domingo, 9 de dezembro de 2007

Tontons Macoutes: uma milícia impiedosa a serviço do ditador Papa Doc


François Duvalier, o Papa Doc, ditador sanguinário do Haiti entre 1957 e 1971, não confiava em seu Exército. Em 1958, quando iniciou seu governo, ao invés de tentar consolidar sua posição, se aproximando das Forças Armadas, resolveu tomar uma posição mais arriscada, trilhando caminhos seguidos por líderes como Hitler, assumindo o poder com uma força de sua confiança.

Papa Doc deu início, então, a uma organização de contrapeso ao Exército, direta e exclusivamente subordinada ao Palácio Nacional: os Tontons Macoutes.
A força tinha sua base formada, por um lado pelos “Cagoulards” ou encapuzados, grupos de agitadores, recrutados por Duvalier na campanha presidencial de 57, para intimidar os outros candidatos e quase sempre através de métodos violentos.

No interior, os Tontons Macoutes foram recrutados nos líderes rurais ou chefes de seções, cuja nomeação até então era de responsabilidade exclusiva do Exército e passou a ser indicação de Duvalier.

Pela violência brutal e intimidadora, conhecida em todo o país, ao sair da clandestinidade, os encapuzados receberam logo do povo a alcunha de Tontons Macoutes, que significa “bicho papão” em creole, o idioma popular do Haiti.


O efetivo dos Tontons Macoutes era 99% formado por negros e seus homens descritos como espiões, chefes de bairro, rufiões, viviam de extorsões e eram o sustentáculo político do regime ditatorial de Papa Doc. Matava e torturava sem piedade.

Em fins de 1959, o ditador François Duvalier ( o Papa Doc), valendo-se da Guarda Presidencial como organização matriz, ampliou e transformou os Tontons Macoutes, primeiro em Milícia Civil e depois em Voluntários da Segurança Nacional.


Quatro anos depois, essa força contava com o dobro dos integrantes das Forças Armadas e seus contingentes rurais armados presentes em todas as aldeias do interior, sob chefia dos chefes locais, ajudou a sustentar por quase 15 anos a ditadura mais violenta da América Latina.

Tontons Macoutes


François Duvalier, o Papa Doc


sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Festa no chafariz, show de belas fotos e um país a beira do caos ambiental


O Haiti é um país a beira de um colapso ambiental e o que é pior, com um déficit gigantesco de água potável. Por ser uma ilha montanhosa, a oferta da água já era escassa.

Nos últimos 50 anos, com a ininterrupta ocorrências de crises políticas e sociais, a falta de investimento em coisas básicas, como saneamento e energia, e o crescimento em progressão geométrica da população, a questão da água de beber virou um problema gravíssimo.

O desmatamento generalizado, principalmente para cozinhar, o assoreamento dos leitos dos poucos rios e contaminação dos lençóis freáticos, pela lama podre dos esgotos e pela salinização, criaram uma terra sem água.

As cidades, inclusive a capital, não têm água encanada. A população, já abatida pela pobreza, gasta boa parte do tempo ( e levanta de madrugada!!) para uma guerra, sem trégua, atrás do líquido. Baldes, latões e as filas, semelhantes a formigas-de-correição, integram a imagem social, como se fosse o vai-vem de trabalhadores comuns de uma cidade operária.

A penúria pela água afeta principalmente as crianças. Os poucos poços artesianos, furados principalmente pelas tropas brasileiras, tornam-se um ponto de alívio e de poucos momentos de festa.

Mas as notícias não são boas para o Haiti. Se não bastasse o problema ambiental de sua própria “cozinha”, a ilha poderá ser uma das mais afetadas pelo aquecimento global. A estimativa de cientistas, que nesta semana fez mais uma alerta para o efeito estufa num relatório das Nações Unidas, é que com o derretimento das calotas polares, os oceanos e mares subam pelos menos sete metros, um desastre sem precedentes para o Haiti.

Na seqüência das fotos a seguir, um flagrante de família inteiras de Tabarre, um bairro, digamos, menos pobre da capital, se deleitando numa fonte de água, um chafariz que jorra 24 horas por dia. As fotos falam por si...

As crianças, todas elas, são obrigadas a dar o quinhão no carregamento de água




A mesma água para o banho e higiene bucal




Saquinho de água valioso na quente Porto Príncipe







quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pernambuco em mais um fim de semana violento, com taxas de homicídios comparadas ao Haiti

Gente, enquanto os gestores fecham os olhos, a matança continua em Pernambuco, particularmente em Recife.

Os números registrados no último fim de semana (prolongado de Finados) foi assustador. Em três dias, da zero-hora da sexta à meia-noite do domingo, foram 47 pessoas assassinadas no estado. Treze apenas na Região Metropolitana do Recife.

Segundo o site especializado em segurança pública, PEbodycount (http://www.pebodycount.com.br/), só hoje (6-11), foram mais 10 mortes. No mês (novembro!!), são 70 assassinatos e no ano, com registro desde 1º de maio, são 2.112 vidas ceifadas.

Nem o Haiti, país que vive uma situação delicadíssima de ordem interna, governo frágil, pobreza generalizada e tudo de ruim em termo de organização social, tem um índice tão alto de homicídios. Agências de notícias chegaram a publicar recentemente que a violência urbana tinha caído no Haiti e que a República Dominicana, país vizinho, já tinha índices de homicídios muito maior.

Principalmente depois da queda de Cité Soleil, a maior favela do Haiti, que até março deste ano ainda era dominada por gangues armadas. Mas é fato que no Haiti não há estatísticas precisas e nem um sistema judiciário que permita dizer a quantidade de presos ou o número de crimes cometidos.

No último dia 25 de outubro, o Ministério da Saúde divulgou uma pesquisa sobre homicídios no Brasil. No ranking é levada em consideração a taxa de homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes registrada no ano passado.

Quanto à mortalidade por arma de fogo em capitais, Maceió (AL) ocupava o primeiro lugar, com taxa de 75,4 mortes por 100 mil habitantes no ano de 2006. Em seguida vinha Recife, com taxa de 61,5. Na seqüência, aparecem Vitória (ES), Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ), com taxas de 58,9, 35 e 33,4 por 100 mil, respectivamente.

