sábado, 20 de outubro de 2007

Tropa de Elite, um filme desmistificador e inconteste. Um tapa na cara de muita gente.



Em recente edição, a revista Veja trouxe à discussão os tabus quebrados pelo filme Tropa de Elite, do cineasta José Padilha.

O semanário foi de uma bravura sem tamanho ao expor, de forma contundente, o consumo de drogas da classe média brasileira, principal patrocinadora do tráfico no país, e a “proteção” levada a cabo por uma certa elite intelectual.

Veja foi além da cobertura factual para combater os muros do preconceito e a patrulha ideológica feita por colunistas, jornalistas e formadores de opinião que não medem esforços para combater a mera insinuação do verdadeiro papel dos viciados ricos.

Veja foi às vísceras das falsas imagens da esquerda romântica.
O filme de Padilha sem sombra de dúvida é o melhor de todos os tempos, realista, atual... é um verdadeiro tapa na cara de muita gente, que por incompetência, omissão e conivência deixou o bandidismo imperar e levar à barbárie a maioria das cidades brasileiras.

O filme e a revista desnudam os “críticos” de plantão que inocentam maconheiros e cheiradores de pó, disseminados na classe média e no meio artístico-jornalístico nacional, que se assombram quando a violência bate à porta e se enfileiram em caminhadas “brancas” para combater o tráfico, as armas e a violência. Pura hipocrisia!!

Fiquei muito feliz com filme ( já assisti duas vezes e por cópias piratas) e sinceramente satisfeito com o padrão de posicionamento jornalístico adotado Revista Veja.

Religião: mitos e realidade em um templo vodu no Haiti




Religião: mitos e realidade de uma ceriônia "vodu" no Haiti





Por Dinomar Miranda - (em visita ao Haiti -2006)

Ir ao Haiti e não conhecer um templo vodu dá ao visitante a sensação de uma viagem incompleta. 

Conhecer o vodu, seus mitos, crenças, história e, claro, assistir a um ritual no terreiro é uma experiência fantástica. 

O templo que nos recebeu fica em Tabarre, na região metropolitana de Porto Príncipe. 

Uma área pobre, mas em melhores condições do que outros bairros capital.


O nosso contato com a sacerdotisa Immacula, um Mambo (nome dado à celebrante feminina), foi muito cordial. 

Ela fez exigências. A primeira delas foi que nós nos dirigíssemos ao seu terreiro para “negociar”. Os espíritos assim solicitavam, porque são superiores e nós deveríamos ir até eles. 

Ela fez alguns pedidos para ajudar na celebração. Immacula pediu bebidas (rum ou cerveja), cigarros e alimentos para distribuir aos fiéis. 

E, claro, uma quantia em dólar para pagar os “custos”.

No início da tarde do domingo, dia do ritual, fomos ao santuário levar o acordado. Para surpresa, encontramos Mami (nome carinhoso dado à mestre vodu) acamada, no meio do terreiro.


Ela balbuciou algo em creole, o idioma local, com uma feição de dor e desconforto. 

Então, o intérprete informou que ela estava com muita febre e dor de cabeça, conseqüência de mais uma malária.

Fiquei preocupado e ofereci ajuda. Ela pediu alguma medicação que diminuísse os incômodos, mas logo tratou de dizer que o ritual seria realizado. 

No final da tarde, perto das 5h, chegamos ao templo para a cerimônia e o encontramos todo enfeitado e colorido. 

O que chamou a atenção foi a quantidade de crianças próxima ao terreiro. Fiquei me perguntando se todas elas participariam do ritual.

Fomos recebidos por um Hounsis (ajudante do sacerdote), um senhor de meia-idade, que nos convidou para sentar num altar especial, rústico é verdade, mas um local de destaque.

Nas paredes, multicoloridas, vários desenhos de deuses, loas e figuras sincréticas parecidas com os santos católicos. 

São Jorge estava ali representado, podia se ver, mas o bicho sob sua lança não era um dragão.

E começaram os batuques dos tambores! 

O Hounsis e outros ajudantes começaram a ornamentar o chão com alguns símbolos vodus, em representação ao espírito invocado. 

A noite caiu rapidamente.

A atmosfera de uma senzala apareceu como um encanto. 

O negrume, apenas cortado pelos riscos de uma vela; o cheiro de suor e do rum; e as batidas secas dos tambores transcendiam a um tempo remoto e ancestral.


