segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Complexo do Alemão: Tropa de Elite influencia, espiral do silêncio é quebrado, mídia muda de lado

 
"Vítimas do Sistema"


Capitão Nascimento, um novo heroi nacional
Policiais civis no Tropa de Elite real







































Por Dinomar Miranda 

A invasão do Morro do Alemão, no último fim de semana, pode ser considerada uma continuação do filme Tropa de Elite, uma nova versão do cineasta  José Padilha e do competente ator Wagner Moura.

Os ingredientes estavam todos lá: BOPE, Caveirões, favelas, defensores dos direitos humanos, traficantes e mídia ao vivo 24 horas.

Apesar da realidade ser bem mais complexa e mesmo que alguns torçam o nariz, a verdade é que o filme Tropa de Elite contribuiu sobremaneira para a tomada do Complexo do Alemão.

O filme foi um divisor de águas.

Quando a primeira versão de tropa de elite surgiu, com os berros ensurdecedores do Capitão Nascimento,  logo uma gritaria pipocou em jornais, televisão e na mídia em geral.

Eram os patrulheiros ideológicos de plantão.  Sim, eles existem.

Tacharam o filme de fascista, de fazer propaganda da polícia violenta e dos métodos de tortura usados pelos policiais.

Os patrulheiros ideológicos dominaram a cena ao longo de décadas. 

No cinema brasileiro, os bandidos sempre foram os mocinhos e a polícia sempre o lado mal que deveria ser derrotado.

 “Pixote” , “Carandiru”, “Cangaceiros” e “Bandido da Luz Vermelha” são quatro bons exemplos.

Com o sucesso estrondoso do filme, com mais de 20 milhões de assistência (Tropa 1 e 2), a sociedade civil  e até mesmo as autoridades mudaram o modo de como viam as coisas.

Com Tropa de Elite, bandido se tornou bandido e polícia, polícia.

Houve uma inversão de papéis, antes arraigado no cinema.

A chiadeira dos ideológicos foi suplantada pela multidão, que parou e foi ao cinema assistir aos filmes.

Mas, a mais espetacular mudança  de paradigma ocorreu  na cobertura jornalística. 

É verdade.

Tropa de Elite contaminou a mídia.

No estudo da comunicação, há uma teoria denominada “espiral do silêncio”, proposta pela pesquisadora  alemã Elisabeth Noelle-Neumann, na década de 60.

Resumidamente, no quesito opinião pública, as pessoas tendem a não revelar a sua opinião  quando verifica que a grande massa de opiniões no ambiente em que ela vive é divergente.  

“Penso de uma maneira, mas não exponho o que penso, simplesmente para mão ser recriminado ou discriminado”.


Assim parece ser nas redações da grande mídia. 

A cobertura jornalística, nas questões policiais, sempre foi com o enfoque dos filmes.

A polícia era o  aparelho repressor do estado e os  bandidos as vítimas do sistema.

E isso acontecia porque reinava nas redações a opinião daqueles velhos “líderes de opinião” que representavam os patrulheiros ideológicos, de todas as matizes, inspirados  quase sempre no pensamento marxista da escola de Frankfurt.

Quem pensava de maneira diferente não ousava expor as suas convicções.

Tinha medo. Eis o efeito do espiral do silêncio.

Veja  o que ocorreu neste fim de semana.

Passei o tempo todo ligado nas emissoras abertas e na Globo News, que transmitiu o tempo todo  “o filme do Alemão”.

Das dezenas de pessoas entrevistadas, não vi uma única voz dos direitos humanos ou daquelas pessoas que aparecem nessas horas para defender  as “vítimas do sistema”.

Mas eles estavam presentes.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ,  que inspirou o personagem Diogo Fraga, de Tropa de Elite 2, um deputado que consegue êxito nas urnas por causa da militância em defesa dos direitos humanos, estava no contexto das operações no morro do Alemão.

Como no filme, ele estava atuante e  participou no sábado das negociações na tentativa de conseguir a rendição dos traficantes isolados no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

Para evitar um banho de sangue, o deputado Marcelo Freixo conversou com o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, com lideranças das favelas do Alemão e com o coordenador do AfroReggae, José Júnior, que esteve com traficantes para que os criminosos se entregassem.

“Como Fraga, Freixo é professor de história, militante dos direitos humanos, conquistou mandato de deputado do Rio em razão dessa militância, comandou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou as milícias no estado e, ao longo do tempo, passou da condição de “defensor de bandido” – pecha que sempre recai sobre quem defende os direitos humanos – para ser uma referência no trato com a violência carioca”, assinala o jornal o Estado de Minas. 