Mas na segunda-feira (5-11), o Jornal da Globo noticiou que Recife já aparece na primeira colocação, com o índice de 91 para cada 100 mil. E não duvide desses números. Só andando pelas ruas do Recife para sentir a sensação de insegurança.

Nos últimos meses, quase dez pessoas morreram no volante ao fugir de assaltos nos semáforos da cidade...

No Haiti, gangues dominavam os bairros pobres e populosos


Até crianças pegavam em armas


População mergulhada na imundice




domingo, 4 de novembro de 2007

Um país sem idosos


Um dos grandes reflexos sociais da pobreza hiatiana pode ser comprovado no perfil etário da população. A expectativa de vida no país não ultrapassa aos 49 anos, um dos índices mais baixos do mundo e o pior das Américas.

O índice de 49 anos na expectativa de vida foi atingido pelos Estados Unidos no início do século XX. Só para efeito de comparação, hoje o Japão é o primeiro colocado neste ranking, com 81,6 anos de expectativa de vida. Em seguida vêm Suécia (80,1), Hong Kong (79,9), Islândia (79,8) e Canadá (79,3). O último do ranking é a Zâmbia, com 32,4 anos. Próximos ao Brasil (71,9) estão países como Colômbia (72,2) Suriname (71,1) China (71,0), Paraguai (70,9) e Equador (70,8).

O Haiti tem cerca de 8,5 milhões de habitantes, com quase 4 milhões de crianças e adolescentes. O que impede o povo hatiano de chegar na fase idosa é um emaranhado de problemas. O principal deles é a fome, seguida da falta de saneamento básico, vacinas, antibióticos, cuidados médicos preventivos e eletivos bem como educação e informação.

O pior dos males que assombra o país é a desnutrição. Aproximadamente quatro milhões de pessoas passam fome no Haiti, quase a metade da população, 47%, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Os dados são de outubro do ano passado. As crianças são as principais vítimas: 23% delas são menores de cinco anos, não têm o que comer e sofrem com a desnutrição crônica.

Uma nação sem expectativas




População é jovem


Haiti: um país onde ratos ainda comem gente

A pobreza generalizada do Haiti, com seus reflexos em todos os setores (econômicos, sociais, culturais) castiga impiedosamente a população.

A falta de saneamento básico, vacinas, antibióticos, cuidados médicos preventivos e recuperadores gera situações inusitadas e inadmissíveis para a humanidade, que sonha e se encanta com as tecnologias digitais e com a “riqueza” da globalização econômica.

A foto, chocante e desumana, é uma prova cabal e retrato do Haiti. A mãe, descuidada, deixou a filhinha deitada no chão de sua residência em Cité Militaire, um bairro populoso e pobre da capital Porto Príncipe. A garota, deficiente e desnutrida, foi literalmente comida por ratos, peste que domina o subterrâneo da capital. Foi socorrida a tempo e atendida num posto médico da ONU.

Mais de cem soldados da força da ONU no Haiti são afastados por abuso sexual

Segundo a agência de notícias AFP, em Nova York, Cento e oito soldados do Sri Lanka, pertencentes à força das Nações Unidas mobilizada no Haiti, serão repatriados por comprar serviços sexuais, inclusive de menores, anunciou quinta-feira (1 de novembro) a porta-voz da ONU, Michele Montas.

Estes integrantes do contingente da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), "serão repatriados sábado como medida disciplinar", declarou Montas à imprensa.
Ela informou que a decisão foi tomada depois "de informações relacionadas a casos de exploração sexual e de abusos cometidos por membros de um batalhão do Sri-Lanka em vários pontos do Haiti".

Montas precisou que algumas mulheres haitianas envolvidas no escândalo eram menores de idade.

sábado, 20 de outubro de 2007

Tropa de Elite, um filme desmistificador e inconteste. Um tapa na cara de muita gente.



Em recente edição, a revista Veja trouxe à discussão os tabus quebrados pelo filme Tropa de Elite, do cineasta José Padilha.

O semanário foi de uma bravura sem tamanho ao expor, de forma contundente, o consumo de drogas da classe média brasileira, principal patrocinadora do tráfico no país, e a “proteção” levada a cabo por uma certa elite intelectual.

Veja foi além da cobertura factual para combater os muros do preconceito e a patrulha ideológica feita por colunistas, jornalistas e formadores de opinião que não medem esforços para combater a mera insinuação do verdadeiro papel dos viciados ricos.

Veja foi às vísceras das falsas imagens da esquerda romântica.
O filme de Padilha sem sombra de dúvida é o melhor de todos os tempos, realista, atual... é um verdadeiro tapa na cara de muita gente, que por incompetência, omissão e conivência deixou o bandidismo imperar e levar à barbárie a maioria das cidades brasileiras.

O filme e a revista desnudam os “críticos” de plantão que inocentam maconheiros e cheiradores de pó, disseminados na classe média e no meio artístico-jornalístico nacional, que se assombram quando a violência bate à porta e se enfileiram em caminhadas “brancas” para combater o tráfico, as armas e a violência. Pura hipocrisia!!

Fiquei muito feliz com filme ( já assisti duas vezes e por cópias piratas) e sinceramente satisfeito com o padrão de posicionamento jornalístico adotado Revista Veja.

Religião: mitos e realidade em um templo vodu no Haiti




Religião: mitos e realidade de uma ceriônia "vodu" no Haiti





Por Dinomar Miranda - (em visita ao Haiti -2006)

Ir ao Haiti e não conhecer um templo vodu dá ao visitante a sensação de uma viagem incompleta. 

Conhecer o vodu, seus mitos, crenças, história e, claro, assistir a um ritual no terreiro é uma experiência fantástica. 

O templo que nos recebeu fica em Tabarre, na região metropolitana de Porto Príncipe. 

Uma área pobre, mas em melhores condições do que outros bairros capital.


O nosso contato com a sacerdotisa Immacula, um Mambo (nome dado à celebrante feminina), foi muito cordial. 

Ela fez exigências. A primeira delas foi que nós nos dirigíssemos ao seu terreiro para “negociar”. Os espíritos assim solicitavam, porque são superiores e nós deveríamos ir até eles. 

Ela fez alguns pedidos para ajudar na celebração. Immacula pediu bebidas (rum ou cerveja), cigarros e alimentos para distribuir aos fiéis. 

