segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Para ser potência olímpica precisa-se mais do que atletas

As olimpíadas de Pequim chegaram ao fim. E se torna exigível que se faça uma comparação entre o desempenho dos atletas do Brasil, o número de medalhas ganhas pelo país e, invariavelmente, os motivos para o considerável desastre nos jogos.

Ainda que restasse esperança de “muitas” medalhas, era de se esperar que, na posição geral, o Brasil não teria substancial alterações em comparação às outras edições dos Jogos Olímpicos.

No ano de 1996, na XXVI edição das Olimpíadas da era moderna, na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, o Brasil teve a sua melhor atuação de todos os tempos. Ganhou um total de 15 medalhas, com três ouros, três pratas e nove bronzes.

Em contrapartida, a grande decepção foi em Sydney, quatro anos depois. Naquela ocasião, o país não saiu do zero, sem nenhum pódio dourado. Foram seis pratas e seis bronzes, para um total de doze medalhas. Na penúltima edição, em 2004, em Atenas, na Grécia, berço antigo dos Jogos Olímpicos, o Brasil se superou nas aquisições de medalhas de ouro e cravou o maior número da história: foram cinco ouros, duas pratas e três bronzes. Este ano, em Pequim, o país voltou a ganhar 15 medalhas no total, mas caiu para apenas três ouros, contra quatro pratas e oito bronzes.

No frigir dos ovos, em doze anos e em quatro edições olímpicas, o Brasil patinou e não obteve qualquer evolução.

E qual seriam então os motivos para a estanque posição brasileira? Porque o nosso país não consegue evoluir, tanto quanto os países semelhantes em número de população e extensão territorial, como a China e Austrália?

A primeira resposta é que não é falta de dinheiro! Nesta edição dos Jogos, foram investidos cerca de R$ 650 milhões dos cofres do Estado brasileiro. E mesmo assim, não houve melhora no quadro geral de desempenho.

A segunda resposta é mais estrutural. Está bem claro que falta um projeto olímpico. Não há um planejamento estratégico, com objetivos, metas e índices de desempenho a atingir em quase nenhuma modalidade esportiva. Com exceções de algumas, como o voleibol e a ginástica.

Mesmo que se despeje o dobro do investimento de Pequim, o país não vai conseguir substanciais resultados no próximo encontro olímpico, em Londres ( 2012).

Mais do que projeto Olímpico, o Brasil necessita é de um investimento sócio-educativo arrojado. Um projeto de longo prazo, para 20 ou 30 anos e com resultados duradouros e dourados.

O melhor projeto está na educação. O nosso país precisa levar todas as suas crianças e adolescentes para dentro da sala de aula. E esta prestação social tem que ser dentro de um novo paradigma educacional: a integralidade das atividades.

O Brasil tem que criar a escola integral, em todos os círculos do ensino infantil, fundamental e médio. Nesse esquema de integralidade, num dos períodos, haveria a continuação das atividades pedagógicas tradicionais e no outro (matutino ou vespertino), a segunda jornada, agora com atividades de cultura, artes, lazer e esporte. Inclusive com pelo menos três refeições diárias para todos os estudantes.

Só a partir de decisões arrojadas e corajosas como esta é que se poderá vislumbrar uma potência olímpica. Não há outra maneira, senão a velha casadinha educação e esporte.

Com um projeto político voltado para a educação integral, se mataria vários e vários “coelhos” com uma cajadada só.

Inseriria as crianças e os jovens no seio escolar; diminuiria a possibilidade do surgimento de hordas de jovens marginais, que se explodem cotidianamente país a fora; aumentaria o nível cultural da população e de quebra a diferença de renda; diminuiria a violência urbana, aumentaria a qualificação dos profissionais, se construiria um cidadão mais capaz para os desafios de uma sociedade global, cada vez mais instruída e competitiva.

E os atletas, onde estariam inseridos neste contexto? Bem, os atletas seriam apenas conseqüências de um Estado organizado e voltado para o futuro de seus jovens.

E não precisa de exemplos mais clássicos do que a Coréia do Sul e Japão, países pequenos territorialmente, mas gigantes em desenvolvimento educacional, científico, social e por conseqüência, potência olímpica. Gente, é só copiar o modelo. Que nos ouçam políticos preocupados com a educação, como o Senador Cristóvão Buarque.