terça-feira, 17 de julho de 2007

Exército confirma 1° militar contaminado por HIV no Haiti

O Exército confirmou, ao Estadão, o primeiro caso de um militar brasileiro que retornou da missão de paz das Nações Unidas no Haiti contaminado por HIV, o vírus que causa a Aids. O assunto vem sendo tratado com muita reserva dentro das Forças Armadas.

Trata-se de um oficial, um capitão-médico, que se encontra atualmente realizando exames que irão avaliar sua permanência no Exército, podendo ir para a reserva ou ser reformado. O Haiti é o país mais pobre das Américas e o com maior número de aidéticos fora da África, segundo a ONU: cerca de 6% da população está infectada com HIV ou tem Aids.

O diagnóstico foi dado pela Divisão de Missão de Paz do Comando de Operações Terrestres (Coter), em Brasília, em um período de quatro dias em que o militar ficou isolado após o retorno da missão no Haiti, em 19 de junho. Nesta fase, denominada pelo Exército como "desmobilização", realizam-se exames de saúde, psicológicos e se prepara a reinserção dos militares na sociedade brasileira.

Não foi divulgado em que circunstâncias a doença foi contraída.
Alguns militares acreditam que ele possa ter contraído a doença durante o trabalho, ao fazer alguma cirurgia ou ao ter contato com haitianos sem utilizar luvas ou utensílios necessários.

Durante os seis meses em que o militar atua na missão de paz, normalmente há total abstinência sexual. O relacionamento íntimo com haitianas é expressamente proibido pelo alto comando da ONU. Brasil também não aconselha esse tipo de contato.

Em um país de 8,5 milhões de habitantes, cerca de 280 mil pessoas possuem HIV. ONGs internacionais estimam que entre 5% e 7% da população esteja infectada - em 1993, o número chegou a quase 10%. A Aids é a principal causa de mortes no Caribe entre pessoas de 15 e 44 anos, segundo a Unaids, agência das Nações Unidas de combate à doença.

Desde que a epidemia começou, nos anos 80, mais de 160 mil crianças ficaram órfãs e cerca de 300 mil haitianos morreram de Aids. Apenas em 2006, cerca de 27 mil pessoas contraíram HIV no Caribe. No entanto, de acordo com a Unaids, o número vem decrescendo no Haiti e tem se mantido estável na República Dominicana devido aos trabalhos de agências para educação sexual e distribuição de preservativos.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Haiti: as crianças perdidas de Cité Soleil


Passava das 8h da manhã quando chegamos ao Porto de Waff, bem na periferia de Cité Soleil, a maior e mais violenta favela do Haiti. Dirigimo-nos, através de uns becos e vielas, para o local de uma peixaria comunitária, um dos primeiros projetos sociais da localidade.


Ao longe, coisa de dois quarteirões, podia se ouvir as rajadas de 5,56 mm, calibre das gangues que brigam pelo controle da favela. Depois de uns cinco minutos de uma tensa caminhada, chegamos ao “ancoradouro”. Se Cité Soleil tem todos os adjetivos de uma favela de “quinto mundo”, imagine aquele lugar.


É característica do ser humano se acostumar, se adaptar facilmente aos lugares. E depois de seis meses de Haiti, muita coisa, infelizmente, já parece familiar. Mas aquele espaço, coisa de 500 metros quadrados, cercado por um amontoado de barracos, irrigado por um fétido correr de esgoto, extrapolava toda e qualquer coisa semelhante a um ambiente humano.


O sol forte e o calor, com o cheiro da lama e do lixo, que ornamentava toda a orla, compunha aquela atmosfera pesada. E, misturado aos muitos porcos, estava um punhado de seres humanos sobreviventes de um tragédia social. Do que sobrevivem, isso eu não sei! Não há empregos, áreas de plantação, comércio.


Talvez do mirrado pescado. E entre os adultos, muitas crianças, dezenas delas. A maioria nua ou enfiada em trapos de roupas. Como não se impressionar, não se comover, com a mais indígna vida social de um grupo. Como em qualquer lugar do mundo, os pequeninos logo se aproximam, curiosos com a magia da máquina fotográfica. Três logo se destacam do grupo, tão díspares as suas personalidades e comportamentos.


A primeira delas chama a atenção por sua meiguice e afeto. É uma garotinha de 4 ou 5 anos. Foi uma das primeiras a ser fotografada e a se ver na tela da câmera. A nossa comunicação era por gestos. Ela às vezes dizia algo em creole, inutilmente. Agarrou-se na barra da minha blusa e não mais soltou, nos 30 minutos que passamos em seu habitat.


Como se apegam facilmente e por tão pouco. Parecia agradecida, pelos segundos mágicos proporcionados pela tecnologia.
Cheguei a oferecer-lhe uma caneta BIC de presente, mas foi logo devolvida. Talvez desconhecesse a finalidade do “brinquedo”.


O segundo personagem tinha dois, no máximo três anos. Seu semblante sério, pesado, logo revelaria seu jeito criança, moldado pelo ambiente hostil, violento e insalubre. O tempo todo portava um pequeno objeto de plástico, que manejava como se fosse um revólver. Em todas as fotos, as poses eram como se apontasse a sua arma. E nas suas rápidas escapadas, parecia se duelar com um inimigo imaginável. O que será dele daqui a oito ou dez anos?