E, claro, uma quantia em dólar para pagar os “custos”.

No início da tarde do domingo, dia do ritual, fomos ao santuário levar o acordado. Para surpresa, encontramos Mami (nome carinhoso dado à mestre vodu) acamada, no meio do terreiro.


Ela balbuciou algo em creole, o idioma local, com uma feição de dor e desconforto. 

Então, o intérprete informou que ela estava com muita febre e dor de cabeça, conseqüência de mais uma malária.

Fiquei preocupado e ofereci ajuda. Ela pediu alguma medicação que diminuísse os incômodos, mas logo tratou de dizer que o ritual seria realizado. 

No final da tarde, perto das 5h, chegamos ao templo para a cerimônia e o encontramos todo enfeitado e colorido. 

O que chamou a atenção foi a quantidade de crianças próxima ao terreiro. Fiquei me perguntando se todas elas participariam do ritual.

Fomos recebidos por um Hounsis (ajudante do sacerdote), um senhor de meia-idade, que nos convidou para sentar num altar especial, rústico é verdade, mas um local de destaque.

Nas paredes, multicoloridas, vários desenhos de deuses, loas e figuras sincréticas parecidas com os santos católicos. 

São Jorge estava ali representado, podia se ver, mas o bicho sob sua lança não era um dragão.

E começaram os batuques dos tambores! 

O Hounsis e outros ajudantes começaram a ornamentar o chão com alguns símbolos vodus, em representação ao espírito invocado. 

A noite caiu rapidamente.

A atmosfera de uma senzala apareceu como um encanto. 

O negrume, apenas cortado pelos riscos de uma vela; o cheiro de suor e do rum; e as batidas secas dos tambores transcendiam a um tempo remoto e ancestral.


A cerimonia de ornamentação dos símbolos perdurou por quase 40 minutos. E a Mami? Como estava? Estaria em condições de presidir a celebração?


O terreiro, com o passar do tempo, logo se encheu, principalmente de crianças e adolescentes. 

As garrafas de rum eram passadas de mão em mão, num ritual que eu não pude identificar se fazia mesmo parte da cerimônia ou se era uma bebedeira deliberada.

A sarcedotiza apareceu cercada de fiéis, num longo vestido colorido, com a predominância do verde. Sua aparência ainda era de uma pessoa frágil e abatida pela malária. 

Veio ao nosso encontro e depois de dar-me um beijo no rosto, perguntou, em creole, para quem o “trabalho” seria oferecido.

Agradecido, respondi apenas que só desejaria assistir e tirar fotos. Ela se sentou e o homem que conduzia o ritual trouxe consigo, de um pequeno quarto, alguns objetos “sagrados”.


Dentre eles, um facão, que foi enrolado num lenço vermelho. Então, o Hounsis começou a desferir punhaladas com o facão, sem causar ferimentos, nas barrigas de suas ajudantes (todas mulheres).

No centro do terreiro, havia também uma pilastra de cimento, colorida e desenhada com uma serpente. 

O altar era o local sagrado onde estavam sendo depositadas as oferendas para a loa Ezuli Freda, o espírito que incorpora em Mami Immacula, a mestre vodu de Tabarre. 

E, segundo um dos Hounsis, o espírito representa o bem ou o mal, dependendo das circunstâncias.

Mami, que passou boa parte do tempo sentada, estava ali quase inerte, a espera de Ezuli Freda, que a qualquer momento poderia baixar, chamada e aclamada pelas danças, palmas, cânticos e tambores.

Mas o tempo não colaborou. Já passava das 19h e a noite do Haiti é traiçoeira. Por questão de segurança, fomos obrigados a deixar o Piè restile (o templo) antes de Eluzi Freda marcar presença. 

Eles, os fiéis e os sarcedostes, ficariam ali pela madrugada, no frenesi dos batuques e do êxtase.


Depois de despedir-me de Mami Immacula, um dos seus ajudantes contou-me de um ritual inacreditável que os voduistas realizam. A celebração é chamada de Bizango. 

Trata-se de um ritual canibal, feito uma vez por ano, numa quarta-feira de dezembro, por alguns mestres de vodu. 

Ela se assemelha a uma passeata, à meia-noite, pelas ruas da cidade. Vestidos de vermelho e preto e comandando zumbis, os celebrantes matam e comem os humanos quem vão encontrando pelo caminho.

O vodu é mágico. O difícil dessa religião primitiva é separar os mitos da realidade.




Vodu: os espíritos são como santos católicos



Por Dinomar Miranda ( Em visita ao Haiti - 2006) 

No Haiti há um ditado: 70% são católicos, 30% protestantes e 100% vodus. Parece exagero, mas o vodu rege a vida do povo haitiano. 

A manifestação religiosa, nascida há séculos na África, acompanhou os escravos aprisionados pelos europeus e desembarcou junto com a esperança de uma vida em liberdade. 

O vodu sobreviveu às perseguições dos colonos, se “casou” com as manifestações católicas, num sincretismo semelhante ao do Brasil, e se tornou o esteio cultural da nação haitiana.

O termo “vodun”, ramo de uma tradição religiosa teísta-animista, significa "deus" ou "espírito" na língua dos Fons. 

As divindades adoradas são um grande número de espíritos, chamados de Loas, que podem ser aparentados aos santos católicos, aos ancestrais deificados ou aos deuses africanos.

Suas raízes remotam aos povos da África Ocidental. 

O vodu haitiano é popular e sincrético, que incorporou os aspectos do ritual católico-romano, impostos pelos colonos franceses, somados com os elementos religiosos e mágicos africanos das etnias Fon-Ewe, Ibo (África Central) e o Yoruba.

 Acredita-se que há um Deus que é o criador de tudo, chamado de "Bondje" (do francês "bon Dieu"). Bondje é distante de sua criação e, por isso, é o voduista que invoca os espíritos para ajudá-lo.

O crente vodu adora o deus, mas serve aos espíritos (Loas), que são tratados com honra e respeito como se fossem membros mais velhos de uma casa. 

Estima-se que são vinte e uma as nações (nanchons) dos espíritos, divididos, de acordo com sua natureza, basicamente em duas categorias: quentes ou frios. 

Os espíritos frios entram sob a categoria Rada, e os espíritos quentes entram sob a categoria Petro.

