quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Briga política secular arrasou o país


O assassinato do imperador Jean-Jacques Dessalines (Jacques I), o primeiro mandatário do Haiti, em 1806, marcou o início de uma disputa política ferrenha e preconceituosa, que perdurou nos últimos duzentos anos de história do país, na briga pela alternância do poder। Foi o começo da derrocada da mais nova nação e que selou o destino miserável da maioria da população desfavorecida, com um efeito brutal nas pessoas mais frágeis.


Considerada umas das grandes responsáveis pela falência do Estado haitiano, a disputa reuniu, de um lado, a autocracia militar negra, herdeira de Dessalines, e de outro a elite mulata rica। Praticamente não há brancos na ilha, que foram dizimados durante os 13 anos de guerra de independência.


As disputas das minorias pelo poder resultou em conseqüências desastrosas para a população, obrigada a vivenciar quatro guerras civis, revoluções, invasões e anexações da República Dominicana, conspirações, atentados e dezenas de golpes de estado। Dos quarenta governantes, de 1806 até 1991, apenas quatro terminaram o mandato. Quatro foram assassinados ou executados e trinta e dois foram depostos.


Durante todos esses anos, os demais haitianos, cerca de 80%, ficaram à margem dos processos e decisões políticas। Somente em 1990, no primeiro escrutínio livre do país, é que a imensa população pobre, descendentes, como a elite, dos cerca de 500 mil escravos que se revoltaram contra a França de Napoleão, pôde participar do processo político. E claro, escolheram o homem que representava a esperança de um povo crucificado, não só pela ditadura dos Duvalier (1957 – 1986), mas pelas centenas de anos de marginalidade. Votaram maciçamente num populista, num padre que andava pelas favelas, a “voz dos sem-voz”: Jean-Bertrand Aristide. Com 67% dos votos, Aristide, seguidor da teologia da libertação, se tornou o primeiro chefe da nação não oriundo da elite mulata ou da autocracia militar negra.


As brigas políticas que sempre foram o problema da hora, fizeram com que os sucessivos governos negligenciassem os problemas sócio-econômicos do país।


O principal deles foi a progressiva queda das produções agrícolas, iniciadas desde a independência, com a matança dos colonos brancos e assunção de suas terras (latifúndios) pelos ex-escravos। As glebas divididas entre os “soldados”, passou do modelo exportador para o minifúndio de subsistência. A ilha, uma das mais prósperas das Américas, que no final do domínio francês (1801) produzia cerca de 9 mil toneladas de açúcar e 21 mil toneladas de café, passou, 25 anos depois (1826), para apenas 16 toneladas de ambos os produtos, progressivo à devastação ambiental.


A multidão de ex-escravos continuou sem perspectivas e o empobrecimento obrigou o êxodo para as cidades, também carentes da mínima infra-estrutura। O resultado foi a formação de bolsões citadinos ou rurais de miséria e uma massa de desempregados que só cresceu no decorrer das décadas.


Hoje, o Haiti possui cerca de 8,4 milhões de habitantes. Quase a metade deles são crianças ou adolescentes. E pelos números do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), não é difícil reconhecer que elas são as principais vítimas das disputas sedentas das minorias haitianas ao longo das décadas. (DM)

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