O deputado foi o segundo mais votado na disputa pelo Legislativo do Rio. Conquistou a reeleição com 177 mil votos

Desta vez as vozes dele e de outros ideológicos foram caladas.  

A grande imprensa e, por fim,  a “ opinião pública” estavam do lado do aparato do estado, que neste fim de semana era o libertador.

E mais, a grande operação só se realizou porque os dirigentes políticos sentiram o clima político propício, logo na quarta-feira. 

Com a mídia a favor, todos quiseram tirar proveito.

As autoridades viram que o risco era pequeno, que não seriam acusados de torturadores ou detratores dos direitos humanos.

Ao contrário, virão que seriam tratados como herois.

Logo, o impossível  aconteceu.

Forças Armadas, Polícia Federal e, imagine, Polícia Civil e Polícia Militar cariocas, eternas rivais, se juntaram numa grande coesão para o bem.

Assim, o filme de José Padilha pode ser considerado como uma das grandes causas da mudança de comportamento da mídia, das autoridades, das forças de segurança e da opinião pública.

Não foi a única, mas a principal.

Contribui para a mudança de atitude.

Bastou a mudança de comportamento, do romantismo exacerbado que protegia os reais bandidos para um pensamento realista e prático.

Nas palavras da Globo, o Rio Contra o Crime, o bem contra o mal. 

Neste filme, ao menos nesta batalha,  venceu o bem. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lula concede entrevista exclusiva a blogueiros


Texto do "O Escrevinhador", da Revista Carta Capital, que  participou da entrevista.  

A dinâmica da entrevista não foi a ideal, certamente.

Mas era a única possível: só uma pergunta por entrevistado, sem possibilidade de réplica, para que os outros blogueiros pudessem perguntar também (em coletivas “convencionais”, repórteres brigam pelas perguntas, atropelam uns aos outros muitas vezes; os blogueiros combinaram de agir de outra forma).

Além disso, faltaram as mulheres (só Conceição Oliveira entrou, via twitcam).

Fizeram muita falta.

Mas o importante é registrar o fato histórico: blogs sem ligação com nenhum portal da internet foram recebidos pelo Presidente da República numa coletiva hoje cedo, no Palácio do Planalto.

E os portais tradicionais (quase todos) abriram janelas na capa para transmitir a entrevista – ao vivo.

Não sei se os leitores têm dimensão do que isso significa: quebrou-se o monopólio.

Internautas puderam perguntar, via twitter.

O mundo da comunicação se moveu. Foi simbólico o que vimos hoje.

A velha mídia vai seguir existindo.

Ninguém quer acabar com ela. Mas já não fala sozinha.

Ao contrário: Estadão, UOL e outros ficaram ligados na entrevista com o presidente.

Entrevista feita por blogueiros que Serra, recentemente, chamou de “sujos”.

Os sujinhos entraram no jogo…

Foi só o primeiro passo. Caminhamos para a diversidade.

O que é muito bom.

Quanto ao conteúdo, importante registrar que Lula anunciou: quando “desencarnar” da presidência (expressão repetida várias vezes durante a coletiva), vai entrar na internet. “Serei blogueiro, serei tuiteiro”.

O presidente deixou algumas questões sem resposta.

Não explicou de forma convincente dois pontos: por que Brasil não abre arquivos da ditadura? E porque Paulo Lacerda foi afastado da PF e da ABIN depois da Satiagraha?

Sobre esse último ponto, Lula chegou a dizer: “Tem coisas que não posso dizer como presidente da República.“

Hum… Frustrante. O mistério ficou. Paulo Lacerda contrariou quais interesses?

Os blogueiros não perguntaram sobre Reforma Agrária.

Falha grave.

Nem sobre saúde.

E sobre política externa ninguém falou; felizmente, Lula desembestou a falar sobre o tema (mesmo sem ser perguntado), contando um ótimo (e divertido) bastidor sobre as conversas dele com o líder iraniano.

Natural que muitas perguntas tenham se concentrado na questão das comunicações.

É essa a batalha que move os blogueiros.

Mas ainda bem que surgiram também outros temas, como Direitos Humanos, jornada de trabalho, fator previdenciário, Judiciário, composição do Supremo.

Numa coletiva para a velha mídia, a pauta certamente seria diferente. Haveria mais perguntas sobre a composição do ministério de Dilma, sobre guerra cambial.

Mas aí seria uma coletiva da velha mídia.

Papel dos blogueiros foi trazer outros temas ao debate.

Poderíamos ter feito melhor, sem dúvida.

Da próxima vez, deveríamos debater melhor a composição da bancada de entrevistadores.

Fiquei um pouco frustrado, também, porque havia a promessa de uma segunda rodada de perguntas. Mas não houve tempo.

Parte do jogo.