Os espíritos de Rada são familiares e vêm na maior parte da África; e os espíritos de Petro são na maior parte nativos do Haiti e requerem mais atenção ao detalhe do que o Rada - ambos podem ser perigosos se irritados ou contrariados. 

Nenhum é "bom" ou "mau" em relação ao outro. 

Diz-se que todos possuem espíritos, e cada pessoa é considerada como tendo um relacionamento especial com um espírito particular, que é dito "possuir sua cabeça".

As Loas se comunicam com os fiéis por meio de sonhos ou deles tomam posse durante os rituais. A presença deles é revelada por um estado de transe, numa dança característica da religião.

MEMBROS 

No Vodu haitiano não há um “Papa”, uma hierarquia como na Igreja Católica. 

Há um clero, cuja responsabilidade é preservar os rituais, as canções e manter o relacionamento entre os espíritos e a comunidade como um todo (embora isto seja responsabilidade de toda a comunidade também). 

O santuário é presidido por mestre celebrante masculino, o Hougan (chamado carinhosamente de Papi), ou por uma mestre, o Mambo (Mami).

Esses sacerdotes agem como conselheiros, curandeiros e protetores. Na maioria das vezes eles também são uma espécie de líderes comunitários, uma figura respeitada entre os indivíduos. 

Abaixo dos Houngans e das Mambos estão os Hounsis, que são os noviços que atuam como assistentes durante cerimônias e que são dedicados a seus próprios mistérios pessoais.

Os rituais, com seus cantos, toques de tambores, danças, preces, preparo de alimentos e o sacrifício de animais (e, às vezes, de pessoas), ainda mantém certos traços de seus ancestrais de senzalas ou dos reinos africanos. 

Curiosidades sobre zumbis e bonecas vodus


Por Dinomar Miranda 


O cinema hollywoodiano imortalizou nos filmes de terror a figura dos zumbis como espécies de mortos que foram ressuscitados por espíritos malignos, para perseguição aos humanos. 

Parte dessa lenda bebeu do voduismo norte-americano, praticado no sul daquele país, principalmente em Nova Orleans, na comunidade negra. 

Mas na tradição do voduismo haitiano, o zumbi é um ser humano a quem um sacerdote lhe roubou a alma. Este roubo é feito mediante técnicas de magia negra, quando a pessoa está morrendo e imediatamente depois de morrer.


A alma é conservada em uma garrafa pelo ladrão, que a partir desse momento tem o controle absoluto do corpo da pessoa morta. 

Esta carece de pensamento e controle autônomo, de modo que pode ser manejada como um escravo por parte do sacerdote, num estado de transe cataléptico, como uma espécie de ‘morto vivo’. 

Com o passar do tempo, o zumbi vai deteriorando-se, como se aprodecesse, e finalmente seu corpo acaba por morrer também.


Mas não foi isso o que descobriu Wade Davis, um pesquisador norte-americano e etnobotânico que publicou um livro intitulado “A Serpente e o Arco-Íris” (Zumbis, vodu, magia negra). 

Segundo ele, os sacerdotes do vodu seriam capazes de induzir um estado cataléptico (transe) em suas vítimas, um transe tão convincente, que parecem autenticamente mortas, e assim são declaradas e sepultadas. Posteriormente seriam retiradas de suas tumbas e, mediante uma cuidadosa combinação de drogas, seriam mantidas em um estado catatônico. 

Wade Davis, que fez várias pesquisas no Haiti, descobriu que o estado de transe era resultado do uso de drogas.


Davis afirma ter descoberto exatamente a fórmula usada pelos sacerdotes para converter uma pessoa em zumbi.

 As ervas, usadas por um perito, efetivamente reduziria a vítima a um estado catatônico comparável com o de morte. E constatou também que, quando o feiticeiro profanava a tumba do "morto" depois do sepultamento, dava outra porção à vítima para tirá-la de sua catatonia, embora a pessoa jamais voltasse a ser a mesma.


Ela ficaria então reduzida ao nível mental de uma pessoa a quem se extirpou parte do cérebro. Este último aspecto seria devido à privação de oxigênio que sofreria o cérebro, conseqüência do ambiente fechado do ataúde em que foi colocado “morto”. 

Para Wade Davis, a formula secreta tinha como ingredientes, além de narcóticos diversos, tetradotoxina, veneno neurotóxico que se encontra em baiacus e em rãs venenosas.


Entretanto é necessário afirmar que os zumbis são um fenômeno menor dentro da cultura rural do Haiti e não uma parte da religião Vodu em si.


BONECAS - Já a prática de furar "bonecas vodu" com agulhas foi usada como um método de amaldiçoar um indivíduo, por alguns seguidores do que veio a ser chamado "Nova Orleans Voodoo". 

O ritual não é original do "vodu" de Nova Orleans, mas tem suas bases em dispositivos mágicos europeus baseados tais como a "poppet", quanto o nkisi ou o bócio da África ocidental e central.


As bonecas de "vodu" não são uma característica da religião haitiana, embora as bonecas feitas para turistas possam ser encontradas em Porto Príncipe. 

A prática tornou-se associada ao Vodu novamente através dos filmes amerianos. (D.M.)

Líder religiosa prepara a celebração


Animais simbolizam deuses vodus


Religião vodu é substituída pela católica

Nas seqüências de brigas e de disputas pelo poder, a Igreja Católica começou a tomar lugar no Estado. Na Constituição de 1811, ela foi reconhecida como religião oficial. Cada vez mais, a pequena elite sedenta marginalizava a religião do povo. Mas também, ao longo do século XIX, foram constantes os embates entre essa mesma elite e o Vaticano, a tal ponto que, em uma lei de 1820, o presidente Henry Chistophe (1807-1820) determinou que apenas com sua autorização os padres poderiam batizar, casar ou enterrar os mortos.

O vodu teve um pequeno crescimento de influência com a presidência de Faustin Soulouque (1847-1859). Maso Papa Pio IX e o novo presidente Fabre Geffrard (1859-1867), com o intuito de erradicar essa guinada vodu, chegaram a um acordo e assinaram a Concordata de 1860, que designava a Igreja Católica Apostólica Romana a gozar de privilégios especiais. Porto Príncipe, capital do país, tornou-se sede do arcebispado. O prazo do “contrato” era de 100 anos, com expiração apenas em 1960.