A cerimonia de ornamentação dos símbolos perdurou por quase 40 minutos. E a Mami? Como estava? Estaria em condições de presidir a celebração?


O terreiro, com o passar do tempo, logo se encheu, principalmente de crianças e adolescentes. 

As garrafas de rum eram passadas de mão em mão, num ritual que eu não pude identificar se fazia mesmo parte da cerimônia ou se era uma bebedeira deliberada.

A sarcedotiza apareceu cercada de fiéis, num longo vestido colorido, com a predominância do verde. Sua aparência ainda era de uma pessoa frágil e abatida pela malária. 

Veio ao nosso encontro e depois de dar-me um beijo no rosto, perguntou, em creole, para quem o “trabalho” seria oferecido.

Agradecido, respondi apenas que só desejaria assistir e tirar fotos. Ela se sentou e o homem que conduzia o ritual trouxe consigo, de um pequeno quarto, alguns objetos “sagrados”.


Dentre eles, um facão, que foi enrolado num lenço vermelho. Então, o Hounsis começou a desferir punhaladas com o facão, sem causar ferimentos, nas barrigas de suas ajudantes (todas mulheres).

No centro do terreiro, havia também uma pilastra de cimento, colorida e desenhada com uma serpente. 

O altar era o local sagrado onde estavam sendo depositadas as oferendas para a loa Ezuli Freda, o espírito que incorpora em Mami Immacula, a mestre vodu de Tabarre. 

E, segundo um dos Hounsis, o espírito representa o bem ou o mal, dependendo das circunstâncias.

Mami, que passou boa parte do tempo sentada, estava ali quase inerte, a espera de Ezuli Freda, que a qualquer momento poderia baixar, chamada e aclamada pelas danças, palmas, cânticos e tambores.

Mas o tempo não colaborou. Já passava das 19h e a noite do Haiti é traiçoeira. Por questão de segurança, fomos obrigados a deixar o Piè restile (o templo) antes de Eluzi Freda marcar presença. 

Eles, os fiéis e os sarcedostes, ficariam ali pela madrugada, no frenesi dos batuques e do êxtase.


Depois de despedir-me de Mami Immacula, um dos seus ajudantes contou-me de um ritual inacreditável que os voduistas realizam. A celebração é chamada de Bizango. 

Trata-se de um ritual canibal, feito uma vez por ano, numa quarta-feira de dezembro, por alguns mestres de vodu. 

Ela se assemelha a uma passeata, à meia-noite, pelas ruas da cidade. Vestidos de vermelho e preto e comandando zumbis, os celebrantes matam e comem os humanos quem vão encontrando pelo caminho.

O vodu é mágico. O difícil dessa religião primitiva é separar os mitos da realidade.




Vodu: os espíritos são como santos católicos



Por Dinomar Miranda ( Em visita ao Haiti - 2006) 

No Haiti há um ditado: 70% são católicos, 30% protestantes e 100% vodus. Parece exagero, mas o vodu rege a vida do povo haitiano. 

A manifestação religiosa, nascida há séculos na África, acompanhou os escravos aprisionados pelos europeus e desembarcou junto com a esperança de uma vida em liberdade. 

O vodu sobreviveu às perseguições dos colonos, se “casou” com as manifestações católicas, num sincretismo semelhante ao do Brasil, e se tornou o esteio cultural da nação haitiana.

O termo “vodun”, ramo de uma tradição religiosa teísta-animista, significa "deus" ou "espírito" na língua dos Fons. 

As divindades adoradas são um grande número de espíritos, chamados de Loas, que podem ser aparentados aos santos católicos, aos ancestrais deificados ou aos deuses africanos.

Suas raízes remotam aos povos da África Ocidental. 

O vodu haitiano é popular e sincrético, que incorporou os aspectos do ritual católico-romano, impostos pelos colonos franceses, somados com os elementos religiosos e mágicos africanos das etnias Fon-Ewe, Ibo (África Central) e o Yoruba.

 Acredita-se que há um Deus que é o criador de tudo, chamado de "Bondje" (do francês "bon Dieu"). Bondje é distante de sua criação e, por isso, é o voduista que invoca os espíritos para ajudá-lo.

O crente vodu adora o deus, mas serve aos espíritos (Loas), que são tratados com honra e respeito como se fossem membros mais velhos de uma casa. 