Importante é que esse canal está aberto.

Tentei, durante a entrevista, resumir o que Lula ia falando. Um resumo falho em vários pontos. Mas serve como uma primeira leitura.

Assista ao vídeo da entrevista

Texto do "O Escrevinhador", da Revista Carta Capital, que  participou da entrevista.

Mídia convencional não gostou

Veja o que a Folha On Line (do Grupo Folha de São Paulo) publicou:


"A primeira entrevista já concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a blogueiros foi marcada por críticas à grande imprensa -tanto por parte do presidente quanto dos entrevistadores.


Dez blogueiros autoclassificados de "progressistas" participaram da entrevista, acertada com o Palácio do Planalto após o 1º Encontro de Blogueiros Progressistas, realizado em agosto, em São Paulo.

Do grupo, apenas dois podem ser considerados neutros.

O restante é de blogs que fazem defesa do governo ou que, durante a campanha, se alinharam com a candidatura Dilma Rousseff.

O blog "Amigos do Presidente Lula", não previsto inicialmente na lista divulgada pela Presidência, também participou da entrevista coletiva, realizada na manhã de hoje, no Palácio do Planalto.

A entrevista durou cerca de duas horas.

"Das dez perguntas formuladas pelos blogueiros, apenas três buscaram mostrar alguma contradição de Lula e seu governo.

Uma sobre uma suposta negligência do governo na política em relação a uma eventual punição aos torturadores da ditadura militar, outra sobre o mau desempenho do PT no Acre, e uma última sobre as razões da saída do ex-diretor geral da PF, Paulo Lacerda, do governo, na esteira da Operação Satiagraha.

Um dos blogueiros, Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem Mídia, chegou a se referir ao "PIG".

Coube ao secretário de imprensa do Planalto, Nelson Breve, traduzir a sigla ao presidente: "Presidente, o PIG é o que ele chama de Partido da Imprensa Golpista".

Ao lado do ministro Franklin Martins (Comunicação Social), Lula voltou a afirmar que parou de ler jornais e revistas e disse que, quando sair da Presidência, vai reler tudo para saber "a quantidade de leviandades, de inverdades que foram ditas a meu respeito".

Segundo o presidente, "o jogo não é fácil, sobretudo quando você não quer se curvar, quando você quer ter independência no seu comportamento", disse.

O presidente diz que a imprensa fica assustada com sua popularidade elevada, porque "trabalharam o tempo inteiro para não acontecer isso".

Para Lula, "não existe maior censura do que a ideia de que a mídia não pode ser criticada".

Lula defendeu a regulação da mídia e afirmou que pretende entregar a Dilma um texto sobre um marco regulatório para o setor antes do término do mandato, daqui a pouco mais de um mês. Segundo Lula, o lema da imprensa livre é "cobrar, exigir, questionar e defender quando for preciso defender".

Defendeu, ainda, a criação de "um instrumento para a sociedade acionar judicialmente falsas denúncias" e cobrou responsabilidade da imprensa.

"Vou ter o orgulho de terminar o meu mandato sem precisar ter almoçado em nenhum jornal, em nenhuma revista, em nenhum canal de televisão", disse o presidente.

Lula disse, ainda, que "se alguém for fazer a história do meu mandato e pegar algumas revistas, a impressão que ele vai ter do meu mandato será a pior possível".


O Estadão tratou a entrevista do Presidente Lula com os blogueiros da seguinte forma:


" Em entrevista a blogueiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem ataques à "mídia antiga" e, ao mesmo tempo, exaltou a liberdade de imprensa.

"Com todos os defeitos, eu sou o resultado da liberdade de imprensa deste País", afirmou. "Eles pensam que o povo é massa de manobra como era no passado, eles se enganam.

O povo está mais inteligente, mais sabido."


Ao final do encontro, Lula confidenciou que, após deixar o governo, pretende retomar o debate sobre a crise política de 2005. "Quando eu desencarnar da Presidência, vou resgatar essa questão do mensalão no Brasil com profundidade", afirmou, segundo um dos entrevistadores.

A entrevista foi concedida a Renato Rovai, articulador do encontro, José Augusto Duarte, do Blog Os Amigos do Presidente Lula, Rodrigo Vianna, do Blog Escrevinhador, entre outros.

MENSALÃO

Descontraído, depois da entrevista, Lula confidenciou que, quando deixar o governo, quer retomar o debate sobre a crise política de 2005.

"Quando eu desencarnar da Presidência, vou resgatar essa questão do mensalão no Brasil com muita profundidade", afirmou, segundo um dos entrevistadores.

O presidente demonstrou não estar satisfeito com os esclarecimentos sobre o caso que atingiu o Planalto e o PT no terceiro ano do primeiro mandato, avaliou o blogueiro que relatou a declaração dele.