Por todos esses anos, o vodu foi estigmatizado e perseguido, mas continuou sendo a espinha dorsal da cultura haitiana e a religião da massa.

REVIRAVOLTA - A família Duvalier (François e Jean-Claude) sobem ao poder em 1957 e passam 30 anos como mandatários da nação. François Duvalier (Papa Doc), um dos ditadores mais brutais das Américas, defensor ardoroso do voduismo, torna-se desafeto do clero nacional e do Vaticano. Nos vários embates, Papa Doc expulsa padres, invade igrejas com seus paramilitares (tontons macoutes) e prende fiéis. A crise com a Igreja culmina com a expulsão do Arcebispo (Monsenhor Poirier). Duvalier profana igrejas com rituais vodus e recebe a excomunhão do Vaticano.

Foi nesse período que os ditadores, praticantes do vodu, fizeram, com seus exageros, que a religião adquirisse uma má reputação internacional. A Igreja e Papa Doc voltaram à mesa. Duvalier demonstrou disposição de reconciliar, fez concessões ao vaticano e conseguiu anular a bula de sua excomunhão. Entretanto, a Concordata de 1966 não foi renovada.

Com a queda de Jean-Claude Duvalier (Baby Doc), em 1986, a Igreja volta a ter influência em Porto Príncipe. Mas a surpresa saiu de casa. Em 1986, sobe à presidência, eleito pelas massas pobres do país, o padre das favelas, Jean-Bertrand Aristide. A oposição ferrenha do clero às posições do padre popular, seguidor da teologia da libertação, acabou por expulsar Aristide do sacerdócio, por ter se “envolvido” com assuntos políticos. A Igreja novamente perde o apoio de um presidente da República.

Aristide foi deposto por um golpe militar em 1991. Na sua volta ao poder, três anos depois, pelas mãos dos americanos, ele dá um grande presente ao povo haitiano. Em abril de 2003, o vodu é oficializado no Haiti com o mesmo status de outras religiões praticadas no país. A decisão tomada pelo padre significou que cerimônias do ritual vodu, como casamentos, teriam o mesmo valor das católicas. "Sempre fomos a maioria no Haiti e nunca foi ilegal a prática do vodu". "O que o presidente Aristide fez por nós, e somos muito gratos, foi tornar mais fácil a obtenção do status necessário para que as cerimônias religiosas tenham valor legal", disse à época, Mambu Racine Sumbu, uma americana, sacerdotisa do vodu, em entrevista à BBC.

E o vodu, legalmente, voltou a caminhar junto dos haitianos. (D.M.)

Tambor chama os deuses


Todo mundo no terreiro, velhos, adultos e crianças





Cerimônia vodu estimulou a rebelião da independência

Foi numa cerimônia vodu, em 1791, que o negro Bookman pronunciou as palavras eloqüentes de liberdade e fez os escravos, ali reunidos, jurarem fidelidade, desencadeando a maior insurreição negra do mundo e o início da independência do Haiti dos domínios franceses. A guerra durou 13 anos e foi um marco na histórica rebeldia haitiana.

Mas o vodu já era uma teia de ligação entre os escravos muito antes da guerra de independência. Na África, os negros capturados eram transformados em mercadoria vulgar do comercio internacional, separados propositadamente de suas famílias, dos dialetos, de suas etnias e despojados até mesmo do próprio nome.

Agarraram-se, então, à única coisa sobre a qual os brancos não tinham nenhum poder: as crenças, herdadas das mitologias ancestrais africanas.
ORIGEM - O vodu nasceu no oeste da África, num reino chamado Daomé, atual região de Benin. Nas novas terras não perdeu suas raízes e, apesar das múltiplas crenças escravas, sobreviveu. Foi perseguido, camuflou-se, usou os santos católicos num sincretismo semelhante ao do Brasil e se tornou homogêneo.

Os escravos encontraram uma ilha dominada por franceses, que desconfiados dessa manifestação “bizarra”, não perderam tempo em estigmatizá-la. Mas o vodu teve seus aliados. Naqueles anos, estavam em voga as idéias do iluminismo, a era da razão. Foi um período de influência acanhada da Igreja Católica na ilha caribenha. E foram nas altas montanhas da colônia, refugiados da opressão, que eles conseguiram manifestar-se livremente e fomentar o ímpeto rebelde.

Depois da independência, a religião libertadora passou a ser o esteio cultural do país. Uma das únicas, talvez, não tolidas pelos colonizadores. Entretanto, já na primeira Constituição da nova nação, promulgada em 1805, pelo imperador Jean-Jacque Dessalines, não se privilegiou o vodu. Essa Carta também não reconheceu a preponderância de qualquer outra religião. O casamento, por exemplo, era apenas um contrato civil. (D.M.)

Simplicidade do negro exposta em arte Naif


Arte Naif e sua função de aproximar dois povos


Simplicidade e voduísmo inspiram Arte Naïf

Uma das principais manifestações artísticas haitianas é a Arte Naïf, que desde a liberalização da crença vodu no país, no início de 1940, começou a crescer e a ganhar força e espaço.

Naïf é definida como uma arte primitiva moderna, produzida, geralmente, por artistas sem uma preparação acadêmica. É caracterizada pela simplicidade e pela falta de elementos ou qualidades presentes nas artes produzidas por artistas com formação. As telas Naïf têm pinceladas de cores fortes e tropicais e falam de temas comuns, como a natureza, e no Haiti, principalmente, expresam e servem de anteparo ao voduismo.

Segundo Albert Mangonès, um estudioso das artes, os primeiros pintores haitianos foram escolhidos pelos hugan (sarcedotes do vodu), graças ao seu talento, para servir às Loas (espiritos). "Os artistas executavam o que os hugan lhe pediam, num domínio em que apenas a decoração simbólica era necessária, enriquecendo assim a bela tradição das formas abstratas e coloridas sobre os elementos vodus".

O que serviu de meio de expressão de uma religião cassada e perseguida pela elite, mas a serviço e incrustada no seio cultural do "povão". Mesmo assim, para Michel-Philipe Lerebours, pesquisador da história da arte do Haiti, muitos artistas haitianos propuseram um vodu de fachada. Produziram uma arte que não os comprometesse mais do que as pretensas cerimônias propostas aos turistas.Ainda segundo ele, certos artistas se calaram sem jamais mostrar a verdadeira face do vodu, preferindo contar os mitos e as lendas (zumbis e sereias), naturezas mortas com crânios humanos e diversos outros acessórios cabalísticos.