Estima-se que são vinte e uma as nações (nanchons) dos espíritos, divididos, de acordo com sua natureza, basicamente em duas categorias: quentes ou frios. 

Os espíritos frios entram sob a categoria Rada, e os espíritos quentes entram sob a categoria Petro.

Os espíritos de Rada são familiares e vêm na maior parte da África; e os espíritos de Petro são na maior parte nativos do Haiti e requerem mais atenção ao detalhe do que o Rada - ambos podem ser perigosos se irritados ou contrariados. 

Nenhum é "bom" ou "mau" em relação ao outro. 

Diz-se que todos possuem espíritos, e cada pessoa é considerada como tendo um relacionamento especial com um espírito particular, que é dito "possuir sua cabeça".

As Loas se comunicam com os fiéis por meio de sonhos ou deles tomam posse durante os rituais. A presença deles é revelada por um estado de transe, numa dança característica da religião.

MEMBROS 

No Vodu haitiano não há um “Papa”, uma hierarquia como na Igreja Católica. 

Há um clero, cuja responsabilidade é preservar os rituais, as canções e manter o relacionamento entre os espíritos e a comunidade como um todo (embora isto seja responsabilidade de toda a comunidade também). 

O santuário é presidido por mestre celebrante masculino, o Hougan (chamado carinhosamente de Papi), ou por uma mestre, o Mambo (Mami).

Esses sacerdotes agem como conselheiros, curandeiros e protetores. Na maioria das vezes eles também são uma espécie de líderes comunitários, uma figura respeitada entre os indivíduos. 

Abaixo dos Houngans e das Mambos estão os Hounsis, que são os noviços que atuam como assistentes durante cerimônias e que são dedicados a seus próprios mistérios pessoais.

Os rituais, com seus cantos, toques de tambores, danças, preces, preparo de alimentos e o sacrifício de animais (e, às vezes, de pessoas), ainda mantém certos traços de seus ancestrais de senzalas ou dos reinos africanos. 

Curiosidades sobre zumbis e bonecas vodus


Por Dinomar Miranda 


O cinema hollywoodiano imortalizou nos filmes de terror a figura dos zumbis como espécies de mortos que foram ressuscitados por espíritos malignos, para perseguição aos humanos. 

Parte dessa lenda bebeu do voduismo norte-americano, praticado no sul daquele país, principalmente em Nova Orleans, na comunidade negra. 

Mas na tradição do voduismo haitiano, o zumbi é um ser humano a quem um sacerdote lhe roubou a alma. Este roubo é feito mediante técnicas de magia negra, quando a pessoa está morrendo e imediatamente depois de morrer.


A alma é conservada em uma garrafa pelo ladrão, que a partir desse momento tem o controle absoluto do corpo da pessoa morta. 

Esta carece de pensamento e controle autônomo, de modo que pode ser manejada como um escravo por parte do sacerdote, num estado de transe cataléptico, como uma espécie de ‘morto vivo’. 

Com o passar do tempo, o zumbi vai deteriorando-se, como se aprodecesse, e finalmente seu corpo acaba por morrer também.


Mas não foi isso o que descobriu Wade Davis, um pesquisador norte-americano e etnobotânico que publicou um livro intitulado “A Serpente e o Arco-Íris” (Zumbis, vodu, magia negra). 

Segundo ele, os sacerdotes do vodu seriam capazes de induzir um estado cataléptico (transe) em suas vítimas, um transe tão convincente, que parecem autenticamente mortas, e assim são declaradas e sepultadas. Posteriormente seriam retiradas de suas tumbas e, mediante uma cuidadosa combinação de drogas, seriam mantidas em um estado catatônico. 

Wade Davis, que fez várias pesquisas no Haiti, descobriu que o estado de transe era resultado do uso de drogas.


Davis afirma ter descoberto exatamente a fórmula usada pelos sacerdotes para converter uma pessoa em zumbi.

 As ervas, usadas por um perito, efetivamente reduziria a vítima a um estado catatônico comparável com o de morte. E constatou também que, quando o feiticeiro profanava a tumba do "morto" depois do sepultamento, dava outra porção à vítima para tirá-la de sua catatonia, embora a pessoa jamais voltasse a ser a mesma.


