Banner 1

sábado, 9 de abril de 2016

Crônica: Pernambuco, um camposbelense por adoção. Uma história viva


Por Nemilson Vieira de Moraes,

A troca de cidade parece-me que não foi uma coisa ruim para ele. 

Do contrário, já teria ‘puxado o carro’ ou ‘picado a mula’, como se dize por aí; pois,quando algo em sua vida não estava dentro dos conformes, gostava de dizer para todos ouvirem:

- Vai-te embora Zé Luiz!

Repetia isso muitas vezes, quando estava perdendo em rodadas de jogos de baralho na banca do Valdemar Sapateiro – ou celeiro.

“Pernambuco”, é assim que meu velho amigo é conhecido na cidade onde escolheu para viver e ter amigos, construir uma família e ser feliz.

Ele vive lá até hoje, desde que trocou Belo Jardim (PE) por Campos Belos (GO). De belo em belo teria mesmo de ser bela a sua caminhada...

Nada melhor do que ver mamãe! 

Neste ano de 2015, já tive o prazer de estar com ela por duas vezes: – em fevereiro e julho.

Na última ida à terrinha soube que esse personagem lendário ainda morava na saída da cidade, sentido ao distrito do Barreirão. Numa Rua que leva sua alcunha - limítrofe à Vila Baiana, bairro onde me criei e onde mora a velhinha mais amada do mundo: a minha mãe.

Sou saudosista assumido e quando me bate a saudade de alguém, às vezes chega a doer. Foi isso exatamente que aconteceu comigo em relação ao personagem em questão.

Fazia muito calor naqueles dias, uns 40 °C na sombra, arrisco em dizer. Mas nada disso chegou a ser obstáculo que me impedisse de matar a saudade que sentia do amigo.

Pus os pés na estrada e fui lá vê-lo. Desejava muito aquele momento.

Preocupou-me o fato de não ter agendado previamente a visita. Mas por falta de contato isso não foi possível. Eu temia não o encontrá-lo ou mesmo o encontrando, não poder atender-me.

Mas, assim mesmo prossegui com o meu intento...  

Sem boné, o sol cozinhava meus miolos e queimava o meu corpo desprovido de protetor solar.

As rolinhas caldo-de-feijão pousadas em copas de árvores queimadas pela ação danosa do fogo, provavelmente proposital, não se cansavam – com seu canto dolente - de pedir a São Pedro um golinho d’água por caridade.

Uma ponte caída na Rua do "Pernambuco" dificultou o acesso, mas sem muita preocupação. Dei a volta pela rodovia e não demorei muito a ver sua casinha, comprida de telhado rebaixado, coberto com telhas comuns, feitas por lá mesmo, onde no passado havia uma olaria.

Estava ilhada por veículos e sucatas por todos os lados. Tirava de lá um complemento para a sua aposentadoria defasada.

Papai, Seu Natã, como era conhecido, fora um dos seus clientes. Comprou uma caminhonete Ford 29, de oito cilindros, à gasolina, que teve de vendê-la rapidamente devido ao consumo excessivo de combustível.

Cada acelerada, sabe-se lá Deus quantos Cruzeiros iam embora. Era uma C14, carroceria longa – que eu cuidava e a chamava de “garça”, por ser toda branca.

De longe o vi conversando com um amigo, balançando-se numa rede armada na sala; perpetuando a bela tradição pernambucana, que conservara até aqueles dias.

Quando abri a tranqueira da cerca de arame-farpado que dá acesso a sua residência, senti o cheiro de infância.

Vindo de um cajueiro nativo no pátio, carregadinho de frutos que me dava o ar da graça e reportava-me ao tempo de menino, em que muitas vezes o colhia nos campos do lugar, nas primeiras chuvas; para degustá-los e também levá-los para casa.

De bermudão e sem camisa, já um pouco encurvado pelos anos e conservando uma longa barba branca e rosto comprido que nos lembra Manuelzão - o personagem de Guimarães Rosa.

Com o braço direito na tipoia, devido a uma queda, levantou-se com um pouco de dificuldade da sua rede e recebeu-me com um largo sorriso no rosto que sempre cultivou, e cumprimentou-me em voz alta:

-“Tá louco gruvião!”. quanto tempo a gente não se via! Por onde andas e como vão as coisas?! E me abraçou forte e alegremente.

Ele tem muita consideração para comigo e com a família Vieira de um modo geral.

Pedi-lhe um gole d’água e em seguida ofereceu-me um cafezinho, onde o aceitei prontamente, sem muita resistência. E a prosa fluiu ao gosto do freguês.

Dentre os temas abordados, o futebol, a política e a religião.

Já sabia que o velho amigo fora um grande articulador político bastante atuante e influente, sendo, por várias vezes, representante dos munícipes na Câmara Municipal de Campos Belos.

E que posteriormente, contando com o seu prestígio, carisma e vasto serviço prestado à comunidade, elegera com folga, o seu filho Valderêz à Câmara Municipal; mas um trágico acidente automobilístico ceifou a vida do garoto, prematuramente.

Naquele dia fiquei sabendo que o “Pernambuco” também fora um grande atleta do futebol amador da cidade, que o acolheu como um de seus filhos ilustres: 
quando contou e mostrou-me algumas de suas fotos que tirou com os colegas jogadores do time “Campos Belos Futebol Clube (CBFC)”.

Com a sua permissão, adicionei algumas fotos no meu arquivo pessoal. No campo religioso também me surpreendeu bastante com suas revelações relevantes.

