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Escolas Kalungas: Críticas x Contribuições. Não me recordo de ter visto alunos sentados pelo chão, sem carteiras para acomodar-se



Por Valmir “Crispim” Santos, 

Nos últimos dias tenho acompanhado com certo interesse várias publicações nesse blog com denúncias envolvendo a Subsecretaria de Educação de Campos Belos, referentes distribuição de materiais, atraso na merenda escolar e outros. 

Considero essas denúncias um bom momento para refletirmos sobre a situação das escolas da Comunidade Kalunga.

De antemão quero deixar claro meu entendimento em que todos nós temos direito a voz, mas deveríamos ter também a responsabilidades de mostrar quem somos. Não me entendo bem com o anonimato. 

Assim decidi por minha conta (e risco) fazer algumas considerações sobre o assunto discutido e claro, me identificando no final do texto.

Antes porém, quero informar que não possuo qualquer vínculo de amizade com a Senhora Subsecretária de Educação. Com ela mantive poucas conversas institucionais já que sou servidor público há 23 anos, e dentre as minhas funções inclui o trabalho de Educação Sanitária nas escolas rurais da região. 

E as escolas Kalungas estão ligadas a Subsecretaria de Educação de Campos Belos. Não tenho portanto nenhum motivo para sair em defesa da Subsecretária de Educação.

Aliás já denunciamos em textos anteriores a situação de algumas escolas Kalunga, especialmente em Monte Alegre de Goiás, com fotos devidamente datadas. 

Nossas denúncias remontam a 2005, quando iniciamos alguns trabalhos na Comunidade, e o ímpeto da denúncia ainda não cessou, mas as razões para tal atualmente diz respeito especialmente a orientação política-pedagógica, algo que será debatido em outra oportunidade.  

Mesmo com as inúmeras dificuldades enfrentadas pelas escolas Kalunga, reconheço os avanços que tivemos nos últimos dois anos, que inclui dentre outros a reforma e construção de novas salas de aulas e a implantação do Ensino Médio na localidade do Riachão em Monte Alegre de Goiás, uma reivindicação antiga da comunidade.

 Avançamos também nas práticas pedagógicas e na disposição de materiais que fortalecem o aprendizado daqueles que ao longo dos tempos foram abandonados pelas políticas públicas. Vide a qualificação dos professores que hoje atuam nas escolas Kalunga.

Como disse antes não estou aqui em defesa da Subsecretária de Educação, e antes que alguém assim pense lembro que acompanho as escolas Kalunga desde 2005, e nesse período os últimos dois anos foram fundamentais aos avanços que hoje verificamos nessas unidades de ensino. 

E isso se consegue apenas com trabalho. Entendo que os problemas existem e estão sendo enfrentados com a seriedade que a situação exige. 

Ao assumir inúmeras escolas no Território Kalunga, a Secretaria de Educação impôs a Subsecretaria de Educação de Campos Belos um grande desafio, mas ao mesmo tempo não a dotou das condições humanas e materiais para responder a altura das necessidades existentes. 

E essas condições estão acima das responsabilidades da subsecretária, são decisões de governo. Digo isso por ser também um servidor da base, da linha de frente e que sofre com as inúmeras limitações à prestação de um serviço público de qualidade.

Essas escolas são portadoras de carências históricas, e não obstante estão localizadas em regiões de difícil acesso, necessitando de condições especiais para serem assistidas. Lembramos que estamos numa estrutura lenta e burocrática, onde as ações e decisões ocorrem prioritariamente em instâncias superiores, fugindo do controle e dos anseios das equipes locais. 

E às equipes locais cabem o papel de fazer o possível e na maioria das vezes o impossível no sentido de manter os serviços públicos funcionando com o mínimo de dignidade. 

Em todas as visitas recentes que fiz às escolas Kalunga não me recordo de ter visto alunos sentados pelo chão, sem carteiras para acomodar. E olha que em muitos momentos esses fatos foram por mim registrados nas escolas da comunidade. E claro, disponho desses registros em meus arquivos.
  
Quanto a situação da merenda escolar penso que as críticas são necessárias, mas antes devemos ater as verdades dos fatos. Me recordo que nos meses de agosto e setembro, os dois veículos de atendem as escolas quilombolas estavam sem condições de uso em função de problemas mecânicos, algo muito comum em veículos que circulam nessas comunidades. 

Mesmo os veículos da AGRODEFESA, todos com menos de três anos de uso, em muitas oportunidades já deixaram os servidores a pé no território Kalunga (inclusive o autor desse texto). Com isso quero demonstrar o tamanho do desafio que é assistir essas escolas, e mesmo assim obtivemos avanços significativos já citados anteriormente.

 Em setembro último a Subsecretária de Educação depois de peregrinar por vários órgãos públicos em busca de ajuda, solicitou junto a unidade da AGRODEFESA de Campos Belos, apoio para distribuir a merenda nas escolas localizadas em Cavalcante (GO), pois os veículos não estavam em condições de realizar a distribuição. Eu mesmo desloquei às escolas junto com a equipe da subsecretaria na distribuição da merenda e atividades pedagógicas.

Nesse sentido sou conhecedor dos esforços da Subsecretária em buscar apoio de outros órgãos da administração estadual, caso contrário teria de locar algum veículo para tal. 

E como sabemos, os recursos públicos destinados à educação não podem ser gastos com esse fim, incorrendo o gestor em crime contra a administração pública.

Os problemas existem e não podemos fechar os olhos diante da morosidade do estado em atender as necessidades mínimas das Escolas Kalunga. 

Por outro lado devemos reconhecer os avanços obtidos nos últimos anos, que inclusive abrem caminhos para outras reinvindicações e consequentemente novos desafios. Não estamos falando de desafios que resolvem apenas com as ações da Subsecretaria de Educação de Campos Belos. 

Eles só serão vencidos com o envolvimento da comunidade, do estado e municípios visando melhoria em vários aspectos incluindo as práticas pedagógicas e a infraestrutura. Como se vê esses problemas não são exclusivos das escolas Kalunga. 

Ainda temos muito que avançar com vistas às condições ideais à pratica de uma educação libertadora. Nesse sentido entendo que o momento é de unirmos forças para melhorar ainda mais essas unidades escolares, buscando a construção de bibliotecas, quadras poliesportivas e outros instrumentos públicos capazes de promover o avanço das práticas pedagógicas. 

Fica a dica aos deputados que representam a região no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa, para que possam inserir emendas aos orçamentos contemplando essas demandas.

Enfim, quem me conhece e acessam meus textos nesse blog sabe da minha postura crítica em relação as condições dessas escolas, só não sabem dos nossos deslocamentos à Brasília e Goiânia na busca de melhorias não só para as escolas, mas para a comunidade de um modo geral. 

Àqueles que criticam de forma anônima sugiro que venham para o debate em público, e juntos (ou separados), poderemos cada um ao seu modo contribuir ao avanço da qualidade da educação disponibilizada ao Povo Kalunga. 

Continuo defendendo a prerrogativa da crítica, mas penso que devemos nos colocar a disposição e somar esforços no sentido de melhorar “ainda mais” o ensino aprendizado nessas escolas. E se possível que lancemos ao debate aberto e transparente. Só assim construiremos práticas educacionais inovadoras.

Valmir “Crispim” Santos
Agente de Fiscalização Agropecuária
AGRODEFESA/Campos Belos


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