Outros se limitavam apenas às danças, tratamentos, invocações e curas, ou seja, tudo o que podia ser trazido à vista do público.Mas a arte Naïf aparece também com uma outra função muito peculiar. Tende a aproximar dois povos: brasileiros e haitianos.

Os dois países, relativamente distantes geograficamente, possuem diversas semelhanças culturais, étnicas e sociais, herdadas desde o tempo da colonização e do sistema escravagista. Essa proximidade cultural é bem nítida nas telas Naïf desenvolvidas em ambos os países, principlamente com a fluência de elementos afros e do sincretismo religioso.

Para Lucien Finkelstein, presidente-fundador do Museu Internacional de Arte Naïf, diferentemente do Haiti, que há muito ocupa um lugar de destaque no mundo com arte Naïf, o Brasil tem crescido no cenário internacional. "Essa osmose cultural é provável que tenha um ancestral comum, mesmo que desenvolvida com total desconhecimento uma da outra.

Porém, o surpreendente é descobrir na pintura Naïf dos dois países o mesmo prazer, a mesma alegria de pintar pelos seus artistas, com sua ingenuidade, simplicidade e franqueza absoluta". Gerson, Elza O.S e Lia Mittarakis são alguns artistas Naïf de porte no crescente espaço brasileiro.

Mas os grandes nomes da pintura, mundialmente conhecidos, são haitianos, como Hector Hippolite, Pierre-Joseph e Préfète Duffat. Foi Hector Hippolite, segundo Michel-Philipe Lerebours, o grande nome haitiano, que, com suas pinturas, mergulhou profundamente nas raízes do vodu, ousou pela primeira vez materializar as Loas (1946) diante dos questionamentos preconceituosos e dos simulacros das elites tradicionais. (DM)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Briga política secular arrasou o país


O assassinato do imperador Jean-Jacques Dessalines (Jacques I), o primeiro mandatário do Haiti, em 1806, marcou o início de uma disputa política ferrenha e preconceituosa, que perdurou nos últimos duzentos anos de história do país, na briga pela alternância do poder। Foi o começo da derrocada da mais nova nação e que selou o destino miserável da maioria da população desfavorecida, com um efeito brutal nas pessoas mais frágeis.


Considerada umas das grandes responsáveis pela falência do Estado haitiano, a disputa reuniu, de um lado, a autocracia militar negra, herdeira de Dessalines, e de outro a elite mulata rica। Praticamente não há brancos na ilha, que foram dizimados durante os 13 anos de guerra de independência.


As disputas das minorias pelo poder resultou em conseqüências desastrosas para a população, obrigada a vivenciar quatro guerras civis, revoluções, invasões e anexações da República Dominicana, conspirações, atentados e dezenas de golpes de estado। Dos quarenta governantes, de 1806 até 1991, apenas quatro terminaram o mandato. Quatro foram assassinados ou executados e trinta e dois foram depostos.


Durante todos esses anos, os demais haitianos, cerca de 80%, ficaram à margem dos processos e decisões políticas। Somente em 1990, no primeiro escrutínio livre do país, é que a imensa população pobre, descendentes, como a elite, dos cerca de 500 mil escravos que se revoltaram contra a França de Napoleão, pôde participar do processo político. E claro, escolheram o homem que representava a esperança de um povo crucificado, não só pela ditadura dos Duvalier (1957 – 1986), mas pelas centenas de anos de marginalidade. Votaram maciçamente num populista, num padre que andava pelas favelas, a “voz dos sem-voz”: Jean-Bertrand Aristide. Com 67% dos votos, Aristide, seguidor da teologia da libertação, se tornou o primeiro chefe da nação não oriundo da elite mulata ou da autocracia militar negra.


As brigas políticas que sempre foram o problema da hora, fizeram com que os sucessivos governos negligenciassem os problemas sócio-econômicos do país।


O principal deles foi a progressiva queda das produções agrícolas, iniciadas desde a independência, com a matança dos colonos brancos e assunção de suas terras (latifúndios) pelos ex-escravos। As glebas divididas entre os “soldados”, passou do modelo exportador para o minifúndio de subsistência. A ilha, uma das mais prósperas das Américas, que no final do domínio francês (1801) produzia cerca de 9 mil toneladas de açúcar e 21 mil toneladas de café, passou, 25 anos depois (1826), para apenas 16 toneladas de ambos os produtos, progressivo à devastação ambiental.


A multidão de ex-escravos continuou sem perspectivas e o empobrecimento obrigou o êxodo para as cidades, também carentes da mínima infra-estrutura। O resultado foi a formação de bolsões citadinos ou rurais de miséria e uma massa de desempregados que só cresceu no decorrer das décadas.


Hoje, o Haiti possui cerca de 8,4 milhões de habitantes. Quase a metade deles são crianças ou adolescentes. E pelos números do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), não é difícil reconhecer que elas são as principais vítimas das disputas sedentas das minorias haitianas ao longo das décadas. (DM)

A assombrosa situação das crianças


As crianças nascidas no Haiti têm maiores probabilidades de morrer durante a primeira infância do que em qualquer outro país do hemisfério Ocidental। A projeção consta no relatório “A infância em perigo”, lançado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). “Há poucos lugares no mundo onde é mais difícil ter uma infância saudável do que no Haiti,” constata o representante do Unicef no país caribenho, Adriano González-Regueral.

Para milhares de meninos e meninas haitianos, a vida é uma dura luta diária। Nas zonas rurais, eles não têm sequer acesso aos serviços minimamente básicos, sendo muitas vezes obrigados a caminhar durante horas para chegar a um centro de saúde ou a uma fonte de água। Nas cidades, sem luz e água tratada, a violência e os maus-tratos as tornam reféns de um ciclo do qual é quase impossível libertarem-se. Uma pesquisa independente e recente, coordenada por Royce Hutson, e divulgada pelas agências de notícias internacionais, afirma que cerca de 32 mil mulheres e crianças foram estupradas em Porto Príncipe, capital, em pouco menos de dois anos. A vítima mais nova tinha seis anos de idade, mostrou uma análise dos 22 meses seguintes à queda do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, em fevereiro de 2004. Um em cada quatro estupros foi perpetrado por forças de segurança ou grupos políticos armados.