Ela ficaria então reduzida ao nível mental de uma pessoa a quem se extirpou parte do cérebro. Este último aspecto seria devido à privação de oxigênio que sofreria o cérebro, conseqüência do ambiente fechado do ataúde em que foi colocado “morto”. 

Para Wade Davis, a formula secreta tinha como ingredientes, além de narcóticos diversos, tetradotoxina, veneno neurotóxico que se encontra em baiacus e em rãs venenosas.


Entretanto é necessário afirmar que os zumbis são um fenômeno menor dentro da cultura rural do Haiti e não uma parte da religião Vodu em si.


BONECAS - Já a prática de furar "bonecas vodu" com agulhas foi usada como um método de amaldiçoar um indivíduo, por alguns seguidores do que veio a ser chamado "Nova Orleans Voodoo". 

O ritual não é original do "vodu" de Nova Orleans, mas tem suas bases em dispositivos mágicos europeus baseados tais como a "poppet", quanto o nkisi ou o bócio da África ocidental e central.


As bonecas de "vodu" não são uma característica da religião haitiana, embora as bonecas feitas para turistas possam ser encontradas em Porto Príncipe. 

A prática tornou-se associada ao Vodu novamente através dos filmes amerianos. (D.M.)

Líder religiosa prepara a celebração


Animais simbolizam deuses vodus


Religião vodu é substituída pela católica

Nas seqüências de brigas e de disputas pelo poder, a Igreja Católica começou a tomar lugar no Estado. Na Constituição de 1811, ela foi reconhecida como religião oficial. Cada vez mais, a pequena elite sedenta marginalizava a religião do povo. Mas também, ao longo do século XIX, foram constantes os embates entre essa mesma elite e o Vaticano, a tal ponto que, em uma lei de 1820, o presidente Henry Chistophe (1807-1820) determinou que apenas com sua autorização os padres poderiam batizar, casar ou enterrar os mortos.

O vodu teve um pequeno crescimento de influência com a presidência de Faustin Soulouque (1847-1859). Maso Papa Pio IX e o novo presidente Fabre Geffrard (1859-1867), com o intuito de erradicar essa guinada vodu, chegaram a um acordo e assinaram a Concordata de 1860, que designava a Igreja Católica Apostólica Romana a gozar de privilégios especiais. Porto Príncipe, capital do país, tornou-se sede do arcebispado. O prazo do “contrato” era de 100 anos, com expiração apenas em 1960.

Por todos esses anos, o vodu foi estigmatizado e perseguido, mas continuou sendo a espinha dorsal da cultura haitiana e a religião da massa.

REVIRAVOLTA - A família Duvalier (François e Jean-Claude) sobem ao poder em 1957 e passam 30 anos como mandatários da nação. François Duvalier (Papa Doc), um dos ditadores mais brutais das Américas, defensor ardoroso do voduismo, torna-se desafeto do clero nacional e do Vaticano. Nos vários embates, Papa Doc expulsa padres, invade igrejas com seus paramilitares (tontons macoutes) e prende fiéis. A crise com a Igreja culmina com a expulsão do Arcebispo (Monsenhor Poirier). Duvalier profana igrejas com rituais vodus e recebe a excomunhão do Vaticano.

Foi nesse período que os ditadores, praticantes do vodu, fizeram, com seus exageros, que a religião adquirisse uma má reputação internacional. A Igreja e Papa Doc voltaram à mesa. Duvalier demonstrou disposição de reconciliar, fez concessões ao vaticano e conseguiu anular a bula de sua excomunhão. Entretanto, a Concordata de 1966 não foi renovada.

Com a queda de Jean-Claude Duvalier (Baby Doc), em 1986, a Igreja volta a ter influência em Porto Príncipe. Mas a surpresa saiu de casa. Em 1986, sobe à presidência, eleito pelas massas pobres do país, o padre das favelas, Jean-Bertrand Aristide. A oposição ferrenha do clero às posições do padre popular, seguidor da teologia da libertação, acabou por expulsar Aristide do sacerdócio, por ter se “envolvido” com assuntos políticos. A Igreja novamente perde o apoio de um presidente da República.

