quinta-feira, 30 de julho de 2015

Encontro de Culturas em Alto Paraíso (GO): discussão sobre tradição das bandas de pífano acaba em cortejo na rua



Por Ana Ferrareze, 

Nesta terça-feira, 28 de julho, a Tenda Dona Lió, do XV Encontro de Culturas Tradicionais, recebeu a oficina “Vivências de Banda Pífano”, com o grupo La Pifada e a presença especial do Zabumba de Canudos Velho. 

Quem ministrou a discussão foi Carlos Valverde, professor do Conservatoire Occitan des Musiques et Danses Traditionelles, em Toulouse, na França, e fundador do La Pifada. 

O grupo nasceu na cidade francesa como um projeto para unir as tradições populares do Brasil e da França, tocando canções de ambos os países com pífano e percussões.

O grupo Zabumba de Canudos Velho foi convidado para fazer parte da roda e mostrar sua grande sabedoria com a gaita, como eles chamam o pífano, muito tradicional em Canudos, principalmente na família Anselmo. Raimundo Anselmo contou que começou a tocar caixa com 5 anos. 

Depois de um tempo, passou para a gaita, que é seu pai, Seu Antonio, o Gobira, quem constrói. Ele e seus irmãos fizeram ricas demonstrações de ritmos como samba, lundu, rancheira, xote, baião, ciranda, caboclinho e arrasta pé, esquentando o encontro. 

“É muito importante conservarmos essa tradição da construção dos instrumentos”, diz Carlos.

O professor também lembrou que a formação das bandas de pífano é brasileira. Tem influência dos indígenas, dos africanos e dos europeus. “Toda essa mistura foi parar no Nordeste e criou essa tradição”. 

Ele lembrou também que um bom presente aos músicos de Canudos pode ser a taboca, madeira que antigamente era usada para construir as gaitas, mas que hoje não existe mais na Bahia. 

Por isso, hoje, na construção, eles usam canos PVC, que emitem um som muito semelhante.

Depois da conversa, todos os presentes escolheram um instrumento – gaitas, zabumbas ou caixas – e começaram um ensaio junto aos dois grupos. Assim que afinados saíram em cortejo pelas ruas de São Jorge, botando todo mundo para dançar.

Zabumba de Canudos Velho ensina a fazer gaita com cano PVC




Na segunda-feira, 27 de julho, aconteceu uma oficina de construção de gaita, com patrocínio do Sebrae. 

O pesquisador e documentarista Marcelo Rabelo apresentou Seu Antonio da Silva Anselmo, o Gobira, e seu filho, Guinho, do grupo Zabumba de Canudos Velho, que ensinaram aos presentes como um cano de PVC se transforma em gaita, também conhecida como pífano. 

O instrumento faz parte de uma tradição que está há anos na família Anselmo, de Canudos, na Bahia. Marcelo escreveu o livro Raízes dos Sertões - Memórias de Canudos Velho, com perfis de personalidades da cidade. 

Em 1995, ele fez a viagem pensando em aprender mais sobre a guerra de Canudos e Antonio Conselheiro, mas acabou se encantando pela tradição das gaitas e zabumbas da família Anselmo.

Seu Antonio, por exemplo, é quem faz as caixas, zabumbas e gaitas que soam nas mãos dos músicos de Canudos. 

Antes, as últimas eram feitas com bambu e taboca, mas com a falta de material passaram a usar o PVC, que emite um som similar. “É mais uma prova da sapiência do povo nordestino e brasileiro, que tem muita facilidade de adaptação”, diz Marcelo.

O grupo Zabumba de Canudos Velho é formado por três filhos de Seu Antonio, incluindo Guinho. O pai faz uma participação especial com sanfona. Eles representam a continuidade das tradicionais bandas de pífano do sertão da Bahia. Tocam zabumba de couro, caixa e duas gaitas. 

A diferença entre uma e outra é a ordem: a primeira toca mais alto, enquanto a segunda toca mais baixo, mas a nota é a mesma.


Foi uma espécie de arte-terapia passar as facas com lâminas afiadas para formar e arredondar os furinhos da gaita. 

Seu Antonio e Guinho ajudaram na supervisão e, vez ou outra, davam retoques fundamentais no instrumento. Qualquer raspadinha a mais ou a menos passa pelo crivo dos dois. Problema resolvido bem rápido por uma serra, que logo corta o longo cano, de tamanho proposital para a situação, para começar mais uma vez. 

No fim, a etapa mais difícil: aprender a tocar. Segundo Seu Antônio, é só assoprar e movimentar os dedos.

Fonte: Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros 

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