Os problemas são muitos e as soluções nem sempre chegam na velocidade desejada। Embora a educação seja o caminho para uma vida melhor, muitas famílias não têm possibilidade de enviar os filhos à escola porque o custo é muito elevado. No Haiti não há educação pública gratuita. Apenas 55% delas em idade escolar freqüentam o ensino primário. Em média, o tempo em que permanecem em sala de aula não ultrapassa os dois anos. Um terço dos jovens com idades entre os 15 e 24 anos são analfabetos.

Há milhares de crianças nas ruas। Muitas delas são forçadas a engrossar as fileiras das gangues ou ainda se tornarem membros da subcultura dos “restavek”, que vivem em condições de autêntica servidão doméstica. Estima-se que 300 mil crianças trabalham como domésticas sem qualquer tipo de salário.Royce Hutson disse que os resultados são "chocantes" e indicam que abusos de direitos humanos continuam sendo comuns e sistemáticos no Haiti, apesar dos esforços internacionais de acalmar a situação.

A maior moléstia do século também vitima। Segundo o Unicef, a aids teve um efeito devastador em crianças e jovens do Haiti. Mais de 200 mil crianças haitianas perderam um ou ambos os pais em virtude da doença. A Care, uma instituição sem fins lucrativos que atua em 72 países pobres, diz que este país caribenho tem a maior incidência de aids fora da África. Desde o advento da epidemia nos anos 80, cerca de 300 mil haitianos morreram de aids e mais do que 300 mil vivem com o vírus atualmente. Em 2001, foram mais que 30 mil mortos haitianos em decorrência do HIV/aids, que é cerca de duas vezes o número dos Estados Unidos, um país com 40 vezes mais pessoas.

Mas o pior dos males que assombra o país é a desnutrição। Aproximadamente quatro milhões de pessoas passam fome no Haiti, quase a metade da população, 47%, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Os dados foram divulgados no último dia 31 Outubro. As crianças, claro, novamente são as principais vítimas. 23% delas são menores de cinco anos, não têm o que comer e sofrem com a desnutrição crônica. (DM) * Com trechos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)

terça-feira, 17 de julho de 2007

Exército confirma 1° militar contaminado por HIV no Haiti

O Exército confirmou, ao Estadão, o primeiro caso de um militar brasileiro que retornou da missão de paz das Nações Unidas no Haiti contaminado por HIV, o vírus que causa a Aids. O assunto vem sendo tratado com muita reserva dentro das Forças Armadas.

Trata-se de um oficial, um capitão-médico, que se encontra atualmente realizando exames que irão avaliar sua permanência no Exército, podendo ir para a reserva ou ser reformado. O Haiti é o país mais pobre das Américas e o com maior número de aidéticos fora da África, segundo a ONU: cerca de 6% da população está infectada com HIV ou tem Aids.

O diagnóstico foi dado pela Divisão de Missão de Paz do Comando de Operações Terrestres (Coter), em Brasília, em um período de quatro dias em que o militar ficou isolado após o retorno da missão no Haiti, em 19 de junho. Nesta fase, denominada pelo Exército como "desmobilização", realizam-se exames de saúde, psicológicos e se prepara a reinserção dos militares na sociedade brasileira.

Não foi divulgado em que circunstâncias a doença foi contraída.
Alguns militares acreditam que ele possa ter contraído a doença durante o trabalho, ao fazer alguma cirurgia ou ao ter contato com haitianos sem utilizar luvas ou utensílios necessários.

Durante os seis meses em que o militar atua na missão de paz, normalmente há total abstinência sexual. O relacionamento íntimo com haitianas é expressamente proibido pelo alto comando da ONU. Brasil também não aconselha esse tipo de contato.

Em um país de 8,5 milhões de habitantes, cerca de 280 mil pessoas possuem HIV. ONGs internacionais estimam que entre 5% e 7% da população esteja infectada - em 1993, o número chegou a quase 10%. A Aids é a principal causa de mortes no Caribe entre pessoas de 15 e 44 anos, segundo a Unaids, agência das Nações Unidas de combate à doença.

Desde que a epidemia começou, nos anos 80, mais de 160 mil crianças ficaram órfãs e cerca de 300 mil haitianos morreram de Aids. Apenas em 2006, cerca de 27 mil pessoas contraíram HIV no Caribe. No entanto, de acordo com a Unaids, o número vem decrescendo no Haiti e tem se mantido estável na República Dominicana devido aos trabalhos de agências para educação sexual e distribuição de preservativos.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Haiti: as crianças perdidas de Cité Soleil


Passava das 8h da manhã quando chegamos ao Porto de Waff, bem na periferia de Cité Soleil, a maior e mais violenta favela do Haiti. Dirigimo-nos, através de uns becos e vielas, para o local de uma peixaria comunitária, um dos primeiros projetos sociais da localidade.


Ao longe, coisa de dois quarteirões, podia se ouvir as rajadas de 5,56 mm, calibre das gangues que brigam pelo controle da favela. Depois de uns cinco minutos de uma tensa caminhada, chegamos ao “ancoradouro”. Se Cité Soleil tem todos os adjetivos de uma favela de “quinto mundo”, imagine aquele lugar.


É característica do ser humano se acostumar, se adaptar facilmente aos lugares. E depois de seis meses de Haiti, muita coisa, infelizmente, já parece familiar. Mas aquele espaço, coisa de 500 metros quadrados, cercado por um amontoado de barracos, irrigado por um fétido correr de esgoto, extrapolava toda e qualquer coisa semelhante a um ambiente humano.


O sol forte e o calor, com o cheiro da lama e do lixo, que ornamentava toda a orla, compunha aquela atmosfera pesada. E, misturado aos muitos porcos, estava um punhado de seres humanos sobreviventes de um tragédia social. Do que sobrevivem, isso eu não sei! Não há empregos, áreas de plantação, comércio.