E num canto, bem afastado daquele circo, uma pequena lavadeira. Embrenhada, até os joelhos, na maré de lama, com o amarelo de seu vestido se misturando ao multicolorido do lixo. Esfregava, pacientemente, sua peça de roupa, como se estivesse no mais límpido dos rios, atarefada, não nos afazeres de uma criança, mas de uma dona-de-casa. Próximo, uma bacia verde indicava que havia muito mais a lavar do que roupas.


Os insistentes cliques de máquina fotográfica talvez tenham mexido com seus brios e com a sua dignidade. Ela logo se afugentou. Mas as lentes foram mais rápidas e conseguiram eternizar alguns momentos de sua insalubre labuta diária e a piedosa vida das “crianças perdidas” de Cité Soleil.

domingo, 15 de julho de 2007

Haiti: Porto Príncipe, uma capital em agonia


Porto Príncipe é uma das capitais mais miseráveis do mundo. Densamente povoada, tem cerca de 2,5 milhões de habitantes. Cresceu assustadoramente com o decorrer das sucessivas crises políticas e com o negligenciamento da estrutura econômica do país, principalmente a agrária.

O colapso da agricultura, em queda desde a independência, e a devastação ambiental, obrigaram a um êxodo rural volumoso. A população, 72% essencialmente rural até meados do século 20, mudou de perfil rapidamente.

Carente da infra-estrutura básica, ela começou a inchar e a formar bolsões de miséria. A maioria dos habitantes vive em favelas ou guetos, na mais absoluta pobreza. Os serviços básicos, como energia elétrica, água, esgoto e coleta de lixo praticamente não existem.
O trânsito, sem semáforos e com o emaranhado de carros velhos e batidos, é um dos mais congestionados do mundo, num verdadeiro caos urbano.

O fornecimento de energia é racionado. O país tem apenas uma hidrelétrica, incapaz de suprir uma parcela mínima da população, que se socorre ao carvão vegetal e acelera mais ainda a extinção da cobertura verde, já quase inexistente.

A maioria dos bairros de Porto Príncipe tem energia elétrica apenas uma ou duas vezes por semana. Os poucos que podem, têm gerador a diesel. Um drama para os milhões de habitantes, desprovidos das facilidades diárias do século 21, como geladeiras, ferro de passar (o ferro ainda é à brasa!), televisores e demais objetos.

Além da fome que abate um percentual altíssimo, a violência urbana aterroriza a capital. Somados aos crimes comuns de uma grande metrópole pobre, os grupos armados criaram verdadeiros feudos particulares nos bairros.

Eles surgiram, em favelas como Cité Soleil, depois da reassunção do governo pelo ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, em 1994.

Desde então, imperou a lei do crime. Estupros, seqüestros, tráfico de drogas, assassinatos e chacinas se tornaram uma rotina. Uma violência bárbara que vitima principalmente as pessoas mais frágeis, como mulheres e crianças. A expectativa de vida neste país não chega aos 50 anos.

Desde a intervenção das Nações Unidas em 2004, com tropas militares e ajuda humanitária, que o nível de barbárie tem diminuído. Bairros como Bel Air, um favelão no centro da capital, em contraste com o belíssimo Palácio Presidencial, foi pacificado, teve melhora sensível e vive sem o terror das gangues.

Outros, como Cité Soleil, ainda apresentam constantes confrontos com as forças da ONU. Com um nível de segurança precário, os grupos e entidades humanitárias têm dificuldades em assistir às milhares de pessoas, que minguam com menos de um dólar por dia.

Sobre o Autor

Dinomar Miranda é jornalista, brasiliense, mas reside no Recife há 11 anos. Formado pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), começou cedo na área da comunicação social, aos 15 anos, quando se tornou locutor de uma rádio FM, no interior de Goiás. Desde então, apaixonou-se pelo jornalismo.

Em 2001, ainda como estagiário da TV Jornal/SBT Recife, fez um curso de vídeo-repórter, em São Paulo, pelo canal All TV, aprendendo a mesma função dos correspondentes americanos na guerra do Iraque. “Na época, nem imaginava que poderia participar da cobertura de um conflito como o do Haiti”, explica.

O jornalista esteve no Haiti em 2006, de onde assinou, para o JC OnLine, o especial Haiti - pérola negra do Caribe; fez matérias para o Governo Federal, principalmente para site e voz do Brasil; assinou também textos para importantes jornais do país, como o Jornal do Commercio (Recife) e Correio do Povo (Porto Alegre). Ainda do Haiti, colaborou como Repórter Fotográfico para o Jornal O Globo e Folha de São Paulo.

Neste BLOG, com muitas fotos e textos informativos, ele escreve sobre este país emblemático, aproveitando a pesquisa para o livro que breve lançará sobre a primeira república negra a declarar independência na Américas.
Mas adianta que não falará apenas de Haiti. "O Blog é uma ferramenta muito rica e não pode ser restritiva. É para se falar sobre tudo!”, afirma.

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