INFORMAÇÃO

"Vocês sabem que eu parei de ver revista, parei de ver jornal. A raiva deles é que eu não os leio. Então, pelo fato de não os ler, eu não fico nervoso.

Mas podem ficar certos de que eu trabalho com muita informação, mas não preciso ler muitas coisas que eles escrevem."

LIBERDADE DE IMPRENSA

"Com todos os defeitos, eu sou o resultado da liberdade de imprensa neste País.

Quem tem que julgá-los não sou eu, não vou ficar xingando.

O que eles se enganam é que eles pensam que o povo é massa de manobra, como era no passado, que eles podem derrotar um candidato, tirar candidato, pôr candidato, eles se enganam.

O povo está mais inteligente, está mais sabido, e eles agora têm que lidar com uma coisa chamada internet que eles não sabiam como lidar."

CONTROLE DA MÍDIA

"Acho que é diferente ser dono de banco e ser dono de um meio de comunicação.

Nós precisamos ter claro: um trabalha com o bolso e o outro trabalha com a cabeça das pessoas.

Então, eu acho que nós temos que ter um certo controle da participação de estrangeiros, sim. A gente não pode abrir mão do controle, essa é a minha tese."

FUTURO MULTIMÍDIA

"Pode ficar certo que eu serei tuiteiro, que eu serei blogueiro, que eu serei... vou ser um monte de coisas que não fui até agora."

ARAGUAIA

"Nós estamos para apresentar o resultado de uma investigação em que participou não apenas o governo, mas a sociedade civil.

E o resultado vai ser o de que não encontramos aquilo que nós queríamos encontrar. Eu ainda não (tenho) o resultado das investigações, mas parece que até agora não foi encontrado nada.

Essas pessoas vão ter que apresentar o relatório para mim para que eu possa passar o relatório para a Dilma. (...) Eu fiz o que eu sabia e o que eu podia fazer na questão de direitos humanos.

Gostaria de ter encontrado os cadáveres que as pessoas queriam que encontrasse. Espero que a Dilma tenha mais sorte do que eu."

TRISTEZA

"O dia em que eu sofri mais aqui na Presidência foi o dia do acidente da TAM no Aeroporto de Congonhas.

Eu nunca vi, nunca vi tanta leviandade. (...)

Ninguém falava de erro humano. Esse foi o dia mais nervoso, mais triste da minha vida. Eu não quero nunca mais que isso se repita."

PLANO DE DIREITOS HUMANOS

"Eu cometi um erro, porque eu disse textualmente que, para aprovar um texto daquela magnitude, a gente deveria ter feito um debate dentro do governo e não foi possível fazer isso.

Então, refizemos algumas coisas que era preciso fazer, sem ferir aquilo que era a principalidade do texto." "

sábado, 20 de novembro de 2010

20 de novembro: dia nacional da consciência negra



Passados mais de dois séculos do fim da escravidão negra no Brasil, ainda persiste a maldita herança do período mais vergonhoso de nossa história.

A escravidão do Brasil, além de ter sido uma das mais cruéis, marcou profundamente a sociedade brasileira.

O tratamento dispensado aos negros traficados da África, ao longo dos  mais de 300 anos, deixou marcas sociais, econômicas e estruturais indeléveis, que tem repercutido, de geração em geração, de forma contudente milhares  e milhares de famílias afrodescendentes.

Somente uma política afirmativa, como a adotada pela Constituição Brasileira, poderá ser capaz de minimizar ( apenas minimizar) a imensa e eterna dívida que nós, brasileiros, temos com o povo negro.

O Dia da Consciência Negra é uma marco simbólico, que serve para relembrar  o quanto de suor e sangue negro foi derramado em prol deste Brasil que conhecemos hoje.

Infelizmente, os benefícios atuais do nosso país, como educação, saúde e prosperidade ainda não chegaram as descendentes de Zumbi e dos outros milhares de heróis negros anônimos espalhados por todos os rincões desta terra brasilis.

Nosso Blog não poderia deixar passar em branco tão nobre data.

E para homenagear os milhões de afrodescendentes, publicamos o poema de um dos mais ativos poetas goianos: João Beltrão Filho.

Desculpe o trocadilho da expressão comum, mas matamos dois coelhos como uma só cajadada, ao também fazer referência a um dos ícones da cultura de Campos Belos e do estado de Goiás.

O Poema Negro Aroeira,de João Beltrão Filho, segue abaixo.

Poesia: Negro Aroeira (Canto da Abolição)

Uma Poesia para uma cultura viva 
Por João Beltrão Filho

Sou madeira de dar em doido,
Sou cerne de aroeira...
Sou barranco, agüento o tranco,
Do balanço da peneira...