Aristide foi deposto por um golpe militar em 1991. Na sua volta ao poder, três anos depois, pelas mãos dos americanos, ele dá um grande presente ao povo haitiano. Em abril de 2003, o vodu é oficializado no Haiti com o mesmo status de outras religiões praticadas no país. A decisão tomada pelo padre significou que cerimônias do ritual vodu, como casamentos, teriam o mesmo valor das católicas. "Sempre fomos a maioria no Haiti e nunca foi ilegal a prática do vodu". "O que o presidente Aristide fez por nós, e somos muito gratos, foi tornar mais fácil a obtenção do status necessário para que as cerimônias religiosas tenham valor legal", disse à época, Mambu Racine Sumbu, uma americana, sacerdotisa do vodu, em entrevista à BBC.

E o vodu, legalmente, voltou a caminhar junto dos haitianos. (D.M.)

Tambor chama os deuses


Todo mundo no terreiro, velhos, adultos e crianças





Cerimônia vodu estimulou a rebelião da independência

Foi numa cerimônia vodu, em 1791, que o negro Bookman pronunciou as palavras eloqüentes de liberdade e fez os escravos, ali reunidos, jurarem fidelidade, desencadeando a maior insurreição negra do mundo e o início da independência do Haiti dos domínios franceses. A guerra durou 13 anos e foi um marco na histórica rebeldia haitiana.

Mas o vodu já era uma teia de ligação entre os escravos muito antes da guerra de independência. Na África, os negros capturados eram transformados em mercadoria vulgar do comercio internacional, separados propositadamente de suas famílias, dos dialetos, de suas etnias e despojados até mesmo do próprio nome.

Agarraram-se, então, à única coisa sobre a qual os brancos não tinham nenhum poder: as crenças, herdadas das mitologias ancestrais africanas.
ORIGEM - O vodu nasceu no oeste da África, num reino chamado Daomé, atual região de Benin. Nas novas terras não perdeu suas raízes e, apesar das múltiplas crenças escravas, sobreviveu. Foi perseguido, camuflou-se, usou os santos católicos num sincretismo semelhante ao do Brasil e se tornou homogêneo.

Os escravos encontraram uma ilha dominada por franceses, que desconfiados dessa manifestação “bizarra”, não perderam tempo em estigmatizá-la. Mas o vodu teve seus aliados. Naqueles anos, estavam em voga as idéias do iluminismo, a era da razão. Foi um período de influência acanhada da Igreja Católica na ilha caribenha. E foram nas altas montanhas da colônia, refugiados da opressão, que eles conseguiram manifestar-se livremente e fomentar o ímpeto rebelde.

Depois da independência, a religião libertadora passou a ser o esteio cultural do país. Uma das únicas, talvez, não tolidas pelos colonizadores. Entretanto, já na primeira Constituição da nova nação, promulgada em 1805, pelo imperador Jean-Jacque Dessalines, não se privilegiou o vodu. Essa Carta também não reconheceu a preponderância de qualquer outra religião. O casamento, por exemplo, era apenas um contrato civil. (D.M.)

Simplicidade do negro exposta em arte Naif


Arte Naif e sua função de aproximar dois povos


Simplicidade e voduísmo inspiram Arte Naïf

Uma das principais manifestações artísticas haitianas é a Arte Naïf, que desde a liberalização da crença vodu no país, no início de 1940, começou a crescer e a ganhar força e espaço.

Naïf é definida como uma arte primitiva moderna, produzida, geralmente, por artistas sem uma preparação acadêmica. É caracterizada pela simplicidade e pela falta de elementos ou qualidades presentes nas artes produzidas por artistas com formação. As telas Naïf têm pinceladas de cores fortes e tropicais e falam de temas comuns, como a natureza, e no Haiti, principalmente, expresam e servem de anteparo ao voduismo.

Segundo Albert Mangonès, um estudioso das artes, os primeiros pintores haitianos foram escolhidos pelos hugan (sarcedotes do vodu), graças ao seu talento, para servir às Loas (espiritos). "Os artistas executavam o que os hugan lhe pediam, num domínio em que apenas a decoração simbólica era necessária, enriquecendo assim a bela tradição das formas abstratas e coloridas sobre os elementos vodus".

O que serviu de meio de expressão de uma religião cassada e perseguida pela elite, mas a serviço e incrustada no seio cultural do "povão". Mesmo assim, para Michel-Philipe Lerebours, pesquisador da história da arte do Haiti, muitos artistas haitianos propuseram um vodu de fachada. Produziram uma arte que não os comprometesse mais do que as pretensas cerimônias propostas aos turistas.Ainda segundo ele, certos artistas se calaram sem jamais mostrar a verdadeira face do vodu, preferindo contar os mitos e as lendas (zumbis e sereias), naturezas mortas com crânios humanos e diversos outros acessórios cabalísticos.

