá de cima a cidade com um novo olhar; agora mais crescida, mais robusta e mais bela; convidando-me a vê-la com um pouco mais de sentimento bom.

Se Deus me der essa licença, estarei por lá este ano ainda, para realizar essa proeza de galgar aquela linda colina. É uma área de beleza ímpar, devido à vista que se tem lá do alto: da cidade, e do horizonte ao longe.

Irei lá, sim, no topo do “Morro da Cruz”, antes que minhas forças diminuam mais ainda, e me permitam somente chegar ao pé do morro; ou talvez nem isso; e antes que meus olhos acometidos de uma possível catarata, não mais me permitam ver, ou reter sequer, a imagem exuberante lá de cima, em minha retina.

Seria bom, se o “Morro da Cruz” não fosse visitado, somente por fiéis, uma vez por ano; e não unicamente com o objetivo religioso; mas, que também fosse visitado constantemente por todos os seus moradores e turista.

Que se tornasse um mirante, onde toda sorte de pessoas, pudessem contemplar, lá de cima, o belo cenário urbano e natural, dado pelo Criador de presente, especialmente, ao povo dessa querida cidade.

O “Morro da Cruz” é um daqueles lugares que nos permitem ver a integração e a exuberância do trabalho da natureza.

O local ainda abriga uma biodiversidade riquíssima.

Que o povo de Campos Belos saiba da sua importância, e sinta-se dono deste imponente patrimônio natural, onde fiéis no passado, fincaram a “cruz de Jesus.” E, não somente este, mas os outros montes também, que circundam,  embelezam, e protegem a cidade dos fortes ventos, erosões, e outros males.

E, que saibam verdadeiramente dar valor nessa preciosidade divina que tem diante de si – os morros -, molduras naturais desse Termo.

Que tenham o sentimento de pertencimento; sensibilizem-se mais, conscientizem-se mais; ame-os, e preserve-os!

Vós legisladores, criem leis mais rígidas, tombando-os como patrimônios da cidade. Para que os nossos morros sejam uma garantia de proteção de uma região, cujas características permitem a sobrevivência de árvores plantas e animais ameaçados de extinção.

Antes que venham os maus dias em que, mineradoras ávidas pelo lucro, os encham de promessas e joguem tudo do alto a baixo. Sem dó nem piedade.

Indo embora depois, e deixando para trás um rastro de destruição. E, uma população de homens, plantas e bichos, completamente órfãos.

A mineração pode assassinar a alma de um lugar.

Devido à grande expansão urbana, eles – os agentes econômicos do ramo de mineração – têm um interesse especial pela exploração de espaços montanhosos; geralmente no topo das montanhas, as rochas têm maior teor de minérios.

Sua preservação significa a manutenção da tradição religiosa acima mencionada; a manutenção das espécies e do próprio homem.

Com certeza, esse evento rumo ao “Morro da Cruz” mesmo que anualmente, fortalece a união entre os moradores local; e estimula as comunidades para a interação e a fraternidade entre si e o Meio Ambiente.

Essa comunhão entre irmãos e a natureza, é sem dúvida um verdadeiro marco da religiosidade e da fé do povo camposbelense.

Nemilson Vieira de Moraes é Gestor Ambiental e Acadêmico Literário

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