Sou como peão do trecho,
Sou seda, não sou molambo...
Sou negro, sou forte, sou bravo,
Conheço bem um quilombo...

Faço renda, faço arte,
Danço, jogo capoeira...
Sou de samba, sou de bola,
Sou cerne de aroeira...

Nas contas do meu rosário,
Eu exalto a minha fé...
Ao som do meu atabaque,
Negro joga “cangapé”...

Olho gordo não me ofende,
Curo cobreiro e quebranto...
Quando toco o meu berimbau,
Tristeza para longe espanto...

O negror da minha pele,
Não muda meu proceder...
Pois eu amo e sou amado,
Também tenho um bem-querer.

Artigo: Nordeste goiano. O que Goiás tem de pior agente esconde

Por João Beltrão Filho*

Com o término das eleições é hora de “baixar as armas” e de modo civilizado e imparcial cumprimentar os eleitos, lhes desejar saúde, sorte, sabedoria e elevado espírito público para que honrem cada voto recebido sejam eles de qualquer cidade, região, religião ou cor partidária.

Este é o momento oportuno para colocarmos em pauta as discussões dos graves e infindos problemas que afligem a Região Nordeste Goiano e a busca pelas suas soluções.

O Nordeste Goiano está localizado na divisa com os estados da Bahia e do Tocantins, se apresenta de forma homogênea, todos os seus municípios comungam dos mesmos males.  

Sua população sofre com a falta de investimentos e de políticas sustentáveis que busquem de forma definitiva minorar as asperezas da vida deste sofrido e altivo povo, o que lhe valeu o incômodo e infeliz pseudônimo de “Corredor da miséria”.

A região do  Nordeste Goiano conheceu os primeiros sopros do progresso no inicio da década de 60com o advento do governo Mauro Borges, onde ele, um estadista da maior grandeza, no afã de criar o projeto do Combinado Agro Urbano de Arraias, construiu a ponte sobre o Rio Paranã e a Usina Hidrelétrica do Rio Mosquito no município de Campos Belos, obras de imensa grandeza para a época. 

Com a queda do governador o projeto foi interrompido e a usina praticamente desativada pelo seu sucessor. 


Nos anos 70, foi anunciada a redenção do nordeste goiano com o inicio do Projeto Alto Paraíso, um arrojado projeto iniciado por um governo e lamentavelmente abortado e esquecido de forma irresponsável pelo sucessor. 

Nos idos dos anos 80, foi asfaltada a Rodovia GO 118 um grande feito para a ocasião e daí por diante nada mais de relevante foi executado no Nordeste Goiano pelos seguidos governos sejam eles de que tempo for (novo ou velho). 

Para evidenciar o descaso dos políticos no que toca aos desequilíbrios socioeconômicos verificados na região é só enxergar a estagnação da economia onde a exploração agrícola é de subsistência, praticada de forma empírica. 


A produção agropecuária apresenta baixos índices de produtividade, os comércios, na esmagadora maioria, são de pequeno porte e não há em toda a região quaisquer indústrias que seja pelo menos de médio porte. 

Na área da infra-estrutura, basta ver que em pleno século XXI o acesso a várias cidades da região é feito em estradas sem pavimentação. 


Em determinadas épocas do ano, principalmente no período chuvoso, tornam intrafegáveis e, pasmem, ainda há casos que é preciso atravessar transeuntes e veículos em balsas. 

A malha viária é péssima, vez que as estradas que foram asfaltadas há mais de 20 (vinte) anos nunca foram recuperadas e quase todos os aeroportos só recebem aeronaves de pequeno porte e não são pavimentados.

No que toca ao saneamento básico, algumas cidades não contam com serviço de tratamento de água, e rede de esgoto sanitário é um sonho distante que muitos moradores nem conhecem. 


Apenas duas cidades possuem este tipo de benefício. 

Apesar de ter sido construída na cidade de São Domingos uma Usina Hidrelétrica, os investimentos na renovação, manutenção e extensão de redes de energia elétrica é feito de forma precária, tanto que as constantes quedas no fornecimento de energia é fator inibidor da instalação de pólos industriais na região. 


Na época das chuvas é comum faltar energia até por 72 horas. 

Outro gargalo na região é a questão da regularização fundiária, cuja falta de titularidade e escritura das terras impede os pequenos produtores a ter acesso a financiamentos. 

Na área da educação foram implantadas duas unidades da Universidade Estadual de Goiás - UEG em toda a região (Posse e Campos Belos). 


É um fato relevante. 


