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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Alanir Cardoso, um arraiano: Memórias da saga comunista (Parte II)




Por Luiz Manfredini,  do Portal Vermelho

O capítulo desta quarta-feira da série “Memórias da saga comunista” contempla o histórico dirigente Alanir Cardoso. 

Goiano de Arraias (hoje Estado do Tocantins), vive no Recife desde 1980, após cumprir mais de cinco anos de prisão. 

Nesse ano foi eleito para o Comitê Central do PCdoB, cujo Comitê Estadual de Pernambuco dirige a partir de 2000.

Sem mulher, sem filhos, sem nada 

- Meu nome é Luís Soares Lima. Sou baiano de Barreiras.

E os torturadores, aos berros:

- Você é Alanir Cardoso, dirigente do PCdoB no Nordeste! 

Encapuzado e preso ao pau-de-arara, o corpo se contorcendo a cada descarga de eletricidade.

-Onde você mora? Com quem vai se encontrar?

- Sou Luís Soares Lima, não vou me encontrar com ninguém e não moro.
Gritos, xingamentos e correrias na sala de tortura.

Dois dias se passaram. Pau-de-arara, choques elétricos, afogamentos e pancadas. Até que trouxeram Fred Morris, o pastor metodista norte-americano, simpatizante do partido. 

Acareados sob tortura, queriam de Fred o nome real e o endereço de quem se apresentava como Luís Soares Lima. E ele, de fato, não sabia. O outro queria aliviar a situação do pastor.

- Você me conhece como Luís, Fred. Mas sou Alanir Cardoso, estudante perseguido.

Um enxame de torturadores caiu sobre Alanir.

- Onde você mora? Onde você mora? – berravam todos ao mesmo tempo.

- Não moro. Não tenho mulher, não tenho filho, não tenho nada!

O torturador ergueu o capuz, olhou nos olhos de Alanir e disse, voz de decisão e ódio:

- Sou torturador e vou matar você!

Recebeu do prisioneiro o olhar severo e áspero do sertanejo de há muito curtido pelo sofrimento.

Dias depois, a notícia: solto, Fred Morris fora expulso do Brasil. Nos Estados Unidos, difundia a violência da ditadura brasileira. Alanir pensou: “Agora a situação mudou, minha prisão vai para o mundo”. 

Quando o policial trouxe-lhe a roupa e mandou que se vestisse, ele retrucou:
- Vestir para que? Eu vou para onde?

Não vestiu. Vestiram-no à força.

O policial veio com a prancheta na mão.

- É para você assinar.

- Assinar o quê?

- A relação das suas coisas.

- Que coisas? Eu vou para onde?

Na prancheta, o nome de Luís Soares Lima.

- Primeiro não sou essa pessoa, sou Alanir Cardoso. Depois, não vou assinar nada!
E o policial, perplexo.

- Quem são vocês? Eu estou onde? Eu vou para onde?

Em Brasília, ao recebê-lo, o cabo lhe indaga sobre o nome falso.
- Não tenho nome falso.

- O nome de guerra.

- Que guerra? Guerra é o que vocês estão fazendo comigo, sendo torturado esse tempo todo. E o seu nome, qual é?

E o cabo, perplexo.

Dias depois:

- Veste a roupa.

- Para que? Eu vou para onde? Quem são vocês? Não vou vestir.

Vestiram-no à força.

Ainda em Brasília, mandam-no tomar banho e vestir a roupa que lhe entregam.

- Banho para que? Para ser torturado mais uma vez? Não vou tomar.
Não tomou.

Quando, no dia seguinte, lhe trouxeram a bandeja com feijoada, disse: - Não vou comer.

Preparava-se a visita do comandante do quartel. Um coronel e sua comitiva.
E Alanir, agarrado às grades:

- Eu quero saber por que estou a 55 dias sendo torturado. Onde é que estou? Quem são vocês?
E o coronel, perplexo.

- Mas aqui você não foi torturado – gaguejou.

No campo de treinamento militar nos arredores de Brasília, deitado em cruz ao lado de um buraco. E um torturador, erguendo-lhe o capuz:

- Olhe a cova onde você vai ser enterrado. 

Em seguida, no quarto com cavaletes de ferro, correntes dependuradas no teto e a pequena máquina do choque elétrico, cinco jovens de não mais que 30 anos, de manga de camisa e calças jeans sentados em tamboretes diante de Alanir.

- Nós somos do Movimento Anti Comunista, o MAC, somos quadros tanto quanto você, só que do lado de cá. Não temos nada contra você, pessoalmente. Nossa tarefa aqui é arrancar as informações que você tem.

- Os jornais de hoje, no Recife – disse um deles – dizem que você se evadiu. Você sabe o que significa isso?

Alanir os mirava, um a um, olhos calejados de sertanejo.

- Sou Alanir Cardoso. Não moro. Não tenho mulher, não tenho filho, não tenho nada!

Pau-de-arara, choque, afogamento, chutes, murros.

- Vamos trazer seu pai para cá!

Setenta e quatro dias de suplício. 

Um comentário:

Brena Barbosa Oliveira Santos disse...

Lembro me como hj meu tio contanto a sua história , qdo ele foi preso na ilha de Itamaraca. Qdo ele foi solto o jornalista da rede globo não me lembro o nome foi noticiar a sua soltura. Ele tem jornais impresso da época.