Mesmo sendo romeiro de carteirinha, em excursões infindas ao santuário de Bom Jesus da Lapa e professando o credo católico apostólico romano, abriu as portas de sua propriedade - onde há um pequeno monte - à irmandade de outros credos religiosos que tem o costume de suplicar o seu Deus com cânticos e louvores, súplicas e orações num lugar junto à natureza.

E que também fora um dos grandes colaboradores da Igreja Evangélica Assembléia de Deus local, por ocasião da construção do "Grande Templo" dessa referida instituição.

Como se não bastasse sua calorosa hospitalidade e a doçura de suas palavras - na prosa prazerosa que tivemos - não me despediu vazio:  

- “Leva essas rapaduras para dona Isabel - minha mãe - adoçar o café e a vida; foram feitas pelo meu garoto no assentamento onde trabalha.”

Foi muito proveitoso aquele encontro com "Pernambuco", o amigo dos velhos e bons tempos.

Eu queria somente vê-lo e ouvi-lo, mas um assunto puxava outro e a prosa redeu que foi uma beleza; e se estendeu ainda um pouco mais com a chegada de um dos seus filhos e de uma das suas netas.

Agora com um pouquinho mais de sensibilidade vi nessa tão rápida conversa com esse pilar da sociedade camposbelense; a grandeza do acervo histórico de Campos Belos: na história de vida desse cidadão pernambucano e goiano.

A história desse personagem é vasta e rica...

Para ser contada com riqueza de detalhes, precisaria de alguém com a habilidade de um historiador e a maestria de um romancista, para levantar dados e tecer a trama como uma boa biografia merece.

Seria bom se a sua história pudesse ser mais pesquisada e registrada em um livro para posteridade.

Sem dúvida, “Pernambuco” contribuiu significativamente para o desenvolvimento do lugar em seus vários aspectos: urbano, econômico, social e político...

E se fez grande com a grandeza do povo da cidade que escolhera para viver a maior parte de sua existência terrena e que aprendeu a amar de coração!

O migrante
  
José José Luiz da Silva (Pernambuco):

Migrante nordestino e cidadão do mundo; mas acima de tudo camposbelense de coração.

Segundo seu próprio relato em vídeo, conheceu Campos Belos com sessenta casas residenciais. 

Hoje tem algo em torno de vinte mil habitantes.

Representou a comunidade de Campos Belos por quatro mandatos como um dos Vereadores mais votados; 

Foi o primeiro motorista habilitado da cidade; o primeiro mecânico e sanfoneiro; e primeiro proprietário de veículo automotor da região; 

Atuou como atleta amador do primeiro time de futebol da terrinha “Campos Belos Futebol Clube”;  

E atuou como um dos primeiros Atores Sociais de grande relevância. 

Foi homenageado pelo o Radialista e Servidor da Segurança Pública Ivan de Almeida no programa “Cidade Em Foco” da Rádio Atividade FM de campos Belos do dia 02.04.2016.

E para alindar ainda mais o evento esteve presente in-loco na emissora o escritor e poeta professor Manoel que produziu dois textos: um biográfico – lido inicialmente por Ivan Almeida; e um poético – também sobre “Pernambuco” lido pelo próprio autor.   

Como ouvinte dessa magnânima programação restou-me parabenizar toda a “Produção” da Rádio pela condução das pautas em voga e por essa brilhante ideia de registrar formalmente em produções literárias a história de vida dos cidadãos que se destacaram no enlevo sociocultural da cidade.

Fora uma linda homenagem que me emocionou bastante!  

É sem dúvida uma plausível iniciativa: homenagear os guerreiros que protagonizaram a história de Campos Belos – GO, e que nos enche muito de orgulho de saber o quanto foram importantes na construção de um mundo melhor para as gerações atuais e futuras.   

A grandiosidade e à riqueza interiorana está em seus recursos naturais, em seus ecossistemas e em sua biodiversidade; na diversidade sócio-cultural, na generosidade e na história de sua gente. 

4 comentários:

Antônio Carlos Bidó disse...

Quero aqui parabenizar meu amigo e conterraneo Nemilson Vieira de Morais pela está linda matéria. Pernambuco uma lenda viva que merece ser lembro sempre amigo do pai velho Bidó.

Anônimo disse...

Amiguíssimo Antônio Carlos!!!

Que alegria! Fico feliz em saber que achou interessante minhas singelas palavras nesse texto, referindo-me a essa personagem lendária da história de nossa querida cidade de Campos Belos-GO.

A sua amizade para mim é uma extensão da amizade que tinha com seus pais (Dona Patu e Seu Bidó)que os amava de coração!

Obrigado,e abraços!

Att.: Nemilson vieira de Moraes

Anônimo disse...

Olá amigo Antônio Carlos!
Que alegria!...Fico feliz em saber que achou interessante,meu singelo texto sobre o personagem lendário de nossa querida Campos Belos,o "Pernambuco".

A sua amizade para mim,além de ser um motivo de orgulho,é também uma extensão da amizade que tive à seus pais:Dona Patu e Bidó como eram conhecidos.Que fazia questão de visitá-los todas às vezes que ia aí de férias.

Obrigado,e abraços!

Nemilson Vieira de Moraes

Evânia disse...

Nossa que bacana Nemilson! Gosto muiiito de aeu Pernambuco. Eu o costumo chamar de "papai noel". A minha família toda gosta muito dele! Parabéns pela matéria! Evânia