Todavia é público é notório que as mesmas, apesar do esforço contínuo dos seus docentes, necessitam de investimentos maiores como a implantação de laboratórios de pesquisas, informatização, contratação de especialistas, pagamento de salários decentes e principalmente a oferta de cursos alternativos com ênfase na vocação regional. 

As escolas estaduais necessitam de reformas e reaparelhamento, com a implantação de laboratórios de pesquisas e informática, bibliotecas e áreas de recreação. 


Em suma, a educação no nordeste goiano está longe de atingir níveis desejáveis. 


Basta ver os baixos índices de aprovação das nossas escolas e alunos nos institutos de avaliação do governo, ENEM e IDEB.

Se a saúde pública no estado não é das melhores, no nordeste ainda é pior.  


A incidência de doenças, principalmente as provocadas pela falta de saneamento básico, a mortalidade infantil e outros tipos de males atingem índices alarmantes, comparados aos das regiões mais pobres do Brasil. 


Por esses motivos, o nordeste goiano detém os menores Índices de Desenvolvimento Humano - IDH do país. 

Não há um hospital de referência na região e os municípios gastam fortunas com ambulâncias para o transporte de pacientes para Brasília e Goiânia. 


Os que necessitam de hemodiálise, por exemplo, tem que deslocar até três vezes por semana, por mais de 400 Km, em  busca tratamento, o que chega a ser desumano.

No quesito desenvolvimento social, falta programas efetivos que busquem a erradicação definitiva da pobreza e da miséria, visto que os programas sociais que aí está são paliativos e não atendem de forma satisfatória a necessidade das camadas mais precisadas. 


Há carência de creches, programas de valorização dos idosos, apoio aos jovens e adolescentes e não há incentivos à geração de emprego e renda no meio rural. 

Para ilustrar o quanto é penosa a vida do pobre do nordeste goiano, não existe em nenhuma cidade uma agência da Caixa Econômica Federal, Instituto Médico Legal - IML ou um Posto de atendimento do INSS. 


Quando se tem necessidade destes serviços, dependendo da cidade, é preciso percorrer mais de 400 km para ter acessá-los. 

Vale destacar também a precariedade da segurança pública na região.  


O efetivo da policia militar é insuficiente e a policia civil, na maioria das cidades, não tem sequer uma sede e funciona de forma improvisada em imóveis cedidos pelas prefeituras. 

Policiais militares e civis se desdobram para prestar bons serviços sem aparelhamento, sem veículos, sem armamento e com baixos salários. 


Por conseguinte estamos vendo o aumento da criminalidade, dos delitos e o tráfico de drogas já é uma ameaça cada vez mais constante nas nossas cidades. 

Para mudarmos este cenário de desigualdade e desequilíbrio socioeconômico, objetivando tirar nosso povo da condição de miserabilidade e promover uma luta incessante para inserir a Região Nordeste Goiano na rota do progresso e da prosperidade é preciso reconhecer que a região é pobre e necessita de ações em todos os setores. 

Faltam estradas, energia, água tratada, saneamento básico, saúde, segurança, educação, indústrias, geração de emprego e renda, ou seja, falta tudo. 

É preciso que a população se mostre indignada com o tratamento dispensado ao Nordeste Goiano pelos políticos que em véspera de eleição alisam as nossas estradas em busca de votos, fazem promessas mirabolantes, registram em cartórios planos que criam ações especificas para a região, prometem criar companhias de desenvolvimento e fundos especiais para o nordeste e depois de eleitos desaparecem e nada disso sai do papel. 

É preciso que a sociedade e principalmente a imprensa cobrem o compromisso dos políticos de inserir em seus programas de governo projetos e ações concretas, palpáveis, viáveis e sustentáveis (não promessas) que busquem corrigir essas distorções, que proporcione de forma definitiva dar um tratamento igualitário aos dispensados às outras regiões.

É preciso correr contra o tempo e na hora de escolher os auxiliares que irão ajudar administrar o estado fazer uma abordagem critica para saber quem de fato conhece nossa realidade e tem vontade política de aproveitar nossas potencialidades de maneira racional e lógica, para que possamos dar um salto positivo rumo à prosperidade. 

Que os eleitos com os votos dos “nordestinos goianos” e os prefeitos da região exijam representatividade efetiva no governo para que em eleições vindouras possam merecer outra vez a confiança deste povo.

Há um Goiás dentro do Goiás. 

Existe um Goiás de regiões de economia pujante, impulsionadas pelas grandes indústrias, pelo crescimento das atividades agropecuárias, pela exploração mineral e inclusão no cenário turístico nacional. 


Existe este ou goiás que todos insistem em esconder. 

O que Goiás tem de melhor eles mostram, o que tem de pior eles escondem.



