sexta-feira, 8 de maio de 2009

Carta do pai de um jovem suicida

Caro Sr. Leonel Tafareo, superintendente do Pátio Brasil Shopping [em Brasília]:
Sou o pai do jovem Pedro Lucas, um rapaz íntegro e cheio de esperanças que recentemente tirou sua vida no Pátio Brasil.

Está sendo muito difícil escrever esta carta, principalmente neste momento em que a dor, saudade e sentimento de perda ainda se fazem presentes. Mas são esses mesmos sentimentos, acrescidos do sentimento de indignação, que me moveram a escrever esse manifesto.

Fico a me perguntar quantos pais, amigos ou familiares das vítimas do shopping Pátio Brasil tiveram coragem de falar o que pensam, de reclamar os seus direitos de respeito e segurança, de expor a sua dor. Talvez poucos ou nenhum... Eu sei que nada trará o meu filho de volta, mas quem sabe esse meu ato possa preservar mais vidas e trazer mais respeito e consideração àquelas que já se foram.

Meu caro senhor, antes de acontecer com meu filho já sabia que o suicídio era uma prática corrente no shopping, já ouvira vários casos: de uma mulher grávida, uma senhora, vários garotos...

Não imaginava que era tão comum até acontecer com alguém do meu mais profundo íntimo. Outro dia, através de conhecidos, soube que a estatística de suicídios no shopping apresenta o número médio de 12 (doze) por ano, ou seja 01 (hum) por mês! Meu Deus, quantas pessoas já se suicidaram lá e ninguém fez nada?!

Bem, até que já fizeram, pois o pessoal está treinado. A rapidez em isolar a área, cobrir as vítimas com um plástico preto e acionar a perícia é admirável. Eles são mais rápidos ainda em acobertar os fatos. Por que ninguém fala sobre as mortes?
Esse silêncio absoluto eu comprovei pessoalmente.

No último sábado, dia 14 de março, visitei o shopping, o lugar onde meu filho pulou, onde ele caiu. Entrei em uma loja aleatória, fingindo ser um comprador comum. Quando discretamente perguntei do acidente, as atendentes fizeram cara de censura. “O pessoal faz a maior pressão para não comentarmos nada”, disse uma delas.

É clara e absurda a política do “pessoal” fazer as pessoas calarem, fazer as pessoas esquecerem logo o que aconteceu para não prejudicar as vendas, o lucro do Pátio Brasil. Aliás, do jeito que as coisas andam, por que ninguém ainda teve a brilhante idéia de abrir uma funerária no shopping, é dinheiro na certa.

O “pessoal”, a administração do shopping, também não quer nenhuma relação com os familiares das vítimas, pois ninguém, nenhum empregado do shopping, nem mesmo o senhor superintendente ou outro gerente do Pátio Brasil deu algum amparo a mim, à minha esposa, à mãe de meu filho; nem um telefonema, carta, ou aperto de mão. Quanta frieza!

A mídia também não faz alarde, o que, por um lado, considero positivo, pois a coisa fica menos banalizada. Por outro lado, ninguém fica sabendo dos inúmeros suicídios, fica como se nada tivesse acontecido.

Mas a banalização das mortes no shopping é inevitável, é um problema da nossa realidade. O suicídio no shopping virou espetáculo rotineiro, a que vários curiosos querem assistir, fotografar e até filmar a queda como se fosse a coisa mais comum do mundo.

Antes de o Pátio Brasil virar o lugar comum para os suicídios em Brasília, a Torre de TV era procurada para esse fim, até que, por respeito à vida humana, colocou-se lá grades protetoras para impedir que pessoas psiquicamente doentes, no momento maior dos seus desesperos, dali saltassem.

Por que ainda o Pátio Brasil não tomou esta providência? Esperando o quê? Qual a maior preocupação da direção desse shopping?
A solução é simples: uma grade, rede ou tela de proteção, vidro ou até mesmo um parapeito mais alto resolve.

O parapeito do lugar de onde meu filho saltou tem apenas 1,20m de altura, já é um risco para qualquer adulto, imagine para uma criança que inocentemente brinca! Eu tenho certeza que essas medidas não prejudicariam a estética ou o lucro do local.

Aquele sábado foi minha última visita ao shopping macabro. Minha família, meus amigos e a todos que eu puder passar essa mensagem tenho certeza que pensarão duas vezes antes de visitar o shopping Pátio Brasil.

Para concluir, senhor superintendente, saiba que o seu shopping, dada à insegurança e facilidade de pular, já é referência em estudos sobre suicídios, como o lugar mais procurado para esta prática, infelizmente.

Por fim, gostaria de colocar que o shopping deve ser um lugar alegre, que cultive a vida, e não a morte.

Como Vossa Senhoria pode imaginar, os familiares e eu especificamente me sinto com o acontecido. Assim, conforme já lhe disse pessoalmente em nossa conversa na data de 30/03/09, é imperioso que a fita (ou DVD) de segurança na qual aparecem trechos gravados do ocorrido não seja, em hipótese alguma, mostrada para nenhuma pessoa além daquelas responsáveis pelas investigações policiais sobre o assunto.

Lembro que é de inteira responsabilidade civil e criminal de vocês a guarda da fita (ou DVD) e a tomada das medidas de cuidado e segurança para que as imagens não venham a ser vistas ou disponibilizadas para quaisquer pessoas alheias ao problema.

Com relação às providências que Vossa Senhoria me assegurou que serão estudadas para prevenir eventuais novos acontecimentos, como o que vitimou meu filho, reafirmo (como já fiz pessoalmente na oportunidade em que conversamos) que dentro de 90 dias voltarei a cobrar medidas efetivas.