Outros se limitavam apenas às danças, tratamentos, invocações e curas, ou seja, tudo o que podia ser trazido à vista do público.Mas a arte Naïf aparece também com uma outra função muito peculiar. Tende a aproximar dois povos: brasileiros e haitianos.

Os dois países, relativamente distantes geograficamente, possuem diversas semelhanças culturais, étnicas e sociais, herdadas desde o tempo da colonização e do sistema escravagista. Essa proximidade cultural é bem nítida nas telas Naïf desenvolvidas em ambos os países, principlamente com a fluência de elementos afros e do sincretismo religioso.

Para Lucien Finkelstein, presidente-fundador do Museu Internacional de Arte Naïf, diferentemente do Haiti, que há muito ocupa um lugar de destaque no mundo com arte Naïf, o Brasil tem crescido no cenário internacional. "Essa osmose cultural é provável que tenha um ancestral comum, mesmo que desenvolvida com total desconhecimento uma da outra.

Porém, o surpreendente é descobrir na pintura Naïf dos dois países o mesmo prazer, a mesma alegria de pintar pelos seus artistas, com sua ingenuidade, simplicidade e franqueza absoluta". Gerson, Elza O.S e Lia Mittarakis são alguns artistas Naïf de porte no crescente espaço brasileiro.

Mas os grandes nomes da pintura, mundialmente conhecidos, são haitianos, como Hector Hippolite, Pierre-Joseph e Préfète Duffat. Foi Hector Hippolite, segundo Michel-Philipe Lerebours, o grande nome haitiano, que, com suas pinturas, mergulhou profundamente nas raízes do vodu, ousou pela primeira vez materializar as Loas (1946) diante dos questionamentos preconceituosos e dos simulacros das elites tradicionais. (DM)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Briga política secular arrasou o país


O assassinato do imperador Jean-Jacques Dessalines (Jacques I), o primeiro mandatário do Haiti, em 1806, marcou o início de uma disputa política ferrenha e preconceituosa, que perdurou nos últimos duzentos anos de história do país, na briga pela alternância do poder। Foi o começo da derrocada da mais nova nação e que selou o destino miserável da maioria da população desfavorecida, com um efeito brutal nas pessoas mais frágeis.


Considerada umas das grandes responsáveis pela falência do Estado haitiano, a disputa reuniu, de um lado, a autocracia militar negra, herdeira de Dessalines, e de outro a elite mulata rica। Praticamente não há brancos na ilha, que foram dizimados durante os 13 anos de guerra de independência.


As disputas das minorias pelo poder resultou em conseqüências desastrosas para a população, obrigada a vivenciar quatro guerras civis, revoluções, invasões e anexações da República Dominicana, conspirações, atentados e dezenas de golpes de estado। Dos quarenta governantes, de 1806 até 1991, apenas quatro terminaram o mandato. Quatro foram assassinados ou executados e trinta e dois foram depostos.


Durante todos esses anos, os demais haitianos, cerca de 80%, ficaram à margem dos processos e decisões políticas। Somente em 1990, no primeiro escrutínio livre do país, é que a imensa população pobre, descendentes, como a elite, dos cerca de 500 mil escravos que se revoltaram contra a França de Napoleão, pôde participar do processo político. E claro, escolheram o homem que representava a esperança de um povo crucificado, não só pela ditadura dos Duvalier (1957 – 1986), mas pelas centenas de anos de marginalidade. Votaram maciçamente num populista, num padre que andava pelas favelas, a “voz dos sem-voz”: Jean-Bertrand Aristide. Com 67% dos votos, Aristide, seguidor da teologia da libertação, se tornou o primeiro chefe da nação não oriundo da elite mulata ou da autocracia militar negra.