* João Beltrão Filho,  Técnico em Agropecuária pela Escola Agrotécinica Federal de Rio Verde/GO, Licenciado em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Goias, concluindo  Pós Graduação em Educação Ambiental pela Universidade Cândido Mendes/RJ, Poeta, Escritor e Diretor de Planejamento da Prefeitura Municipal de Campos Belos/GO

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Grata surpresa da vida

Rubens Nunes
Há um texto mundialmente conhecido pelo título "Até onde pode chegar a nobreza humana?" que conta a história fascinante e exemplar vivida pelos tenores Plácido Domingo e José Carreras.

É reproduzido em universidades, jornais, blogs e, inclusive, na Europa, terra dos tenores.

Até aqui nenhuma novidade.


Depois de meu retorno a Brasília, há cerca de três anos, mantive o meu relacionamento bancário com o Banco do Brasil, por intermédio de uma agência na Esplanada dos Ministérios.

É nesta mesma agência e por estes três anos que sou atendido pelo bancário Rubens Nunes de Andrade, um dos meus gerentes de relacionamento.


Na tarde de hoje (17/11), porém, o relacionamento mudou de foco: de amizade profissional para admiração.


A história: Rubens, além de bancário é também jornalista, economista e administrador.

Em 2003, ele publicou uma crônica no Jornal O Popular, de Goiás, mais uma das dezenas de outras escrita por ele.


Esta, entretanto, repercutiu estrondosamente e virou referência mundial.



Só então que me apercebi estar diante do iluminado autor do famoso texto " UM POUCO DE SOL, Até onde pode chegar a nobreza humana?"


Rubens Nunes reclama. Ele afirma que o texto ganhou o mundo, mas nem todas as pessoas que o reproduz tem o capricho ético de citar o autor.


Afirma também que é recorrente receber ligações de jornalistas e editores de outros países, que solicitam autorização para publicar o seu texto.

Aqui no Brasil, porém, essa não é a prática cultural. Ao contrário, " tem muita gente boa por aí, até professor de ética, que se coloca ele próprio o autor da crônica", desabafa.

O excepcional texto e uma grande história humana

Plácido Domingo
José Carreras












UM POUCO DE SOL

Até onde pode chegar a nobreza humana?

Por Rubens Nunes de Andrade.


Uma das raras coisas boas que a TV proporcionou ao grande público foi a aproximação com a música clássica.


Isso no final dos anos 80, começo de 90, quando popularizou especialmente os cantores que ficaram conhecidos como "Os Três Tenores", que, como se verá, quase não existiram, ou seja: Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras.

Com sua arte abrilhantaram diversos eventos, até mesmo Copas do Mundo de futebol!

Os três são brilhantes (o italiano Pavarotti nem tanto, e, ao que sei, já se aposentou), mas vou tratar apenas dos espanhóis: o Madrileño Plácido Domingo (tecnicamente o mais completo, já que além de maestro, toca vários instrumentos) e o Catalão, nascido em Barcelona, José Carreras (o preferido por meus ouvidos leigos).


Mesmo os que nunca visitaram a Espanha conhecem a rivalidade existente entre os Catalães e os Madrileños, sendo que os primeiros lutam até por uma independência, pretendendo uma nacionalidade própria que não a espanhola.


Mesmo no futebol os maiores rivais são Real Madrid e Barcelona, que exibe em seu belíssimo Estádio, o Camp Nou o sugestivo dístico "Todas as cidades tem um time”.

O Barcelona é o único time que tem uma cidade!".

Carreras e Plácido não fugiram à regra, em 1984, por questões políticas que não vêm ao caso, tornaram-se inimigos. Sempre muito requisitados em todas as partes do mundo, ambos faziam constar em seus contratos que só se apresentariam em determinado show se o desafeto não fosse convidado!


Em 1987, Carreras ganhou um inimigo muito mais implacável que Plácido Domingo, foi surpreendido com um diagnóstico terrível: leucemia! Sua luta contra o câncer foi sofrida e persistente.

Submeteu-se a vários tratamentos, como autotransplante de medula óssea, além de troca de sangue, que o obrigava a viajar uma vez por mês aos Estados Unidos.

Claro que nessas condições não podia trabalhar e, apesar de dono de uma razoável fortuna, os altos custos das viagens e do tratamento rapidamente minguaram suas finanças.

Quando não tinha mais condições financeiras, tomou conhecimento de uma Fundação existente em Madrid com a finalidade única de apoiar o tratamento de leucêmicos! Graças ao apoio da Fundación Hermosa venceu a doença e voltou a cantar!


Claro que recebendo novamente os altos cachês a que faz jus tratou de associar-se à Fundação e, lendo seus estatutos, descobriu que o fundador, maior colaborador e presidente da Funda ção, era o desafeto Plácido Domingo!