Talvez do mirrado pescado. E entre os adultos, muitas crianças, dezenas delas. A maioria nua ou enfiada em trapos de roupas. Como não se impressionar, não se comover, com a mais indígna vida social de um grupo. Como em qualquer lugar do mundo, os pequeninos logo se aproximam, curiosos com a magia da máquina fotográfica. Três logo se destacam do grupo, tão díspares as suas personalidades e comportamentos.


A primeira delas chama a atenção por sua meiguice e afeto. É uma garotinha de 4 ou 5 anos. Foi uma das primeiras a ser fotografada e a se ver na tela da câmera. A nossa comunicação era por gestos. Ela às vezes dizia algo em creole, inutilmente. Agarrou-se na barra da minha blusa e não mais soltou, nos 30 minutos que passamos em seu habitat.


Como se apegam facilmente e por tão pouco. Parecia agradecida, pelos segundos mágicos proporcionados pela tecnologia.
Cheguei a oferecer-lhe uma caneta BIC de presente, mas foi logo devolvida. Talvez desconhecesse a finalidade do “brinquedo”.


O segundo personagem tinha dois, no máximo três anos. Seu semblante sério, pesado, logo revelaria seu jeito criança, moldado pelo ambiente hostil, violento e insalubre. O tempo todo portava um pequeno objeto de plástico, que manejava como se fosse um revólver. Em todas as fotos, as poses eram como se apontasse a sua arma. E nas suas rápidas escapadas, parecia se duelar com um inimigo imaginável. O que será dele daqui a oito ou dez anos?


E num canto, bem afastado daquele circo, uma pequena lavadeira. Embrenhada, até os joelhos, na maré de lama, com o amarelo de seu vestido se misturando ao multicolorido do lixo. Esfregava, pacientemente, sua peça de roupa, como se estivesse no mais límpido dos rios, atarefada, não nos afazeres de uma criança, mas de uma dona-de-casa. Próximo, uma bacia verde indicava que havia muito mais a lavar do que roupas.


Os insistentes cliques de máquina fotográfica talvez tenham mexido com seus brios e com a sua dignidade. Ela logo se afugentou. Mas as lentes foram mais rápidas e conseguiram eternizar alguns momentos de sua insalubre labuta diária e a piedosa vida das “crianças perdidas” de Cité Soleil.

domingo, 15 de julho de 2007

Haiti: Porto Príncipe, uma capital em agonia


Porto Príncipe é uma das capitais mais miseráveis do mundo. Densamente povoada, tem cerca de 2,5 milhões de habitantes. Cresceu assustadoramente com o decorrer das sucessivas crises políticas e com o negligenciamento da estrutura econômica do país, principalmente a agrária.

O colapso da agricultura, em queda desde a independência, e a devastação ambiental, obrigaram a um êxodo rural volumoso. A população, 72% essencialmente rural até meados do século 20, mudou de perfil rapidamente.

Carente da infra-estrutura básica, ela começou a inchar e a formar bolsões de miséria. A maioria dos habitantes vive em favelas ou guetos, na mais absoluta pobreza. Os serviços básicos, como energia elétrica, água, esgoto e coleta de lixo praticamente não existem.
O trânsito, sem semáforos e com o emaranhado de carros velhos e batidos, é um dos mais congestionados do mundo, num verdadeiro caos urbano.

O fornecimento de energia é racionado. O país tem apenas uma hidrelétrica, incapaz de suprir uma parcela mínima da população, que se socorre ao carvão vegetal e acelera mais ainda a extinção da cobertura verde, já quase inexistente.

A maioria dos bairros de Porto Príncipe tem energia elétrica apenas uma ou duas vezes por semana. Os poucos que podem, têm gerador a diesel. Um drama para os milhões de habitantes, desprovidos das facilidades diárias do século 21, como geladeiras, ferro de passar (o ferro ainda é à brasa!), televisores e demais objetos.

Além da fome que abate um percentual altíssimo, a violência urbana aterroriza a capital. Somados aos crimes comuns de uma grande metrópole pobre, os grupos armados criaram verdadeiros feudos particulares nos bairros.

Eles surgiram, em favelas como Cité Soleil, depois da reassunção do governo pelo ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, em 1994.

Desde então, imperou a lei do crime. Estupros, seqüestros, tráfico de drogas, assassinatos e chacinas se tornaram uma rotina. Uma violência bárbara que vitima principalmente as pessoas mais frágeis, como mulheres e crianças. A expectativa de vida neste país não chega aos 50 anos.

Desde a intervenção das Nações Unidas em 2004, com tropas militares e ajuda humanitária, que o nível de barbárie tem diminuído. Bairros como Bel Air, um favelão no centro da capital, em contraste com o belíssimo Palácio Presidencial, foi pacificado, teve melhora sensível e vive sem o terror das gangues.

Outros, como Cité Soleil, ainda apresentam constantes confrontos com as forças da ONU. Com um nível de segurança precário, os grupos e entidades humanitárias têm dificuldades em assistir às milhares de pessoas, que minguam com menos de um dólar por dia.

Sobre o Autor

Dinomar Miranda é jornalista, brasiliense, mas reside no Recife há 11 anos. Formado pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), começou cedo na área da comunicação social, aos 15 anos, quando se tornou locutor de uma rádio FM, no interior de Goiás. Desde então, apaixonou-se pelo jornalismo.

Em 2001, ainda como estagiário da TV Jornal/SBT Recife, fez um curso de vídeo-repórter, em São Paulo, pelo canal All TV, aprendendo a mesma função dos correspondentes americanos na guerra do Iraque. “Na época, nem imaginava que poderia participar da cobertura de um conflito como o do Haiti”, explica.

O jornalista esteve no Haiti em 2006, de onde assinou, para o JC OnLine, o especial Haiti - pérola negra do Caribe; fez matérias para o Governo Federal, principalmente para site e voz do Brasil; assinou também textos para importantes jornais do país, como o Jornal do Commercio (Recife) e Correio do Povo (Porto Alegre). Ainda do Haiti, colaborou como Repórter Fotográfico para o Jornal O Globo e Folha de São Paulo.

Neste BLOG, com muitas fotos e textos informativos, ele escreve sobre este país emblemático, aproveitando a pesquisa para o livro que breve lançará sobre a primeira república negra a declarar independência na Américas.
Mas adianta que não falará apenas de Haiti. "O Blog é uma ferramenta muito rica e não pode ser restritiva. É para se falar sobre tudo!”, afirma.