As brigas políticas que sempre foram o problema da hora, fizeram com que os sucessivos governos negligenciassem os problemas sócio-econômicos do país।


O principal deles foi a progressiva queda das produções agrícolas, iniciadas desde a independência, com a matança dos colonos brancos e assunção de suas terras (latifúndios) pelos ex-escravos। As glebas divididas entre os “soldados”, passou do modelo exportador para o minifúndio de subsistência. A ilha, uma das mais prósperas das Américas, que no final do domínio francês (1801) produzia cerca de 9 mil toneladas de açúcar e 21 mil toneladas de café, passou, 25 anos depois (1826), para apenas 16 toneladas de ambos os produtos, progressivo à devastação ambiental.


A multidão de ex-escravos continuou sem perspectivas e o empobrecimento obrigou o êxodo para as cidades, também carentes da mínima infra-estrutura। O resultado foi a formação de bolsões citadinos ou rurais de miséria e uma massa de desempregados que só cresceu no decorrer das décadas.


Hoje, o Haiti possui cerca de 8,4 milhões de habitantes. Quase a metade deles são crianças ou adolescentes. E pelos números do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), não é difícil reconhecer que elas são as principais vítimas das disputas sedentas das minorias haitianas ao longo das décadas. (DM)

A assombrosa situação das crianças


As crianças nascidas no Haiti têm maiores probabilidades de morrer durante a primeira infância do que em qualquer outro país do hemisfério Ocidental। A projeção consta no relatório “A infância em perigo”, lançado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). “Há poucos lugares no mundo onde é mais difícil ter uma infância saudável do que no Haiti,” constata o representante do Unicef no país caribenho, Adriano González-Regueral.

Para milhares de meninos e meninas haitianos, a vida é uma dura luta diária। Nas zonas rurais, eles não têm sequer acesso aos serviços minimamente básicos, sendo muitas vezes obrigados a caminhar durante horas para chegar a um centro de saúde ou a uma fonte de água। Nas cidades, sem luz e água tratada, a violência e os maus-tratos as tornam reféns de um ciclo do qual é quase impossível libertarem-se. Uma pesquisa independente e recente, coordenada por Royce Hutson, e divulgada pelas agências de notícias internacionais, afirma que cerca de 32 mil mulheres e crianças foram estupradas em Porto Príncipe, capital, em pouco menos de dois anos. A vítima mais nova tinha seis anos de idade, mostrou uma análise dos 22 meses seguintes à queda do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, em fevereiro de 2004. Um em cada quatro estupros foi perpetrado por forças de segurança ou grupos políticos armados.

Os problemas são muitos e as soluções nem sempre chegam na velocidade desejada। Embora a educação seja o caminho para uma vida melhor, muitas famílias não têm possibilidade de enviar os filhos à escola porque o custo é muito elevado. No Haiti não há educação pública gratuita. Apenas 55% delas em idade escolar freqüentam o ensino primário. Em média, o tempo em que permanecem em sala de aula não ultrapassa os dois anos. Um terço dos jovens com idades entre os 15 e 24 anos são analfabetos.

Há milhares de crianças nas ruas। Muitas delas são forçadas a engrossar as fileiras das gangues ou ainda se tornarem membros da subcultura dos “restavek”, que vivem em condições de autêntica servidão doméstica. Estima-se que 300 mil crianças trabalham como domésticas sem qualquer tipo de salário.Royce Hutson disse que os resultados são "chocantes" e indicam que abusos de direitos humanos continuam sendo comuns e sistemáticos no Haiti, apesar dos esforços internacionais de acalmar a situação.

A maior moléstia do século também vitima। Segundo o Unicef, a aids teve um efeito devastador em crianças e jovens do Haiti. Mais de 200 mil crianças haitianas perderam um ou ambos os pais em virtude da doença. A Care, uma instituição sem fins lucrativos que atua em 72 países pobres, diz que este país caribenho tem a maior incidência de aids fora da África. Desde o advento da epidemia nos anos 80, cerca de 300 mil haitianos morreram de aids e mais do que 300 mil vivem com o vírus atualmente. Em 2001, foram mais que 30 mil mortos haitianos em decorrência do HIV/aids, que é cerca de duas vezes o número dos Estados Unidos, um país com 40 vezes mais pessoas.

Mas o pior dos males que assombra o país é a desnutrição। Aproximadamente quatro milhões de pessoas passam fome no Haiti, quase a metade da população, 47%, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Os dados foram divulgados no último dia 31 Outubro. As crianças, claro, novamente são as principais vítimas. 23% delas são menores de cinco anos, não têm o que comer e sofrem com a desnutrição crônica. (DM) * Com trechos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)