Marcos de Alencar Dantas

5 comentários:

  1. sou uma funcionaria do shopping do patio brasil, e sinto uma sensação ruim toda vez que chego p/ trabalhar achei sua atitude corajosa ecorreta finalmente alguem fez alguma coisa innfelizmente seu filho ja partira quando finalmente creio resolveram o problema ,sinto muito ,que ele descanse em paz.

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  2. cuide de seus filhos.. Não com roupas caras e presentes... Dêem carinho e atenção. Isso é responsabilidade dos pais não de shooping. Se não fosse lá seria em outro lugar..Assumam suas responsabilidades!!!

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  3. Gostaria de registrar que no último domingo dia 24 de Maio de 2010, estava no Shopping Pátio Brasil com minha Família almoçando e aguardando o horário do cinema, quando infelizmente presenciamos a cena mais absurda e cruel que poderíamos presenciar em nossas vidas, o suicídio de uma pessoa.
    Desta vez de um Sr. que aparentava estar totalmente angustiado, transtornado.
    Ele simplesmente passou por nós, muito rápido e logo que chegou à área aberta deu um impulso e se jogou.
    Foi horrível!
    Infelizmente o Shopping possui uma área aberta próximo a praça de alimentação na qual não existe a menor proteção, nem o menor controle de quem entra ou sai de lá.
    Área de simples e fácil acesso.
    Será que teremos que assistir quantos corpos mais caírem desse lugar?
    Ninguém faz nada, nenhuma atitude é tomada.
    Silêncio total.
    Logo depois do ocorrido, parecia que nada havia acontecido, tudo continuava seguindo o seu ritmo normal.
    Algumas pessoas que estavam por perto e que trabalham ali olhavam para o corpo do Sr. estirado lá embaixo e comentavam entre si:
    _ Mais um...
    Outros simplesmente riam.
    O Problema é que nunca pensamos que pode acontecer com alguém que conhecemos ou até mesmo com alguém nosso.
    Não podemos nos calar assim como os funcionários e responsáveis pelo Shopping fazem.
    O que está acontecendo lá é simplesmente um descaso comigo, com você, com as nossas famílias e com a sociedade.
    Não vamos nos calar...
    Não podemos nos calar, pagamos por tudo ali, nada é de graça.
    Por tanto o mínimo que um Shopping do porte do Pátio Brasil pode nos oferecer é conforto e segurança, e isso já está mais do que notório que esse lugar não nos proporciona.
    Divulguem o ocorrido.
    Sr. Marcos conte com o nosso apoio.
    Ass.: Família Solidária

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  4. Pergunto: o anônimo que presenciou a cena no último dia 23/05 não fez nada para impedir que esse senhor fizesse isso num momento de surto, já que foi citado que ele estava transtornado? O anônimo prestou depoimento para a Polícia?
    O Pátio Brasil deveria ser fechado. Antes da reforma do Shopping, o local por muitos anos parecia um prédio fantasma no início da W3 Sul. O local possui muita energia negativa.Mas, na sociedade capitalista em que vivemos o fechamento de um centro comercial é impossível. O Jornal Correio Braziliense do dia 28/05 publicou uma matéria sobre o ocorrido. Denunciou que a obra da área externa do shopping estava embargada pela Administração de Brasília. Se a obra estava embargada, por que o Superintendente do Pátio Brasil,senhor Leonel Taffarel, não providenciou seguranças nas áreas de risco do shopping? Por que com tantos problemas na cidade a Administração de Brasília foi embargar uma obra de caráter tão urgente como essa? A denúncia,a exposição, a luta e a indignação do pai Marcos Dantas não serviu para nada?? Como assim?? Ele lutou para que isso não acontecsse com outra família e depois de 1 ano, o episódio trágico se repete.
    O senhor que fez isso com certeza não estava em seu estado normal, pois era uma pessoa alegre e muito amado por sua família e amigos. Se houvesse seguranças ou proteção no terraço da área de alimentação do Shopping Pátio Brasil, com certeza este senhor NÃO teria feito isso.
    Vc que está lendo esse comentário, fique atento aos seus parentes e amigos que possuam algum sinal, mesmo que mínimo de depressão. Não deixe essa pessoa sozinha em hipótese nenhuma. Encaminhe a pessoa para um tratamento sério o mais rápido possível.
    Este foi um pequeno desabafo de uma pessoa que está sofrendo demais com essa tragédia.

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  5. É fácil nos eximirmos de nossas culpas!
    É muito mais fácil (porem indigno, culpar os outros) jogar a responsabilidade "nas costas" dos outros.
    O que sabemos destes jovens que cometeram suicídio no Shopping?
    O que sabemos sobre suas aflições, dúvidas, medos e angústias?
    Provavelmente um ou outro fosse homossexual e vivia reprimido por sua família, seu pai, amigos e sem ajuda psicológica e o conhecimento dos pais, reconhecem como unica saída por um fim nessa agonia de qualquer jeito.
    Ou até mesmo um ou outro sem o conhecimento e apoio da família poderia estar passando por alguma desilusão ou por algum problema de cunho psicológico (stress, depressão ou essas td's, ....enfim.
    Como disse, eximir a nossa culpa e jogar no shopping, na administração do shopping é muito mais fácil. Como um outro comentário a cima repito, foi no shopping, como poderia ter sido da torre, de um prédio ou até mesmo do telhado de suas casas. Neste caso quem seriam os "culpados"?
    Pessoal é só um ponto de vista, não estou aqui pra apontar, acusar ou julgar ninguém.

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