Descobriu ainda que o mesmo criara a entidade em princípio para atendê-lo e se mantivera no anonimato para não constrangê-lo a "ter que aceitar auxílio de um inimigo".

O momento mais lindo e comovente entre os dois foi o encontro, imprevisto por parte de Plácido, em uma de suas apresentações em Madrid, onde Carreras interrompe o evento e, humildemente, ajoelhando-se aos seus pés, pede desculpas e o agradece em público.

Plácido levanta-o, e com um forte abraço, os dois selam, naquele instante, o início de uma grande amizade! Certa vez, em Madrid, li uma entrevista de Plácido Domingo onde a repórter o indagava por que criara a Fundación Hermosa num momento que, além de beneficiar um "inimigo" ainda reviveu o único artista que poderia fazer-lhe alguma concorrência.

Sua resposta foi curta e definitiva: "Por que uma voz como essa não se pode perder..." é uma história que não deve cair no esquecimento e, tanto quanto possível, servir de inspiração e exemplo do que é capaz a nobreza humana!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Justiça rápida e inversão de valores: delegado Prótegenes é condenado


Delegado Protógenes, recém eleito deputado federal

Título da revista informa de que lado ela está


















Quase passa despercebido, com tímidas chamadas em alguns sites noticiosos.

Mas registramos aqui.

O delegado Protógenes Queiroz, aquele que botou na cadeia banqueiros e políticos desonestos,  foi condenado pela Justiça Federal a três anos e quatro meses de prisão pelos crimes de violação de sigilo funcional e fraude processual.

Isso mesmo. O delegado é condenado, enquanto o acusado, o todo pdoeroso banqueiro Daniel Dantas, do Grupo Opportunity, safa-se de mais uma (pelo menos por enquanto - está solto, mas  também foi condenado a dez anos de prisão por corrupção ativa).

Que justiça rápida, né?!

Pelo menos  há um alento.

A pena do delegado foi substituída por restrições de direitos - Protógenes terá que prestar serviços à comunidade em um hospital público ou privado, "preferencialmente de atendimento a queimados", e fica proibido de exercer mandato eletivo, cargo, função ou atividade pública.

Ele pode recorrer.


A sentença foi aplicada pelo juiz Ali Mazloum, da 7.ª Vara Criminal Federal em São Paulo, que acolheu denúncia da Procuradoria da República.

Conduzido pelo delegado Amaro Vieira Ferreira, o inquérito "revela" que Protógenes divulgou conteúdo da investigação coberta pelo sigilo.

Segundo a denuncia do Minsitério Público, o Delegado teria forjado prova usada em ação penal da 6.ª Vara Federal contra Dantas, que acabou condenado a dez anos de prisão por corrupção ativa.

O juiz destaca que Protógenes efetuou "práticas de monitoramento clandestino, mais apropriadas a um regime de exceção, que revelaram situações de ilegalidade patente".

Desde que se tornou alvo da Polícia Federal (PF), o delegado tem negado irregularidades.

Ele afirma que sua conduta é ilibada. "Não me corrompi, agi sempre no estrito cumprimento do dever", repete a interlocutores.


No Brasi é assim, minha gente. Mexeu com poderosos, até delegado vai para a cadeia. Total inversão de valores.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Enquanto isso, no G-20...

Calem a boca, nordestinos!


Patativa do Assaré






Wagner Moura

Ariano Suassuna

João Cabral de Melo Neto

Luiz Inácio Lula da Silva


















Por José Barbosa Junior

A eleição de Dilma Rousseff trouxe à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos.

Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória.

Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos.

E que fique bem claro: não os cito por terem apoiado o Serra... outros pastores se venderam vergonhosamente para apoiarem a candidata petista.

A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.

Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: "Nordestino não é gente.

Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!".

Infelizmente, Mayara não foi a única.

Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos "amigos" Houaiss e Aurélio) do nosso país.


E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!


Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!

Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?

Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?

Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?


Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos... pasmem... PAULISTAS!!!


E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.


Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura...

Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner...


E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia...


Ah! Nordestinos...


Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?

Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.

Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!


Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!


Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário... coisa da melhor qualidade!


Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil!

Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render.

Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco.

Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso...

mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!


Minha mensagem então é essa: - Calem a boca, nordestinos!


Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.


Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.


Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”

Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!

José Barbosa Junior, na madrugada de 03 de novembro de 2010.

Publicação original.

De Campos Belos (GO): Escolinha K10 mede forças com o Goiás e Atlético Goianiense

Por Morgana Tavares, A Escolinha de Futebol K10, presidida pelo ex-jogador de futebol profissional Kássio Fernandes, compareceu pe...